sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Curiosidades lisboetas (8 - O Retorno)

- Após dois meses, tento retomar a série. Ao longo desse tempo, os fatos interessantes se passaram sem que eu os relatasse. Nem tudo foi ignorado, lógico. Os textos convencionais já trazem muito de curiosidades nesta temporada na capital portuguesa.

- Pois na terça vivi na pele algo que já havia descrito aqui: o intervalo nos filmes de cinema. Assisti ao O Estranho Caso de Benjamin Button, com quase três horas de projeção. Lá para a metade apareceu o aviso da pausa. Tempo de esticar a perna, comprar pipoca, dar um pulo na casa de banho. Cinco minutos depois, a película recomeçou.

- E por falar em horário, o metro de Lisboa encerra à 1h. Ruim para quem quer voltar mais tarde para casa. Recorre-se então a autocarro, táxi ou caminhar. Se a companhia topa, escolho sempre o último. É tudo muito próximo, e a cada quarteirão é grande a chance de se deparar com uma figura esquisita...

- Não há criminalidade por estes arredores. O índice é baixíssimo, apesar de tacharem como uma área perigosa. Desde outubro, soube apenas de um caso: no Bairro Alto. E nos trajetos à madrugada, já vi prostitutas, travestis, bêbados engraçados, gajos mal-encarados. Ou seja, só a “nata” de Lisboa.

- Existem muitos restaurantes diferentes. Estou para ir a um nepalês. Fomos ao chinês no último domingo. Chinês chinês, daqueles tradicionais. Mas, claro, tinha um garçom brasileiro. Quem se divertiu com as nossas dúvidas de pratos foi a atendente de olhinhos puxados e riso oriental. Impressionante como se viram falando tão pouco de português.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Madrugada sutil

Um bom filme. Um bom papo. Uma boa caminhada. Uma boa brisa fria no rosto. Uma noite agradável. É preciso sempre redescobrir-se. Só. Ou acompanhado.

De pouco a pouco, as conquistas se constroem serenas e sutis. A gente aprende a sonhar acordado e a dormir despreocupado. Pois Lisboa continua acolhedora, em suas ruas quase desertas, com seus cidadãos à espera do autocarro e seus bêbados capengas.

Daqui um ou dois anos não sei onde estarei. E isso não me aflige. O hoje deve ser aproveitado do melhor modo. Ou seja: sensibilidade e leveza. Digam o que disserem. Desejo-lhes beleza.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Agora posso escrever


O que vocês lêem é incomum. Raramente um texto nasce já sabendo seu nome. Este título eu manufaturei quando as palavras não existiam. Nem mesmo em idéia. Cheguei em casa esgotado após três dias cansativos de labuta, me sentei em frente ao computador para ver os e-mails e... pronto, estava criada a chamada.

Nada criativo ou inspirador. Mas, vá lá, diz um pouco do que será este post. Um pouco para relatar que, finalmente, consegui aquietar. Trabalhei sábado até 23h e depois saí para a casa de uns amigos. Foi uma noite propriamente brasileira: cerveja, cachorro quente e brigadeiro. O saldo: dormi às 3h para estar de pé às 8h30 – pronto para bater o ponto às 10h.

A pesada jornada de domingo começou com a máquina de café leeeentaaa. Assim que ergueram-se as cortinas da cafeteria (lê-se toldo), lá estava a platéia ávida (lê-se os clientes) pela nossa performance (lê-se cafeína). No entanto, tiveram de esperar inquietos. E, para piorar, uma colega moçambicana soube da morte do pai – que ela não via há nove anos, por não ter dinheiro para visitá-lo. Vida de imigrante...

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Às vezes me irrito comigo. Às vezes, vírgula: sempre que me pego a pensar em rotina. Não a rotina inevitável da música do Chico Buarque. (Todo dia eu só penso em poder parar/Meio-dia eu só penso em dizer não/Depois penso na vida pra levar/E me calo com a boca de feijão...) Falo da rotina frenética de uma massa sempre a correr, sempre ocupada, sempre taciturna.

Às vezes, entre essas pessoas, me pego a caminhar às pressas, sem saber muito bem se desejo chegar rápido ou fugir com ligeireza. É quando paro com essa pseudo-eficiência urbana e me ponho a ser a jangada que desliza despreocupada pelo mar turbulento.

