quarta-feira, 29 de abril de 2009

Escrevo para ser lido


Eu não deveria estar aqui. Tenho um trabalho do mestrado a fazer, e preciso entregá-lo na sexta. Já é depois de amanhã e ainda nem ao menos comecei. Minha vontade teima em estar diante do blogue, a concatenar palavras, frases, parágrafos... que ninguém lê.

Lembrei do Rubem Braga: ele tem uma bela crônica chamada Meu ideal seria escrever.... Rubem queria compor uma história tão engraçada capaz de alegrar a moça doente da casa cinzenta. Essa história correria de boca a boca, como um raio de sol, tirando gargalhadas de todos. Percorreria cadeias, hospitais, salas de espera. Seria lida por ricos e pobres, ganharia o mundo todo.

Minha pretensão é mais modesta. Não escrevo só para mim – mentiria se afirmasse isso. A necessidade da escrita é muito anterior à qualquer leitura. Como diria Paulo Leminski: "Escrevo. E pronto. Escrevo porque preciso. Preciso porque estou tonto. Ninguém tem nada com isso". Porém, me apetece ser lido.

Pode ser uma masturbação de ego, um intuito barato de reconhecimento e compreensão. Talvez seja mais uma forma de organizar meus pensamentos e partilhá-los. A verdade é que sou ruim com as palavras faladas, então me refugio nos relatos do papel – ou do monitor.

Tinha mais a escrever, mas vou parar. Eu não deveria estar aqui, lembram-se? E o que ainda tenho a dizer é um pouco indizível. Tentarei fazê-lo amanhã. Ou, se estiver muito enrolado com o trabalho, só na semana que vem – não aguentarei tanto tempo, vocês sabem disso.

Ontem tive duas novidades tonteantes e duas conversas instigantes.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Tenho vontades...


Olha lá: eu, de fato, acho que a gente está aqui para evoluir. Não, não... a palavra evoluir talvez faça parecer com essas doutrinas espirituais-orientais. Sou simpatizante de muitas ideias, mas realmente muita coisa virou comércio, negócio, mercado. É difícil saber quem é quem hoje em dia – aquele que tem algo a passar e aquele que pretende vender algo.

No entanto, a vida é deveras enigmática. Não, não... a vida é simples, nós é que somos deveras confusos. Criamos e recriamos códigos sem qualquer critério. Eu, de fato, acho que deveríamos nos abrir às situações antes de tomarmos partido delas. É um excesso de relativismo, quem sabe. Mas é assim que encaro.

Eu tenho vontades que me absorvem. Vontades inquietantes de melhorar o mundo ao meu redor. Vontades leves. Vontades. Há outras pessoas com esses anseios. Pessoas que erram, pessoas que tropeçam, pessoas que vacilam mesmo. Nada, nem ninguém, é perfeito. E não contei novidade alguma nesse clichê bem baixo.

Deveríamos entender que o errado não é errar. Errado é deixar de aprender.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Fiat Lux!

Não há registro. Ou como diria aqui em Portugal, registo. Sou um homem de poucas fotos. A mais bela perdi quando absorvi-me pelo espetáculo da cena. Matheus berrou para que eu sacasse a máquina e congelasse o instante. Na areia clara das dunas de Tramandaí, um cão lépido perseguia uma gaivota freneticamente, tendo o pôr-do-sol ao fundo.

Na ânsia de que pudéssemos guardar no álbum a paisagem em movimento (afinal, ainda estávamos na Era Analógica), atrapalhei-me com a câmera. Confesso que me frustei – e, então, nunca mais tive o afã pelos cliques, flashes e enquadramentos. O cão passou, a ave voou, o sol deitou-se e a areia continuou a deslocar-se sutilmente.

Mais tarde, eu e Matheus concordamos que os melhores registros ficam na nossa memória. A imagem que fiz desse momento é, com certeza, diferente da que ele tem. A foto só iria tirar a fantasia. Talvez o cão nem fosse tão lépido assim, não se tratava de uma gaivota mas uma cambaxirra, o relógio marcasse três e vinte e dois da tarde e a areia tivesse um tom marrom.

Tudo para dizer que não há registro da minha ida ao Estádio da Luz. Fui assistir ao Benfica contra o Marítimo, clube da Ilha da Madeira, e não há uma foto sequer. Ficou mesmo a tal memória poética, ainda que o jogo fosse despretensioso e as bancadas estivessem com 1/3 de sua capacidade.

