sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Ainda era você


Já era 27 e voltei “estranhamente” feliz para casa. Desci a Moraes Soares quase deserta, atravessei na passadeira em frente ao Minipreço e dobrei à esquerda ao Pedemeia. Passei em cima do tapete vermelho, vi o bar brasileiro fechado, enquanto meu peito batia sereno.

Encontrei a porta verde do prédio aberta. Guardei a chave no bolso direito e subi as escadas sem pressa. Evitei o barulho, mas a porta do apartamento rangeu alto. Caminhei a passos cautelosos sob o piso gasto de madeira, coloquei uma fatia de pão na torradeira e a paz de sentir-se no rumo certo pulou dentro de mim.

Larguei o casaco pesado e mais todo o peso dos medos. Levitei na cama baixa, sem mesmo sacar a roupa do corpo. E quando finalmente repousei a cabeça no travesseiro, iluminou-se o quarto escuro. Ainda era você um mês depois.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Crédito literário

Vou financiar o texto desta madrugada. Para isso, peguei emprestado alguns trechos de autores que admiro. Entendam a minha vontade incontida e efervescente de dizer algo...

Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
(Cecília Meireles)

Meu peito bate em um ritmo diferente, e confesso-me assustado. Há, talvez, peças enferrujadas nesta simples engrenagem.

Confie sempre em si próprio e na sua sensibilidade; se estiver enganado, o crescimento natural da sua vida interior conduzi-lo-á lentamente e com o passar do tempo a novos conhecimentos. Deixe que os seus juízos sigam a sua própria evolução silenciosa e impertubável que, como todos os progressos, obedece a uma profunda necessidade interior, não podendo ser imposta nem apressada.”
(Rainer Maria Rilke)

Mas não há mistério, e tomo o caminho. Plantei vastos silêncios e, agora, devo colher constante alegria.

Um caso de amor sem risadas constantes está tecnicamente morto. Não há orgasmos múltiplos que salvem um casal que deixou de rir. O bom humor precede o sexo como termômetro de um relacionamento. Quando e se o sexo arrefece, pode acreditar: as risadas arrefeceram antes. Rir é uma demonstração sublime, superior de sabedoria amorosa. No amor, o humor tem uma virtude lateral, mas relevante: o riso torna a pessoa mais bonita e mais atraente. A carranca enfeia. Uma mulher sistematicamente feroz como um cossaco russo é uma mulher para ser atirada na lata de lixo. Mesmo que seja linda e excepcionalmente dotada na arte do sexo. A beleza passa e o êxtase proporcionado por um grande momento sexual se mede em minutos, segundos até. Mas o mau humor de quem não sabe rir é duradouro.
(Fabio Hernandez)

Pois queria ir muito além do que posso juntar. Sentirei, assim. Basta-me.

Ela diz:
— Obrigada pelo que temos. Você me melhora.
Ele diz:
— E você me faz.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Curiosidades lisboetas (9 - O Carnaval)


- Afinal, como é a folia em Lisboa? Diferente. As pessoas brincam a data com uma alegria e desembaraço impressionantes. O Carnaval contagia as ruas, mobiliza crianças e adultos, colore a velha cidade.

- Foi comum, nesses dias de festa, ver gajos e raparigas andarem fantasiados por aí. Os miúdos roubavam a cena, com minirroupas de policial, bombeiros, super-herói, fada, índio, etc. Enquanto isso, os “grandinhos” abusavam da criatividade.

- Pulei o Carnaval no sábado, ao som de samba e outras músicas tupiniquins. Era cada figura no recinto: brazucas, portugas e mais algumas nacionalidades. A bagunça mascarada foi tanta que em certo momento vi um pirata a la Jack Sparrow flertar com um pseudojogador de ping-pong.