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Deixei a seção “Curiosidades lisboetas” de lado. Sabe-se lá o porquê... (Eu sei, e tem a ver com o fragmento acima). Mas como pediram para eu retomar, retreinei meu olhar. Há algumas coisas que preciso anotar, senão perco o fio da história. Em breve, a versão 2009.

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As aulas vão para as duas últimas semanas. Em fevereiro termina o semestre, há uma pausa de 25 dias e regressamos ao mestrado em março. O saldo destes primeiros seis meses é normal: nem euforia, nem frustração. Até porque não criei expectativas. Meu aprendizado, sempre repeti como um papagaio monocórdio, está além dos muros da faculdade.

E, para esse, tiro um diploma a cada dia.

sábado, 24 de janeiro de 2009

De nostalgia, também me faço


Era nostalgia. Pura, e simplesmente, nostalgia. Por favor, não confundam com saudade. Uma recria; a outra reconstrói. De quando em quando se misturam, nesta reforma interna que vez ou outra nos é impelido fazer.

Mas dizia que era nostalgia. E das brabas. Como ainda não tinha experimentado cá em Lisboa. Acordei tarde e confundi a minha moleza com a gripe que me assolou durante a semana. Era também – porém, mais nostalgia. Pensei, entre buzinas e risadas, o que faço aqui, afinal? Qual é o objetivo desta jornada?

Senti urgência de ter um canto só meu, não mais me sujeitar ao dinheiro contado, trabalhar na profissão e – pasmem! – constituir família. Será a idade que chega, meu Deus? Será que vou me render à rotina, ao básico, ao “ordinário”? Ando tão lógico que me causa náuseas. Onde foi parar a sensibilidade?

Os nossos desejos nunca estão satisfeitos. Lembro que tinha tudo (ou parecia ter) em Florianópolis, pouco antes de decidir por esta viagem à Portugal. Apartamento – alugado, mas todo meu –, emprego na editoria de Esportes do Diário Catarinense, praia, grandes amigos próximos, possibilidade viável de visitar os pais e a irmã... e faltava algo.

Não me arrependo. Nem espero que este texto passe essa conotação. O que vivi e vivo aqui, as pessoas maravilhosas que cruzaram meu caminho e vou levar para o resto da minha trajetória com um carinho imenso, os lugares que conheci... nada disso eu teria conseguido se não fosse por esse ímpeto de cruzar o Atlântico.

O ímpeto de arriscar – e fazer valer cada momento. Torná-lo história.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Estou gripado

Cada vez que uma gripe perfura meu bem-estar com sua fúria efêmera, compadeço. É quando sinto o quanto dependo da saúde de meu corpo. Fico pesado e lento. Preguiçoso e sonolento. Dolorido e desmotivado. E, entre tudo isso que uma gripe traz, fulgura a sensação de fragilidade.

É nossa corriqueira e banal experiência de quase morte.

Ou melhor, de plena vida.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Sobre o apartamento novo


Falei pouco – ou melhor, nada – sobre a casa nova. De fato, tenho deixado o que acontece lá fora à margem de apreciação textual. Chove, e faz um frio ameno – cá dentro também.

Mas sobre a casa, queria dar tempo ao tempo; passar a euforia que qualquer mudança instiga e ter condição de analisar o ambiente com os olhos da razão. Pretensão jovial. Isso nunca será possível. Mas, pela vivência, já sou capaz de dizer o que se tira de bom e de ruim na empreitada.

Mudou os ares. Isso é notório. Me sinto mais leve por não carregar os pesos de outras pessoas. Ainda mais por se tratar de pessoas que não têm vontade de crescer. Sou bom, tento ser melhor, vislumbro a paciência e a gentileza, mas há limite para tudo. E quando percebi que lidava com tipos difíceis numa fase em que busco a simplicidade, pulei fora.

Aliado à leveza, está a integração. São três companheiros neste apartamento – contra o dobro no outro, e mais um cachorro. Lá tinha o meu banheiro. Grande coisa quando se tem uma sala. Aprendi que a sala é um espaço importante quando se mora em grupo. É o ponto de convergência – e também de fuga.

