sábado, 24 de janeiro de 2009

De nostalgia, também me faço


Era nostalgia. Pura, e simplesmente, nostalgia. Por favor, não confundam com saudade. Uma recria; a outra reconstrói. De quando em quando se misturam, nesta reforma interna que vez ou outra nos é impelido fazer.

Mas dizia que era nostalgia. E das brabas. Como ainda não tinha experimentado cá em Lisboa. Acordei tarde e confundi a minha moleza com a gripe que me assolou durante a semana. Era também – porém, mais nostalgia. Pensei, entre buzinas e risadas, o que faço aqui, afinal? Qual é o objetivo desta jornada?

Senti urgência de ter um canto só meu, não mais me sujeitar ao dinheiro contado, trabalhar na profissão e – pasmem! – constituir família. Será a idade que chega, meu Deus? Será que vou me render à rotina, ao básico, ao “ordinário”? Ando tão lógico que me causa náuseas. Onde foi parar a sensibilidade?

Os nossos desejos nunca estão satisfeitos. Lembro que tinha tudo (ou parecia ter) em Florianópolis, pouco antes de decidir por esta viagem à Portugal. Apartamento – alugado, mas todo meu –, emprego na editoria de Esportes do Diário Catarinense, praia, grandes amigos próximos, possibilidade viável de visitar os pais e a irmã... e faltava algo.

Não me arrependo. Nem espero que este texto passe essa conotação. O que vivi e vivo aqui, as pessoas maravilhosas que cruzaram meu caminho e vou levar para o resto da minha trajetória com um carinho imenso, os lugares que conheci... nada disso eu teria conseguido se não fosse por esse ímpeto de cruzar o Atlântico.

O ímpeto de arriscar – e fazer valer cada momento. Torná-lo história.

5 comentários:

Rui disse...

BANZO s.m. (prov. de origem africana) 1. Nostalgia profunda dos negros da África, quando cativos ou ausentes do seu país.
Adj. 2. Que revela abatimento, tristeza.
BN. Surpreendido pelo inesperado, pasmado
4. MG Sem jeito; encabulado

Pois é, cativos de nossos sonhos, sofremos por nossas decisões e em alguns momentos ficamos com dúvidas se nosso sofrimento vale mesmo a pena. Este é o verdadeiro aprendizado. Não tem como conhecer a luz se não estivemos na escuridão. Faça sua história. Abraços.

Luciana Lopes disse...

Você tinha que atravessar o atlântico para poder se encontrar e se se encontrou ou não só o tempo irá dizer. O tempo que é um remédio e é um veneno.

Anônimo disse...

Oi Gustavo nem te conheço mas já gosto muito do teu jeito e de como escreve tua vida também na ficção. Tive a mesma impressão que teu amigo Rui logo que li este teu texto, pensei : ele tá de banzo... Mesmo assim, é um futuro incerto, cheio de reservas, mas que dá inveja. Não desanime prá gente daqui poder continuar sonhando...

Beatriz disse...

olá gustavo,

eu entendo quando vc diz que a sua lógica lhe causa náuseas. É um sentimento estranho que se mistura a vontade de fazer tudo diferente, de conhecer o mundo, de se conhecer antes de ser lógico.
bem, acho que esse é um processo de amadurecimento. como ondas que molham os nossos pés na praia, ele vai e vem até que a gente está pronto para entrar no mar.

Eu acho que você apenas está começando a viver o que sempre buscou.

Parabéns pelo blog. vc escreve muito bem.

Vanessa Amaral disse...

O tempo muda tudo, sempre. A perspectiva, os desejos, os gostos... Parece paradoxal, e é mesmo. Somos complexos o bastante para querer ganhar o mundo num dia e o aconchego de um lar no outro.

Beijos,

Van.