- Na segunda-feira, resolvemos baixar no Bairro Alto. Tomar uns shots e conversar fiado. Mal sabia que aquilo estaria cheio, e com figuras mais estranhas ainda. Há outros sítios em Portugal com o Carnaval “convencional” (desfiles e carros alegóricos), mas o de Lisboa é feito mesmo à moda antiga.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Pacto de existência


Há algum tempo fiz um pacto. Decidi parar de questionar o sentido de estarmos aqui e começar a aproveitar as experiências. Fernando Pessoa quem dizia: “As coisas não têm significação; têm existência”.

Pois já notaram que, vira e mexe, a gente se pega a raciocinar demais, medir as causas e consequências, calcular os passos, definir diretrizes? Planejar é bom, mas tudo em excesso tende a ser caótico. Então abdiquei da minha ansiedade.

Ou de parte dela. Afinal, ganhei inquietação – às vezes bem administrada, com calma e naturalidade; outras vezes com certa impaciência por viver. O fato é que quando atinjo o objetivo de colecionar contos, uma paz se apossa de mim com poder de renovar todas as esperanças do mundo.

O fim de semana esteve nesse patamar. Cobri o dérbi lisboeta Sporting x Benfica, no Estádio Alvalade XXI, pela revista Placar. É nessas horas que sinto ter uma das melhores profissões do planeta. Estava junto a quase 50 mil pessoas, plenas de otimismo e positividade, para assistir a um jogo de futebol.

Se não bastasse, ainda iria escrever sobre isso – e receber! Perfeito. A ficha caiu pouco antes de a bola começar a rolar. E vi o quanto essas pequenas coisas são muito mais importantes que enormes feitos. Tão bom descobrir a cada vez que entro em um estádio o gosto que tenho em fazer o que faço.

À noite ainda arrumei fôlego para “pular” Carnaval ao som de muito samba. Quer dizer, até o vira português tocou, até Mamonas Assassinas entrou no repertório – e eu dancei. Em ótimas companhias, tive uma folia divertida, única, memorável... para, no dia seguinte, curar a ressaca diante do mar, em Cascais.

Foi como Voltaire apontou: “O Ingénuo, segundo o seu costume, acordou ao raiar da aurora, ao cantar do galo [...]. Não era como a boa sociedade que se definha na cama, ociosa, até o Sol ter percorrido metade do seu curso, incapaz de dormir ou de se erguer, consumindo horas preciosas num estado que não é vida nem morte, e que ainda se lamenta de que a existência seja curta”.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Você está bem?

Estou bem sim, apesar de sentir que esta "aventura" tem desgastado muito o meu corpo e começo a querer me assentar. É uma vontade que vai e vem, pois o esforço de recomeçar sempre é muito penoso. Talvez esteja no meio do caminho e precise abraçar com mais força uma determinada idéia: ir ou ficar (no sentido metafórico).

De qualquer modo, ainda que às vezes caia na rotina, que apresenta ótimas perspectivas mas também nos cega para outros olhares, tudo o que tenho vivido é fenomenal. Ontem assisti ao filme Into the Wild. Não sei se já viu ou mesmo ouviu falar. É maravilhoso, com uma sensibilidade tocante e lindíssima história. Até mesmo "travei" para escrever sobre o que senti ao ver... foi sentido e talvez baste – fica difícil colocar em palavras.

Quero tanta coisa na vida. E não passar por ela sem realmente me embeber da sua essência, experimentar o seu elixir. Tantas idéias e tantos desejos me permeiam que sei que o melhor a se fazer é, simplesmente... ser.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Gregos e romanos


Porto que te quero. Mais uma tarde, agora agradável, na cidade do Norte. Pena que minha ida seja sempre com final precoce. Queria desbravar os ares portuenses – mas com alguém que me levasse aos centros certos, sem perder tempo.

Por enquanto, revisitei os lugares de três meses atrás. Agora com céu limpo e clima delicioso. Porto me encantou pelo seu jeito romano de ser. Diria que Lisboa está mais para um estilo grego (e amo a capital, tal e qual meus lares). Meus olhos faíscaram de louvor pelo pôr-do-sol alaranjado bem adiante da Ponte do Infante.