A nova cozinha, apesar de mais velha e menos equipada, é mais espaçosa e acolhedora. As refeições ocorrem entre um e entre todos. Divide-se. Partilha-se. Dá-se. E tudo num clima amistoso e sereno – envolve dinheiro, entre pessoas que trabalham duro para juntar algum, porém isto parece aproximar mais que distanciar.

Pago menos aqui que lá. Tenho, talvez, mais despesas, por ser impossível rejeitar vinho numa noite em que chego do trabalho ou um jantar após a aula. Acontece – é o que chamam de socialização. E uma socialização benéfica, fortificante, enraizadora. Vivo com um brasileiro (de Recife), um português e uma italiana. Ótima troca de cultura.

Então, agora falei sobre a casa nova. E espero só contar bons casos.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Entre umas e outras

Minha vida anda recheada de boas emoções. Às vezes, uma preocupação ou outra. Nada permanente ou consistente. Um cansaço físico, uma fadiga mental, um desgaste sentimental. Coisas irrelevantes e corriqueiras. Quando a gente constrói uma base sólida para sustentar esses pesos, tudo fica natural e calmo – para usar a expressão de Pessoa, mais uma vez.

Aliás, mais importante que ser feliz, é ser tranquilo em relação ao que se passa nos planos que traçamos – ou nas cenas que surgem, de improviso, ao longo do caminho. E tenho exercitado, com uns tantos desvios de rota, a idéia de evoluir internamente. Ninguém sabe o peso que a gente carrega dentro de si, e só nós mesmos podemos lidar com isso. Mudar o panorama, se assim tem de ser.

Hoje me sinto pleno. Ontem me sentia também. Olho para frente e sonho, com sutileza. Olho para trás e me orgulho, com profundidade. Nada é raso ou vão. Minha trilha pode estar sendo aberta sem saber muito bem onde chegar, mas há nela uma autenticidade inenarrável. Porque viver é muito mais que simplesmente existir: é influenciar de modo positivo – e fazer valer estar aqui.

domingo, 18 de janeiro de 2009

O casal vai casar


Um grande amigo anunciou que vai casar. Já tem data marcada e me convidou pra ser padrinho. Mesmo estando longe, nem penso em faltar à cerimônia. Muito menos recusar a assertiva de estar no altar ao lado do casal.

Ele é um dos seres racionais mais emocionais e sensíveis que conheço. E lá se vai uma década de amizade, que iniciou por acaso. Não tanto pelas afinidades, profundas e que se revelaram apenas depois, mas pela serenidade que ele emana.

Histórias não faltam. Como quando matamos aula em sua casa (morava a pouco metros do colégio). O detalhe é que a professora a qual deveríamos estar ouvindo era a própria mãe do gajo. Pior ainda: depois almoçamos um espaguete ao molho vermelho e almôndegas preparado por ela, na maior cara-de-pau.

Recordo os treinos de basquete, sempre divertidos. A fuga da polícia em uma festa junina. O acidente de carro para desviar de um calango na pista (espécie de lagarto do cerrado brasileiro). As viagens. As conversas. Os conselhos. A subida “complicada” no Pátio Brasil. Os jogos de vôlei – impossível esquecer a pose para sacar. Os encontros e desencontros.

(Não pensei que o texto se tornaria saudosista. Era uma ode ao futuro e acabei por regressar a cenas que me fortalecem quando estou cabisbaixo. Lembrar do passado me reconstitui, especialmente por contar com pessoas e contos tão especiais.)

Mas também quero falar dela: A Noiva. Que há cerca de dois anos fui apresentado e me encantei. Verdadeiramente me encantei. Impossível ter outra reação que não essa. Ela é linda, simpática e tem uma risada deliciosa. A melhor que qualquer um pode se deparar. Ouso dizer que existem as risadas antes e depois da dela.

É uma dupla maravilhosa, que inspira alegria. Por isso me emocionou saber da decisão do casório – que era inevitável, para usar as palavras de outro amigo-padrinho. E, se costumam chamar de amor qualquer sentimento que floresce em nosso peito, muitas vezes sem ser mesmo amor, para esses dois posso consumar: é, definitiva e sumariamente, amor.

E será por muito tempo... nas vidas deles e nas nossas. Porque o amor tem disso: ele se espalha e abraça todos à volta.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Devaneio insone

Acordei no meio da noite com anseio de viver. Tanta coisa que se passa, tantos adeuses e saudades, tantos amores e gostos, mais mil sensações que não consigo descrever. Pra que isso, afinal?

