quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Em uma fria manhã européia

Manhã fria e me debruço sobre as crônicas maravilhosas de Rubem Braga. Deveria estudar. Tenho ao lado livros de comunicação, ciberespaço, a noção de identidade na Era da Informação. Nada disso me apetece agora.

Quando o autor é bom, por vários momentos o redescobrimos. Tenho três criadores literários, cada qual a seu modo, que verdadeiramente me inspiram saltos de alegria quando os leio. Rubem é um deles – homem simples de Cachoeiro de Itapemirim (ES), considerado o maior cronista brasileiro após Machado de Assis. Nelson Rodrigues e Fernando Pessoa completam o palco.

Estou sempre às voltas com uma obra do trio. Hoje, renasci nas frases mansas, nas palavras próximas de Rubem Braga. Daqui a pouco revivo nas ávidas polémicas rodriguianas – meu trabalho de conclusão de mestrado é sobre a valoração do homem nas crônicas esportivas do jornalista e dramaturgo pernambucano.

São essas fontes que me alimentam. São essas fontes que me fortalecem. E muitas vezes quando os leio penso no que sentiam sobre a morte, sobre o fim, sobre não estarem mais aqui quando as futuras gerações o conhecessem. Escrever é, além de tudo, eternizar-se; talvez por isso eu tenha essa necessidade da escrita.

E como citei pouco Pessoa, aí vai o equilíbrio necessário para este despretensioso texto de uma manhã fria européia:

“[...] o prazer da fama futura é um prazer presente – a fama é que é futura. E é um prazer de orgulho igual a nenhum que qualquer posse material consiga dar. Pode ser, de fato, ilusório, mas seja o que for, é mais largo do que o prazer de gozar só o que está aqui. O milionário americano não pode crer que a posteridade aprecie os seus poemas, visto que não escreveu nenhuns; o caixeiro de praça não pode supor que o futuro se deleite nos seus quadros, visto que nenhuns pintou.

Eu, porém, que na vida transitória não sou nada, posso gozar a visão do futuro a ler esta página, pois efetivamente a escrevo; posso orgulhar-me, como de um filho, da fama que terei, porque, ao menos, tenho com que a ter. E quando penso isto, erguendo-me da mesa, é com uma íntima majestade que a minha estatura invisível se ergue acima de Detroit, Michigan, e de toda a praça de Lisboa.”

Ps.: No fim de semana, ofereço-lhes uma crônica de Rubem Braga, escolhida a dedo – e a muita dúvida.

Um comentário:

Rachel Monteiro disse...

Eita! Que bom que gostou da sugestão.

Então, meu curso na faculdade é o errado, não tem nada a ver com o fato de escrever bem, mas minhas raizes têm, sou cachoeirense. Disso me orgulho!

Beijos.