Horas anteriores, aproveitei o descanso dos ponteiros para o meu corriqueiro turismo futebolístico. Já é cena de praxe. Estive no Estádio do Dragão, de forte beleza azul, de imponência condizente com o que o FC Porto se tornou nos últimos anos. Chamou-me grande atenção, porém, que a duas estações da arena, passemos por um sítio chamado Heroísmo.

Oras, não consegui resolver lá o que tinha ido por dever. Pena que as burocracias desta vida – e, às vezes, de outras também – a encurte muito mais. Não sei se é perder, mas passei sete horas do meu dia em um ônibus. E tudo para, no momento do "sim", escutar um "não". É frustrante, ainda que a negativa nem seja para mim. Porém a absorvo.

Tive meu tempo, então, para pensar – e ler: O Ingénio, de Voltaire. Assim mesmo, com agudo no “e”, pois se trata da versão portuguesa. Quanto às diferenças para a língua-mãe, tenho aceitado com tranquilidade a língua-madrasta. Vale sempre aprender. O nosso maior prazer é o da descoberta.

O cansaço é tanto que podia escrever outras mil linhas, e contar-vos sensações que se passam comigo. Imagino quando lêem o que se interrogam. Perguntem, não se acanhem. Lembro dos amigos cá, e meu corpo repousa solitário numa saudade presente que não é do passado, mas do futuro.

Amanhã tudo recomeça. E escreverei mais e mais para abrandar as agonias e as ansiedades. Para cantar a felicidade e evocar a calma. Ou ainda: para tentar fazer com que os relógios parem – em meu tempo.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Mais ou menos


Às vezes tudo parece um grande teste. Pois sim. Um grande teste de nada. A gente vive repetindo: "Se passamos por algo pesado é porque precisamos". Besteira. Estamos sempre cheios de razões e explicações. Estamos sempre em busca de sentidos ocultos, motivos valiosos, contextos heróicos.

Enorme besteira. Não são as coisas que detêm força; somos nós. E me impressiona essa transferência de experiências ao impalpável. Soa como acomodação. Muito mais que dizer: “Ah, se não precisar caminhar por uma trilha de pedras, melhor assim”. Enfatizar que a dor ensina é massageá-la.

Ando a destruir exatamente tudo o que tenho pregado até então. Destruir não: reformar. Mas é por pouco tempo. Fui possuído. Se penso e despenso (ou será dispenso?) com a simplicidade de quem chupa uma laranja, esse problema é tão-somento meu. E somos uma metamorfose...

A verdade – cuide bem quando alguém começa uma frase assim – é que me reinventar em divagações acabou por se tornar o meu esporte preferido. Nunca estive com tanta vontade de simplesmente adormecer de olhos abertos. Enquanto isso, as vozes populares (sabedoras do que se passa ou ecos do senso comum?) recomendam: “É preciso descer ao inferno para ascender ao céu”.

Quer saber? A perfeição é o mais ou menos.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Terra estrangeira

Recebo a visita literária de um amigo distante...

O instante de libertação é a grande recompensa do vagabundo; só mais tarde ele sente que uma pessoa é feita de muitas almas, e que várias, dele, ficaram penando na cidade abandonada. E há também instantes bons, em terra estrangeira, melhores que o das excitações e descobertas, e as súbitas visões de belezas sonhadas. São aqueles momentos mansos em que, de uma janela ou da mesa de um bar, ele vê, de repente, a cidade estranha, no palor do crepúsculo, respirar suavemente como velha amiga, e reconhece que aquele perfil de casas e chaminés já é um pouco, e docemente, coisa sua.