Mas clima de estádio é contagiante. Como diria o professor Ostermann, filósofo formado em jornalismo esportivo, hoje em dia há dois futebóis: o de estádio e o de estúdio. Sempre vou preferir o primeiro e o coração acelerado pelo início da partida, o percurso até se sentar e avistar o campo, o cheiro de grama úmida... Isso pulsa. É umas das sensações mais plenas que vivo.

Não há registro físico, mas não restam registos emocionais.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Eu, Lisboa (de novo)

É bom se reconhecer no lugar em que se escolheu estar. Avistar as fachadas dos prédios e lojas e sentir-se em casa. Saber caminhar pelas ruas, dar indicações, enveredar-se por atalhos. Adoro olhar mapas e ensaiar trilhas urbanas.

Melhor ainda é adquirir o sentido de orientação, ainda mais porque o meu, normalmente, é péssimo. Vivi em Brasília por 22 anos e sei andar melhor em Florianópolis que na capital federal. Em Lisboa, onde tudo é perto, já fiz enormes trajetos a pé – é mesmo a melhor maneira de se desbravar.

Ontem me guiei por edifícios altos e pelo meu feeling para chegar a um sítio. Percorri um atalho: talvez simples, talvez complexo. O que importa é que eu o fiz, por conta própria. E essa de já andar pela cidade sem se perder, sem pedir informações, sem ver o mapa, é uma grande sensação de reconhecimento e de liberdade.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Ambições


Eu quero ser poeta, quero ser justo, quero ser um pouco de tudo. Quero ser quem não sou, me tornar quem sempre fui, descobrir-me diariamente, divertir-me no impensável. Quero ser responsável e inconsequente, quero ser imprescindível e carente, quero olhar para os lados, caminhar sempre em frente.

Quero escrever, amar, sorrir, ler, cantar, ouvir. Quero preservar quem me entende, entender quem me preserva como amigo, reconhecer o antigo, receber o futuro. Quero gritar no escuro, quero acreditar sem medo, tocar o segredo. Quero criar novas histórias, uma memória que valha, um tempo que fuja, um refúgio no nada, uma sensação partilhada. Quero falar, escutar, dividir com quem sente.

Quero presença: esse pedaço de arte que faz diferença na vida da gente.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Entressono

O sono me beija a testa. Minhas pálpebras pesam com lentidão e eu acho que sonho em velocidade. Penso nela e nas distâncias que separam o hoje do amanhã. Será que ama-se para sempre? Ou o amor só é eternizado porque tem prazo para acabar?

Não tenho sede de vida agora. Só de água. O que ouço lá fora é ilusão de um delírio tímido que tenho quieto. Meus olhos fecham sem que os note fechar, e passeiam pela escuridão onírica, homérica, anímica.

Que doce saudade de quando eu era. De quando escrevia acordado. Mas não me venham com vantagens da razão: quero mesmo a fantasia. Saudade, afinal, de sentir-me cheio de esperança.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Eu, Lisboa


Já ando pelas ruas de Lisboa como se fossem minhas. Reconheço os traços à distância e, na presença de seus prédios antigos, de seus moradores taciturnos, de suas ladeiras ambíguas, me invade a saudade.

Saudade do ausente a gente sente – e aprendeu como é –, mas do presente é coisa distinta. Minhas voltas ensinaram-me a sufocar qualquer tipo de dor causada pelo porvir, qualquer tipo de expectativa que criamos sem nexo. Ou mesmo o inexistente – monstro que adoramos alimentar na imaginação.

Aos poucos tornei-me um cético lúdico, um apaixonado equilibrado. Será o passo certo? Autenticidade talvez seja, e nessa busca constante, vago por aí com a preocupação tão-somente em me reconhecer nas coisas. Já ando pelas ruas de Lisboa como se fossem minhas.

O céu, a chuva, o vento frio, o Tejo, as buzinas intranquilas, os imigrantes, os nativos, o café, os bolos, os miradouros, os azulejos, as lojinhas, as subidas, as descidas, a castanha, os becos, as avenidas: já sou eu aqui. (E serei sempre)

terça-feira, 14 de abril de 2009

Metáfora da vida

Em 21 de fevereiro de 2009, colaborando com a revista PLACAR, estive no estádio Alvalade XXI para acompanhar o dérbi lisboeta Sporting x Benfica. Foi uma experiência indescritível para quem, desde que se entende por gente, tem uma relação íntima com o futebol. O jogo é uma metáfora da vida; a vida é uma metáfora do jogo. Ver e escrever sobre o esporte mais popular do mundo é uma paixão crescente e sem fim.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Novo jeito de caminhar

Foto: Juliana Mello

Quando fiz 18 anos, o meu mundo se abriu à possibilidade (de dirigir). Era a expansão do espaço: o cenário ao redor diminuía, diminuía, diminuía... tomou-me o sentimento de que se é necessário viver em movimento. E lá foi eu, com sonhos e desejos latentes, percorrer em silêncio vontades crescentes.