Respiro lentamente; doces lágrimas descem pela minha face rosada. Eu sinto, eu sinto, eu sinto. E o estômago embrulha de intensidade. Tenho vontade de abraçar o mundo com a inocência de uma criança. Coisas que vão e vêm, coisas que desaparecem, coisas que nem notamos... coisas tão próximas e tão longe.

Fecho os olhos. Aguço os ouvidos. Planto imaginação. Vivo, com prazer que aprendi a cultivar. Quero fazer o bem, sempre. É do meu ser. Adormeço com um sorriso – para amanhecer.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Tudo é ensinamento

Pouco sei o que me espera no amanhã. Sou filho do mundo. Aonde vou parar? Com quem irei estar? Quando vou assentar? Todas essas questões são como uma estrada coberta de névoa – branca, plácida e densa. Conversava dia desses, entre goles de chá de laranja, sobre planos.

Não os tenho.

Nem sinto a falta de traçar minha vida com régua e compasso. As linhas tortas também são linhas, também levam a algum lugar, também nos fazem perdurar. Se tenho algo contra quem organiza o destino? Claro que não! Já fui metódico, e fazia esforço para aprender a lidar com a ansiedade. (O ato de delinear o porvir gera expectativa, e é preciso parcimônia para controlá-la e não trazer frustração).

Porque tudo é ensinamento.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

As belas e o feio

Sim, sou incapaz de um oi, um boa tarde, um sorriso simpático que seja a uma mulher deslumbrante. A simples presença do lindo rosto feminino me embaraça de tal maneira que as mãos suam e o coração acelera. A beleza espanta meus pensamentos lógicos. Fico estático e patético, manobrando um jogo infantil de olhares: desvio o meu quando ela olha, e volto a fitá-la quando seus olhos se perdem n'outro lugar.

Ao mesmo tempo em que me mostro dócil e acuado, como um vira-lata das películas em Nova York, tenho alma de passarinho que vai cantar em janelas alheias. Para a mulher comum, talvez nem tão linda, mas com charme, distribuo olhares penetrantes e sorrisos elásticos. De graça. E vejo em seu rosto a satisfação de tamanho altruísmo. Há de se dizer que sou um Betinho do flerte, uma Madre Tereza de Calcutá da paquera.

Bobagem. Vislumbro a beleza exótica. Sou fascinado por ela. Prefiro cem vezes, mil vezes, a mulher com um algo a mais que o físico, um élan transcendental, o je ne se quois, àquela mulher triunfante, de parar o trânsito. Dir-se-ia que o maior desgosto do feio não está em sua condição de ser feio. O feio se ressente é de como ele é visto pelos outros, e o quanto isso diminui a possibilidade de conquistar uma mulher bonita.

Mas não é meu caso – dizem. Sou do tipo razoável. Às vezes, sob pouca luz e a roupa correta, consigo me passar por bem-apessoado. Se sou feio, o sou internamente. Nas minhas entranhas, no meu âmago. Um feio do estilo patinho, da estirpe do corcunda.

Feio, sim, de conteúdo. Dr. Jekyll que esconde Mr. Hyde nas profundezas.

(Este texto foi escrito em 6/9/2008)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Quando o sorriso vem...

Às vezes, não estamos muito para sorrir. Às vezes, a gente está sisudo por um motivo sério qualquer. Cruzamos a rua sem olhar pros lados, esbarramos nas pessoas sem pedir desculpas, rejeitamos as ajudas sem achar que precisamos delas.

Simplesmente franzimos a testa como se uma coisa muito importante se passasse. Talvez a seriedade nem seja assim tão sólida – e mais: talvez nem haja seriedade! Mas a invocamos, com a necessidade de carregar a vida de "halteres" desprezíveis.

Foi numa dessas horas de severo fingimento consentido que escutei uma canção singela da Nina Simone. My Baby Just Cares For Me. E o ritmo crescente, e a voz harmônica, e as lembranças recentes me fizeram abrir um sorriso espontâneo e complacente.

Junto, trouxe o desejo ambicioso de ter essa alegria sempre, sempre, sempre...

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(Este vídeo é uma animação de The Sims tendo Nina Simone como trilha)

domingo, 11 de janeiro de 2009

A palavra*

Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito – como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de viver em voz alta.

Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.

Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento – e depois esqueci.

Tenho uma amiga que certa vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa ao piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um pouco alto durante uma transmissão de jogo de futebol... mas o canário não cantava.

Um dia a minha amiga estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de Beethoven – e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro?

Alguma coisa que eu disse distraído – talvez palavras de algum poeta antigo – foi despertar melodia; esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo; iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.

* Rubem Braga, novembro de 1959

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Coberto(r) de vida

Que delícia este frio que congela os instantes. Está quase zero grau lá fora e escrevo debaixo de casacos, mantas e sentimentos. Penso na aula de hoje: sempre a melhor da semana. E não apenas por causa do conteúdo apreendido – o verdadeiro ensinamento está na valência sensitiva do mestre Adriano Duarte Rodrigues. Sexta-feira é um dia inspirador.

Gosto de captar. Gosto de perceber muito além do lógico, do visível, do anunciado. Esse exercício de introspecção espiritual – não no sentido religioso da palavra – me traz cada vez mais paz. É saber que estou no meu caminho certo. No rumo correto para alcançar a minha autenticidade.

Por muito tempo procurei as respostas, e por esse mesmo tempo formulei perguntas equivocadas. Não procuro mais nada; vivo nos questionamentos sabendo que eles perduram e se redefinem por si. Ser íntegro com suas verdades é paciência pura. E ter paciência é valorizar o presente.

Os pensamentos se embaraçam ao tentar explicar tudo isso. Sinto, e significar confunde. Porém encontrei as coisas – desculpem a pobreza vocabulária e descritiva – que me cobrem de vida. Como uma manta grossa que aquece para o frio. E meu peito fica leve, meus olhos brilham e experimento um ar tão tenro, tão pleno, que me... torno infinito por uns segundos.

(Então amo a humanidade com ardor, escaldado pela esperança.)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Em uma fria manhã européia

Manhã fria e me debruço sobre as crônicas maravilhosas de Rubem Braga. Deveria estudar. Tenho ao lado livros de comunicação, ciberespaço, a noção de identidade na Era da Informação. Nada disso me apetece agora.

Quando o autor é bom, por vários momentos o redescobrimos. Tenho três criadores literários, cada qual a seu modo, que verdadeiramente me inspiram saltos de alegria quando os leio. Rubem é um deles – homem simples de Cachoeiro de Itapemirim (ES), considerado o maior cronista brasileiro após Machado de Assis. Nelson Rodrigues e Fernando Pessoa completam o palco.

Estou sempre às voltas com uma obra do trio. Hoje, renasci nas frases mansas, nas palavras próximas de Rubem Braga. Daqui a pouco revivo nas ávidas polémicas rodriguianas – meu trabalho de conclusão de mestrado é sobre a valoração do homem nas crônicas esportivas do jornalista e dramaturgo pernambucano.

São essas fontes que me alimentam. São essas fontes que me fortalecem. E muitas vezes quando os leio penso no que sentiam sobre a morte, sobre o fim, sobre não estarem mais aqui quando as futuras gerações o conhecessem. Escrever é, além de tudo, eternizar-se; talvez por isso eu tenha essa necessidade da escrita.

E como citei pouco Pessoa, aí vai o equilíbrio necessário para este despretensioso texto de uma manhã fria européia:

“[...] o prazer da fama futura é um prazer presente – a fama é que é futura. E é um prazer de orgulho igual a nenhum que qualquer posse material consiga dar. Pode ser, de fato, ilusório, mas seja o que for, é mais largo do que o prazer de gozar só o que está aqui. O milionário americano não pode crer que a posteridade aprecie os seus poemas, visto que não escreveu nenhuns; o caixeiro de praça não pode supor que o futuro se deleite nos seus quadros, visto que nenhuns pintou.

Eu, porém, que na vida transitória não sou nada, posso gozar a visão do futuro a ler esta página, pois efetivamente a escrevo; posso orgulhar-me, como de um filho, da fama que terei, porque, ao menos, tenho com que a ter. E quando penso isto, erguendo-me da mesa, é com uma íntima majestade que a minha estatura invisível se ergue acima de Detroit, Michigan, e de toda a praça de Lisboa.”