Mas há também, e não vale a pena esconder nem esquecer isso, aqueles momentos de solidão e de morno desespero; aquela surda saudade que não é de terra nem de gente, e é de tudo, é de um ar em que se fica mais distraído, é de um cheiro antigo de chuva na terra da infância, é de qualquer coisa esquecida e humilde - torresmo, moleque passando na bicicleta assobiando samba, goiabeira, conversa mole, peteca, qualquer bobagem. Mas então as bobagens do estrangeiro não rimam com a gente, as ruas são hostis e as casas se fecham com egoísmo, e a alegria dos outros que passam rindo e falando alto em sua língua dói no exilado como bofetadas injustas. Há o momento em que você defronta o telefone na mesa da cabeceira e não tem com quem falar, e olha a imensa lista de nomes desconhecidos com um tédio cruel.

Ele se chama Rubem Braga.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Sexta-feira 13


Cedo ou tarde, sabia que escreveria sobre isso. Ando desgastado, cansado mesmo, da vida de estudante-imigrante. Privei-me das conquistas recentes, enfrentei de peito aberto o recomeço, busquei sentidos ausentes em mim. Agora absorvo as carências e meu corpo acusa uma imensa fadiga – física, emocional e psicológica.

Sim, o vento frio ainda lambe o meu rosto. Sutil e demoradamente. Sim, a cultura distinta ainda me ensina várias coisas. Sou verdades que me encontraram no beco escuro da percepção. Sim, as pessoas ainda renovam minhas escassas energias. Cresço – e me torno melhor – com elas.

Assustei quando, outro dia, me observei no espelho: magro de forças. Calculo que perdi uns cinco a seis quilos desde que cheguei a Lisboa, pesando 70. Raquítico e patético, tenho acordado e dormido preocupado. Só finjo a calma quando quero, a naturalidade quando consigo.

E o tempo corre, com a velocidade de uma flecha que errará o alvo. O tempo foge, com a obstinação cega do calendário. Já são 13 de fevereiro. Um sexta-feira abençoada pelo meu desabafo.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Recado após o sinal

Rui, não esqueci de ti. Falta-me tempo para dar uma corrida até o Porto. Parece que as férias estão mais agitadas que o período de aulas.

Mãe, recebi os papéis por correio e agora preciso regularizar a situação do seguro de saúde no ministério. Ainda não assisti ao vídeo. Te direi, com certeza, o que acho.

Pai, dia 22 tem Sporting x Benfica no Alvalade, e vou cobrir pela Placar. Além da oportunidade, receberei uma boa grana. E nosso Mengo, tem empolgado? O que sei é que a Seleção parece ter acordado...

Di, já disse que o quarto é grande e cabe uma visita. Domingo passado lembrei do concurso e torci muito por você. Está menos frio por aqui e, em breve, é primavera.

Matheus, estive com o Alessandro. O bambino continua uma peça, cheio de malícia brasileira e com espírito aventureiro. A todo momento lembrava que só faltava você para fechar o trio.

Paulista, andas sumido! Mas eu imagino que seja em função do trabalho. Daqui alguns dias vai fazer um ano para o dia “D”. Mal canso por esperar.

E por ora é tudo.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Trivialidades em português

Daqui a algumas horas chega a Lisboa um amigo italiano que vem me visitar. Bem, o gajo deixará o currículo na TAP, preencherá um cadastro e depois nos encontraremos próximo ao restaurante Portugália.

Há tempos – desde 2003! – não vejo o Alessandro. É um bambino porreiro, e trombar com ele após a derrota da Azzurra diante do Brasil tem lá sua graça. Daremos uma volta na cidade e, à noite, terá uma granda cena no templo sagrado lisboeta: jazz no Chapitô.

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Resolvi escrever de tudo um pouco. Por isso, começo pelo início. A saúde anda fixe, mas preciso fazer exercício. Busquei uma piscina pública nas redondezas e decidi que em março estréio o fato de banho cinzento da Sport Zone.