Quanto fiz 22, e terminei a graduação, os planos já eram emancipatórios. Pelo quatriênio passado, exercitei a paciência – ainda que não muito bem. E então me vi, finalmente, podendo respirar o ar puro da liberdade, pronto a experimentar e disposto a entender que as ausências ensinam muito quando a presença nos vicia. O tempo era de começar. Caminhava, talvez cambaleante, a trajetos amplos.

Quando fiz 24, planejei partir de novo e largar as certezas por uma dúvida inquietante. Celebrei com naturalidade e calma a oportunidade de me refazer.

Quando fiz 25, devaneei de olhos abertos. Sozinho, em meio a tantos, mais uma vez me vi tendo a chance de me superar. Sabia que o ano seguinte seria distinto de tudo que imaginei, de tudo que tinha até então. Não sabia de nada, e era isso que mais me fascinava.

Quando fiz 26, lembrei dos 18 e dos passos que foram dados, entremeados por lógicas e delírios, por risadas e martírios. Um pouco do menino impulsivo ainda reinava. A paixão – alguns chamam de coragem, outros de ousadia; há ainda quem intitule de inconseqüência – me trouxe até aqui e espero que leve a belezas muito mais plenas.

Se um dia pensasse que celebraria um aniversário em Lisboa, me acharia louco. E loucura é mesmo uma das coisas que eu não entendo... só tento mantê-la como aliada.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Uma tarde no Estoril

Passei a tarde de ontem no Estoril. Estive na praia e, apesar do sol, o vento atrapalhou um bocado a estada no famoso ponto turístico de Portugal. Para quem quiser saber (e aqueles que ainda não sabem), o Alessandro, amigo italiano que fazia o concurso de piloto da TAP, superou todas as etapas e conseguiu o emprego. Vai morar no Estoril a partir de segunda-feira.

Sempre achei estranho, na Europa, ver aquelas pessoas pisarem a areia de tênis, calça e agasalho. Mas não é que a gente se habitua? Por não saber como vai estar o tempo, é normal desembarcar na praia todo "encapotado" e, ao longo do calor, realizar um strip de frente para o mar. Tem gringo (não os irmãos patrícios) que leva à risca e fica, literalmente, pelado para trocar de roupa.

Uma amiga, coitada, saiu da entrevista de emprego direto para lá. Mandou mensagem e perguntou se estávamos na praia, pois iria como estava vestida: salto alto, jeans, blusa, cachecol e sobretudo. O detalhe é que ao tirar o sapato, trajava uma meia-calça preta. Teve então de pegar sol como se estivesse fugindo dele. (No fim das contas, foi o próprio sol que desapareceu.)

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Ao meu redor


Por vezes eu sinto que falta falar das coisas ao redor. Das cenas que me fazem, dos momentos que me transmutam. Mas vivo-os, sem a intenção de os dar intensidade. Passo por todos com a noção exata de que não há lógica nas experiências – que não a de não se ter lógica alguma.

Claro, estou sendo raso. Talvez até justifique, nessa superficialidade, toda a minha falta de preparo para ser tão sábio quanto gostaria, tão herói quanto desejo. São expressões... são criações minhas e próprias, que me abastecem de esperança em um dia me tornar melhor.

O fato é que aprendi(o) muito. Sendo profundo ou sendo raso. E às vezes é impossível colocar no papel as coisas ao meu redor. Até tento. E falho – pois ainda não aprendi a ser menos autocrítico. João Gilberto disse uma frase que me marcou: “Eu não pretendo ser perfeito, sabendo que a perfeição é impossível, mas farei o máximo para me afastar da imperfeição”.

É algo mais ou menos assim. E vou seguindo meu rumo com váriações diferentes. Umas me igualam, outras me derrotam. A gente é confuso por natureza... eu só pretendo escolher um caminho e segui-lo com a sobriedade inebriante dos loucos homens sãos. A vida é jornada.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Cheiro de terra molhada


Sabe o carinho na nuca? Tem também o frio na barriga por uma viagem. Um bom dia, uma risada de criança, o obrigado legítimo e imprevisível. A canção que começa baixinha e a gente logo identifica. E repetimos o dia inteiro.

