sábado, 7 de fevereiro de 2009

Companhia

Ela anoiteceu em meus braços. E amanheceu cedo, fitou-me de modo meigo e, silenciosamente, beijou o canto de minha boca. Antes de partir, pôs ordem na bagunça dos cabelos claros e despediu-se baixinho. Deixou no travesseiro um aroma doce.

Ela anoiteceu devagarinho. Puxou parte do cobertor para si, acariciou meu rosto com suas unhas levemente tingidas e virou-se de bruço para sonhar o infinito. E amanheceu assustada com o despertador. Desligou-o de supetão, calculou uns minutos a mais de sono e virou-se para o lado com seu corpo nu.

Ela anoiteceu muito cansada. Contou-me sobre o dia, abraçou-me com um sorriso de covinhas, suspirou fundo e mirou-me duas vezes antes de repousar as pálpebras. Balbuciou estar contente – sem nem perceber o que havia falado. E amanheceu disposta, trouxe o café à cama e lembrou-se da cena de um velho filme.

Ela anoiteceu colada a mim. Cerrou as janelas com medo dos raios e dos trovões. Enlaçou nossos dedos, contraiu os músculos e teve a respiração acelerada. Apenas relaxou quando uma cantiga suave invadiu-lhe os ouvidos. E amanheceu ainda com a melodia na cabeça. Escancarou portas e janelas para contemplar o sol, avidamente.

3 comentários:

Rachel Monteiro disse...

Lindo. Odeio quando escrever um comentário não é o bastante pra manifestar o que senti ao ler o texto; meu coração está apertado. Lindo demais.

Andréa disse...

Gustavo,
isso é música, é poesia pura.
Uma lindeza!!
Beijos,
Andréa

Vera disse...

Dei por mim a ler umas quantas vezes, de tão viciante que é...

Muito bonito, gostei =)

Baci*