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Emagreci muito. E ainda dizem que engordamos no inverno. Parece anedota. Minhas refeições são instáveis, é verdade, porém estou sempre a comer na cafeteria. Afinal, gosto de várias coisas: o pastel de galinha com cogumelo, os rissóis de camarão, a queijada de amêndoa e gila, o pão-de-deus com fiambre...

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Sim, estou a trabalhar no mesmo sítio. O ordenado não é lá essas coisas, mas com ele consigo pagar a renda e as despesas, carregar o passe de metro e o telemóvel, abastecer a despensa com massas, cereais, leite, ovo e outros produtos da marca Pingo Doce ou O Dia – que vão de chocolate a chá frio.

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O mestrado passa pelo sua época de férias. Após quatro meses lixados, com alguns colegas a pensar que os seminários poderiam ser melhores, chegou ao fim o primeiro semestre. A partir de março tem mais... que se sucederá a novos adeuses, uma vez que parte da malta deve regressar ao Brasil e Moçambique.

...

A princípio, digo ao povo que fico. No entanto, só definirei isso daqui uns meses. Dificilmente verei a família e os amigos em junho, apesar de ter passagem comprada e apetecer-me de ir. Caraças, o euro ainda está bué da caro e não compensa a aventura financeira. Então fico na Europa – marado, mas... vá lá... conformado.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Pequenos nadas

Um sábio professor me reensinou que o que conta é o amor. Explicou sobre tantas coisas ao longo das aulas, me apresentou a vários conhecimentos, somou diversas sensações à trajetória que construo diariamente... e acabou por me lembrar da paixão que a gente deve ter a cada instante, por cada momento.

Somos feitos de pequenos nadas, afinal. Se pudesse compartilhar a paz que me envolve, se pudesse abrir meu peito para que as belezas incandescentes voassem e ganhassem outros corações, se pudesse depositar sonhos nas mentes incrédulas, faria do mundo um lugar melhor.

As pessoas mostram que posso tudo. Não é errado ser correto. Nem é fraqueza estar perdido. Leio frases, ouço canções. Misturo tempos, mastigo interpretações. Escrevo sem ordem, porque a minha ordem é fazer o bem.

Existem várias coisas que eu sei. Eu. Sei. Com tanta clareza, mas tanta clareza, que nem ao menos me é dada a consciência de saber. E isso basta. E é assim. E simplesmente acontece, levando-me adiante, completando-me por dentro.

Voltei uns 15 anos ao ver o clipe e escutar a música abaixo. Admiro o Gabriel Pensador como artista e pessoa. Talvez não meça o seu peso na minha vida literária... acho que a gente nunca sabe, exatamente, onde e quando vamos nos tornando, aos poucos, naquilo que sempre seremos.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Companhia

Ela anoiteceu em meus braços. E amanheceu cedo, fitou-me de modo meigo e, silenciosamente, beijou o canto de minha boca. Antes de partir, pôs ordem na bagunça dos cabelos claros e despediu-se baixinho. Deixou no travesseiro um aroma doce.

Ela anoiteceu devagarinho. Puxou parte do cobertor para si, acariciou meu rosto com suas unhas levemente tingidas e virou-se de bruço para sonhar o infinito. E amanheceu assustada com o despertador. Desligou-o de supetão, calculou uns minutos a mais de sono e virou-se para o lado com seu corpo nu.

Ela anoiteceu muito cansada. Contou-me sobre o dia, abraçou-me com um sorriso de covinhas, suspirou fundo e mirou-me duas vezes antes de repousar as pálpebras. Balbuciou estar contente – sem nem perceber o que havia falado. E amanheceu disposta, trouxe o café à cama e lembrou-se da cena de um velho filme.