Roupa lavada, passada e dobrada. Mate gelado, pipoca com sal. Andar no meio da rua quando já é noite e dirigir com as janelas abertas e o vento a preencher todo o carro. Sentar na rede para ler... e adormercer.

Mensagem recebida no celular. Abraço à distância e saudades aliviadas. Novas amizades, velhas conversas. Mergulho no mar, banho de sol estirado na areia. Cerveja gelada e um beijo que poderia não ter fim.

Tudo isso por conta do perfume de terra molhada que invadiu meu quarto.

domingo, 5 de abril de 2009

Poeta pensador

Oiço... ou melhor, ouço quase sem parar umas canções do Gabriel Pensador extraídas de álbuns lançados há poucos anos. São faixas inéditas, regravações e novas versões. Sempre fui fã do rapper carioca, mas confesso que por um intervalo imenso achei que ele tivesse “se vendido” ao mainstream.

Quanta besteira. Gabriel é um poeta, além de tudo. E fico cada vez mais convicto disso quando escuto suas letras inteligentes, que dizem muito em rimas ricas. Tás a ver é a música que invadiu os meus ouvidos... é obrigatório que a ouça pelo menos uma vez por dia.

Já postei o vídeo neste espaço, linkado no Youtube. Me arrepia o clipe; as imagens relacionadas às ideias; a força de seus versos. A passagem abaixo sintetiza o sentimento que me preenche:

A palavra saudade só existe em português
Mas nunca faltam nomes se o assunto é ausência
A solidão apavora mas a nova amizade encoraja
E é por isso que a gente viaja
Procurando um reencontro, uma descoberta
Que compense a nossa mais recente despedida
Nosso peito muitas às vezes aperta
Nossa rota é incerta
Mas o que não é incerto na vida?

sábado, 4 de abril de 2009

Melanstalgia

Já faz tempo que não me sentia assim, desanimado. Já faz tempo que o tempo não escorria doloroso por vias vagabundas em meu vão. Já faz tempo que meu coração não dava um nó e eu sucumbia à rasteira do incerto. Já faz tempo que não escorregava e caía torto sem ter os sonhos a me apararem. Já faz muito tempo que o prazer do indizível não transfigurava em inefável des-sentido.

Ou como defini abruptamente: melanstalgia.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Dono de casa

Sim, isto não é um diário. Quanto mais de bordo. Não, isto são apenas relatos. Nenhum com novidades. Escrevo o que quero, do jeito que imagino querer. Traço linhas mentais e não as descarrego na tela. Seleciono e escolho, junto e apresento, mesmo que tudo nasça do improviso.

Minha despretensão pacífica lembrou-se da subjetividade tenra do meu dia. Metade dele, para ser mais preciso (conto este pequeno conto às 15h46). Hoje cortei o cabelo com um jovem pernambucano. Conversei amenidades, e nos unimos pelo tema "surfe".

Havia acordado preguiçoso. Tomei uma caneca de café preto, comi duas fatias de pão e uma tigela de müesli com leite. Respondi a uns e-mails e parti para nadar. A escala no salão e depois cerca de 40 minutos na piscina. Saio revitalizado, leve, disposto.

Resolvi comprar-me um presente de aniversário. Há tempos namoro uma bermuda escura. Experimentei vários tamanhos e estilos, demorei alguns minutos na fila e paguei sem peso no bolso. O dinheiro é curto, mas justo. Desde cedo aprendi a valorizá-lo. "O cínico é o que sabe o preço de tudo e o valor de nada". (Wilde)

Já passei da fase de desgostar de cozinhar somente para mim. Superei esse juízo. Se preciso, crio, recrio ou copio. E quando estou na preparação, até mesmo esqueço das coisas. Hoje, fiz arroz integral com uma mistura muito boa. Para ser sincero, foi o prato que me motivou a contar este pequeno conto. Era carne vermelha, bacon, cogumelo, milho e outros legumes e verduras. Antes de ir à boca, ainda levava queijo ralado – que derretia. Uma delícia. Até mostra que me viro na cozinha.

São 15h59 e, agora, mereço um descanso. Antes, vou estender as roupas que terminaram de lavar. É tudo um bocado divertido...