Ps.: No fim de semana, ofereço-lhes uma crônica de Rubem Braga, escolhida a dedo – e a muita dúvida.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Colhendo os frutos


Pode até ser que 2009 nem seja tudo isso que pressinto que será. Pode ser que aconteça algo de ruim, uma decepção pessoal, uma frustração profissional, um tropeço emocional. Sabe-se lá o que o futuro nos reserva – está aí a graça! Mas, por enquanto (e sempre), vivo o hoje. E o hoje tem sido generoso.

Não digo só para mim. Para muitos a minha volta também. Vejam o Matheus, de amizade para além dos 15 anos: 2008 começou meio estranho e teve mais baixos que altos na sua longa duração. Agora ele já pode celebrar uma renovação na mente, no espírito e no coração.

A Cibele é outra que transcendeu as intempéries dos 12 meses anteriores com o seu tradicional e delicioso bom-humor – mas, ainda, com uma dose de loucura que lhe é peculiar (e já faz parte de seu charme). A urgência não resolve nada. Apenas esconde. É como colocar fita-cola no vazamento d'água...

Plantamos paciência para colher serenidade. E desse modo vou levando 2009. Tenho muito a escrever e partilhar, porém deixo para um próximo texto, tão leve quanto este. Ontem, por uma série de razões foi excepcional. Obrigado Jesus, Cy e Fábio! Valeu Matheus, Fabito, Aline e Carol! Grato Vera!

O exercício de crescimento é, por vezes, penoso. No entanto, traz grandes recompensas. Basta se permitir aos sabores da evolução interior.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Na estrada (Parte Final)

Amyr Klink, em Mar Sem Fim, foi taxativo: “Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livro ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu”. E por aí vai...

É verdade. Viajar vicia. Viajar cura a melancolia. Viajar revigora. Viajar espanta os males. Gosto da noção de descoberta em uma viagem; daquela sensação de plenitude, de se ver repleto de paisagens – exteriores e interiores. Viajar purifica a alma e enriquece a mente. Viajar conforta o coração.

Desde 2001 criei esse vínculo passional com as jornadas cujo término são meras formalidades. Quem viaja, não parte para chegar; parte para sair. O que me conquista nos adeuses – e já são tantos – é o que não se sabe que está por vir. O futuro é o acabar de luz num sítio desconhecido.

Isso que amo. Chamem do que quiser (um grande amigo – saudades, Matheus! – disse que road trip é americanismo demais, mas trata-se apenas de um signo, uma representação gráfica. Como ele mesmo ressaltou, importa o ato). Novas sagas estão sendo programadas, cada vez mais ambiciosas, cada vez mais profundas.

Às vezes, viajo parado. Ou viajo pelas ruas de Lisboa. Caminho sem pressa, a escutar conversas e percorrer vazios imensos. A observar com olhos únicos lugares mundanos, contemplar belezas femininas, lamentar disparidades horrendas. Viajo numa praça, num parque, na avenida movimentada da urbe...

O homem não foi feito para ficar quieto.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Na estrada (Parte III)

Fomos três a encarar a jornada e três a sentir uma enorme paz no retorno a Lisboa. Ficamos ausentes por 24 horas, mas pareceu uma semana inteira de descanso em movimento. É relaxante e motivador pegar a estrada, buscar uma aventura às cegas, estar na companhia de amigos, conhecer novos lugares, colecionar histórias e experiências.

Quando juntamos todos esses ingredientes no mesmo prato, a sensação é transcendental. Não encontro adjetivo melhor. Agora novas road trips já estão sendo programadas. Dentro e fora do território lusitano.

Vai soar estranho, mas Portugal é imenso. Ainda quero desbravar Norte e Sul do país. Quero me envolver nas praias maravilhosas, pisar em cidades famosas e descobrir sítios históricos – tal qual Évora, que visitamos na volta de Badajoz.

Évora é daqueles lugares medievais, cercados por um grande muro de pedras. Nos perdemos dentro do emaranhado de travessas, becos e ruas. Tivemos a idéia de ladear a vila até alcançar a entrada onde tínhamos o carro estacionado. Para azar, escolhemos o lado errado de iniciar a empreitada. Resumo: devemos ter contornado uns 80% de Évora.

No entanto, é esse tipo de situação que traz contos. O que somos além disso? – contos contando contos, e nada. Minha satisfação é sair pelo mundo a caminhar no escuro, para encontrar a luz.