Ela anoiteceu colada a mim. Cerrou as janelas com medo dos raios e dos trovões. Enlaçou nossos dedos, contraiu os músculos e teve a respiração acelerada. Apenas relaxou quando uma cantiga suave invadiu-lhe os ouvidos. E amanheceu ainda com a melodia na cabeça. Escancarou portas e janelas para contemplar o sol, avidamente.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Passeios oníricos

Lá vamos nós de novo, mas vou escrever sobre os meus sonhos. Noites dessas, estive pela redação do Diário Catarinense. Trabalhei pouco mais de dois anos no edifício espiral, em que as editorias lembravam pequenos aquários. Não há escadas, e sim uma rampa que dá acesso às salas.

Me reencontrei com o local, rodeado por ex-colegas. Alguns iguais quando os vi pela última vez, alguns diferentes. Nem todos estavam presentes, é verdade. Mas deu para matar a saudade, de um certo modo.

Todavia, ainda estou com saudade – é outro estado de espírito que tenho evocado ultimamente – de jogar futebol. Sonhei que calçava as chuteiras e dava uns pontapés à bola, apesar de não recordar bem essa parte. A pelada onírica foi com uns amigos do tempo de colégio, e eu vestia uma velha camisa do Fla.

Também imaginei, de olhos cerrados, que voltava ao prédio onde morei, por um ano e meio, em Florianópolis. E, numa outra vez, que estava no Brasil com uns amigos daqui.

Enfim, a cama à japonesa e o edredom chinês têm estimulado a magia transcendental. Não que isso tenha a ver mesmo, mas é sempre bom sonhar que sim.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Balanço dos quatro


Hoje é dia 4. Amanhã é 5. Aniversário de minha mãe. A família deixei toda no Brasil. Brasil que me dá saudades. Saudades que se alternam com nostalgia. Adeuses que não findaram recordações – as enfatizaram. Mover-se é colecionar histórias e visões de mundo.

Hoje é dia 4. Completo quatro meses em Lisboa. Lisboa que me recebeu tão bem. O vento frio lambe o rosto enquanto caminho pelas suas ruas. Daqui a pouco vem o calor. A vida é feita de várias vidas. Estive só. Preciso da solidão para me completar de mim.

Hoje é dia 4. E cada período que passou aprendi uma coisa. Sempre soube que precisava desta jornada. No entanto, ela se passa quando tinha de passar. Foi isso que me peguei a pensar dias atrás. Toda a experiência dos últimos quatro anos é indizível, imensurável.

Hoje é dia 4. Estou feliz com o caminho que tenho percorrido. Serenamente feliz, serenamente pleno. Arrebatado por sentimentos múltiplos – igualmente indizíveis, igualmente imensuráveis. Existência que segue, com intensidade quatro vezes maior que sempre.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Um sonho torto

Acordei de um sonho torto. Cedo. Aos desejos inexistentes e vontades recriadas. Acordei roto, de um sonho torto em que eu não me contentava com nada. Com o passado nem com o futuro; o que foi ou o que está por vir. Havia atingido o ápice neurótico da minha neurose apática.

Tenho uma particularidade nos sonhos. Os vivencio com lucidez. (Pelo menos esses em que estou de olhos fechados.) Consigo sair do cenário ludibriante, ausentar-me dos devaneios da cama e, como se parasse um filme, raciocinar sobre o que se passa.

É uma racionalidade expressiva. Um artefato que talvez explique de vez essa idéia de que saímos do corpo ao sonhar. Ou simplesmente sou um ser preocupado demais com o me deixar levar pela fantasia...

Fato é que sonhei torto, e sonho torto cada vez, com a garganta árida. O sentido que forma – e reforma – consciências está em falta comigo. Estou no último assento do trem, a contemplar a paisagem, mas sem passar por ela. Lembro pouco de onde vim, nada sei sobre onde estou, desconheço onde chegarei.

Ainda não acordei de um sonho torto. Cedo.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Pesar

Não é bem este tipo de e-mail que gostaria de te mandar. Há muito que não nos falamos e, com certeza, minha intenção era conversarmos sobre assuntos mais alegres. Fiquei sabendo da morte de seu pai. Uma morte assim, repentina, súbita – num domingo.

Fiquei sabendo que ele saiu para caminhar no parque, que voltou para o almoço, que uma hora depois sentiu-se mal. Ataque do coração. Me disseram que foi essa a causa. Justo o coração, tão ligado à vida, ao amor, à esperança, à poesia. Eis um dos tantos paradoxos da nossa existência.

Nunca perdi ninguém tão próximo, e confesso que o fim me comove com certo fascínio. O sofrimento vem é com a forma que ele chega. No seu caso, imagino o tanto que tenha sido doloroso. No dia seguinte não ter mais o sorriso, o olhar, a palavra.

Mas seja forte – por mais que já tenham repetido isso incessantemente a você. Seja forte pois tens uma áurea maravilhosa, uma pureza apaziguadora. E se nunca disse isso, quem sabe por conta da minha displicência emocional, te escrevo agora. Sempre foste um exemplo para nós: de amizade, persistência e carinho.

As jornadas que seguem carregam sempre as paisagens e memórias. Nunca as perca. Somos feito disso: de presença e de histórias. Ainda que elas não sejam palpáveis, estão lá. É pela nossa sensibilidade que devemos exercitar a calma. E, da calma, aprendemos cada vez mais a sermos sensíveis com o mundo.

Meus melhores votos e um abraço amigo.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Papos de metro


As viagens de metro sempre rendem ótimas conversas. Até que a vida de “topeira” não é tão ruim assim. Tudo bem que perdemos o que acontece sobre a terra, mas existe beleza nos trajetos subterrâneos. O contato com gente – das mais distintas possíveis – por si só já entretêm.

Porém falava dos papos acalorados nas profundezas de Lisboa. Quando voltamos das aulas do mestrado a cabeça está a fervilhar. Discute-se de tudo – passado, futuro, amor, desamor, política, futebol, jornalismo, emigração, imigração... nenhum assunto escapa. Na sexta-feira mesmo, engrenamos para o lado da relação homem-mulher. Mais especificamente para a vertente: o homem joga?

A Rebeca, cearense de Fortaleza, desacredita. Com certa veemência, diz que somos práticos demais para isso. Que não nos sujeitamos a perder tempo. No que concordo. Mas apenas nesse último ponto. Homem joga sim. Atua. Planeja. Planta. Colhe. No entanto, fantasia menos – ou mais escondido – que a mulher.

A Juliana, paulista de Ribeirão Preto, preferiu escutar. Não se manifestou. Mas todos jogamos, porque a vida é mesmo um jogo – esqueçam o sentido maquiavélico, apóio-me na simples premissa de que toda relação, naturalmente, é um jogo de trocas, um jogo de doações, de ceder, de querer, de testar, de recuar, de esperar. Impossível ficar fora desse tabuleiro.

Homem joga, e comenta com o outro, e traça objetivos, e antecipa ações. Mas é contido – diria que vai além de ser contido: é tímido, um tímido imbecil. Talvez porque quem se expõe na "jogatina" assume as fraquezas. O homem não é fraco. O homem é uma fortaleza sentimental, uma bastilha inexpugnável. (Ou assim quer ser e/ou transparecer.)

Queria que o Ernesto, moçambicano sem papas na língua, participasse do papo. Talvez por uma cultura diferente, talvez por uma sobriedade corajosa, ele destituiu qualquer hipocrisia de sua vida. Já afirmou que é machista – além de pessoal, seria um fator social – e veste a carapuça do “jogador” com naturalidade.

Até porque o gajo é inteligente demais a ponto de saber nomear as coisas que se passam ao seu redor. E arma estratégias, define e redefine comportamentos para atingir suas vontades. Não é o que todos fazemos, afinal? Homem, mulher, velhos ou novos.