A cada viagem, fico impressionado com a dimensão de conhecimento que desconheço. E isso me fortalece a sentir mais, com mais intensidade... a respirar os diversos ares que nos fazem existir. E nada além disso. Só.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Na estrada (Parte II)

Em condição viável, troco qualquer viagem de avião por uma de carro. Seja a conduzir, seja a acompanhar. Nada substitui as boas conversas a fio, confinados no veículo – a ver passar paisagens diversas e pensamentos deveras. A vida é muito curta para a reduzirmos ainda mais.

Minha principal função na road trip portuguesa foi a de navegador. Mas também atuei como animador, contador de piadas e confuso-homem-de-idéias. São todos encargos vividos e repetidos por mim ao longo de 25 anos. Aliás, 2009 marca meu distanciamento dos 20 e aproximação dos 30. É emblemático – logo eu, que nunca imaginei crescer e sempre foi fascinado pelo mito do Peter Pan.

Envelhecer é inevitável. Já amadurecer (em todos os planos possíveis)... foi um dos temas abordados ao longo das tantas horas de papo. A 5 mil metros de altitude, tenho certeza, haveria menos tempo e paciência para travar assuntos profundos. É tal qual um “teletransporte”, como definiu o Joel. A gente entra e, puf!, sai em outro país, outro continente, outro universo.

Passar pelos cenários e avistar as mudanças de geografia, vegetação e construção é o que tem de autêntico numa viagem. Há quase um ano percorri o oeste gaúcho em direção a Buenos Aires. Nunca pensei que faria esse trajeto. Dois dias atrás cruzei o interior de Portugal e conheci vilas seculares, com suas muralhas e castelos, igrejas e ruelas. Formidável!

Na ida, visitamos Águas de Moura, Montemor-o-Novo, Arraiolos, Estremoz e Elvas. Cada um com seu charme, suas histórias. A passagem de ano foi em Badajoz, com vinho português, cerveja holandesa, frutos secos alentejanos, uva castelhana e companhia de gente dos mais distintos países. Até fizemos “contato” com um grupo de bolivianos.

A festa foi (quase) tripla. Como a Espanha está à frente uma hora de Portugal, celebramos a meia-noite por duas vezes. Até tentamos comemorar a terceira, pelo relógio brasileiro, mas as forças esgotaram-se. Badajoz: dos homens de terno, das mulheres de pernas de fora, dos bares que abrem pouco antes da virada, dos encantos mágicos e perigos prosaicos.

E de uma noite findada com los sueños en el coche.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Na estrada (Parte I)


A imprevisibilidade é sublime. Talvez seja a mais suprema força renovadora do mundo. O imprevisível molda caráteres, realça a coragem, funda heróis. O previsível é a racionalidade dos indecisos. O imprevisível é a perspicácia dos predestinados.

Foi assim minha transição entre 2008 e 2009. Nasceu por uma idéia crucial e de última hora do – cada vez mais – amigo Joel. Os homens iluminados pensam simples. Ou melhor, pensam o que parece ser sempre o óbvio ululante – e só torna-se óbvio porque foi enunciado por eles.

Joel é um desses gajos abençoados pela serenidade, um ser que emana paz e nos conforta com seu talento maior: fazer o bem. Pois que o mestre-zen convidou para uma road trip sem destino. “O Ano Novo na estrada!”, bradou com efusivo brilho no olhar. Banquei a aventura.

O mais forte de uma viagem não é o destino; é a jornada. A maioria das pessoas confunde os propósitos. Vivemos ávidos por chegar e, com isso, desdenhamos o caminho. Nossa intenção era justamente desbravar cada palmo de asfalto com a agudez da novidade. E como estava em questão, também, o prazer das presenças, convidamos a Ju para ser a alma feminina do passeio.

Saímos de Lisboa às 15h do dia 31. Sob uma fina garoa, com alguns mantimentos nas mochilas e um porvir incerto. Depois de cruzar a Ponte Vasco da Gama – em seus 17 imponentes quilômetros –, paramos em Setúbal para abastecer e estudar o mapa. A decisão unânime foi pela jornada no interior de Portugal, até alcançar a Espanha.

A virada celebrada em Badajoz. Eis o rumo. E a saga estava apenas por começar.