terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Uma ode à década


Um dia desses atrás, vejam só, eu tinha 16. E começava a namorar sério pela primeira vez, para logo depois ter partido o coração. Trocava noites de sono pela frente da TV. Era a Olimpíada de Sidney a confirmar meu desejo de ser jornalista. Mas também havia o câncer do meu pai, a preocupar-me.

Vivi o último ano do colégio, experimentei as borboletas no estômago. Irrompi o 1º de janeiro de 2000 com o fantasma do bug do milênio à espreita: os computadores sofreriam panes homéricas, haveria um terrível colapso na comunicação, alguma coisa esquisita aconteceria. Porém, tudo correu normalmente.

Não sei, ao certo, onde passei a virada – lá se ia a década de 90 e entrava na 00, a “Era do Amadurecimento”. Conheci a Rayane, iniciamos o namoro em outubro e ficamos juntos até agosto de 2006. Mais da metade do decênio. Olhar para trás faz tudo parecer tão rápido, tão distante, tão inverossímil.

Aprendi lições únicas, entrei na faculdade, fiz novas amizades, reforcei as antigas, assustei com uma iminente guerra após os atentados ao WTC, me formei, escrevi, publiquei, fui penta com o Brasil, hexa com o Flamengo. Tanta coisa ficou no caminho para eu poder seguir até aqui.

Em 10 anos, morei em três cidades: Brasília, Florianópolis e Lisboa (quantos olás e quantos adeuses!). E os contos que colecionei ensinaram-me a controlar meus anseios e minhas ansiedades, levaram-me à conclusão de que o sentido da vida é não ter sentido algum, trouxeram pessoas que me tornaram melhor. Que, simplesmente, me tornaram.

Tudo o que foi, não volta. Como a areia que escorre entre os nossos dedos. O beijo debaixo do pé de amora, os recados por notes, os poemas confidenciados, aquele filme, aquele passeio, aquele samba, aquele cheesecake. Quanta coisa enche a gaveta de lembranças, sem organização, sem cronologia, sem precisão.

Mas tem a fantasia da memória, tem o saudosismo saudável. Foi uma década de sonhos mirins, de vontades libertárias, de ambições megalômanas. O que vivi é intransferível – e não me arrependo um segundo sequer. Nem do sim, nem do não. É confortante sentir a convicção (burra?) de que evoluí.

Hoje carrego esta calma por onde quer que vá. Abalada somente às vezes. “É preciso ser natural...”. Os momentos de angústia já não me atingem, já nem me alcançam mais. Sei que ainda vou tocar tantas novas experiências nos próximos 10 anos, mas sinto que tenho as arestas aparadas e a pureza de alma como aliada.

Qualquer sentimento desse passado tão pleno é intimamente meu. E assim vou sendo capaz de inventar a minha história com a devida sensibilidade que a existência merece. Assim vou sendo capaz de prosseguir, certo de que cumpri os planos traçados de uma década atrás.

Porque o Gustavo dos 16 anos encara, orgulhoso, este de 26. Disso, eu tenho a mais tenra certeza.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Mudamos

Mudamos. E é ao fim dos anos que notamos. Mudamos como quem muda de roupa, mas em dose pouca (porque a mudança brusca sempre assusta). Eu mudo, tu mudas... assim vamos dividindo a culpa. Não há jornada única.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Bom Natal e Boa Sorte


Ainda fico confuso porque todos oferecem um Feliz Natal com ares de piedade, de boa sorte. É verdade que os abraços são efusivos e há sorrisos no rosto, mas o fundo dos olhos revela aquela impressão de que vamos pra guerra.

Eu não consigo gostar do 25 de Dezembro. Ou do 24. Por mais que tente, que me junte e me misture, é uma data sem sal. Como o arroz com amêndoas que fiz ontem para a ceia – e se mal tocaram nele foi porque tinha comida demais, viu?

Vale a família. E meus Natais tiveram alguma graça quando os passei com os tios e primos em Pirenópolis (cidadezinha do interior de Goiás). Muito mais pela festa, pela bagunça, pelas risadas na simpática casa da Tia Sonja do que, propriamente, pelo espírito do menino Jesus.

Por falar em Jesus – não o da Madonna nem o treinador do Benfica –, fiz a minha véspera de Natal ser em Belém, pela graça do local e piada fácil com o nome. E com um dia tão harmonioso, de céu azul e frio ideal, não entendi como os parques e as esplanadas dos cafés estavam desertas. Se tivesse optado por um shopping, tenho certeza de que esbarraria no caos.

Então, afinal, onde está o espírito natalino? Vejo um bocado de hipocrisia comparsa e de consumismo histérico. Talvez a gente caminhe mesmo para uma espécie de guerra, e o ar de boa sorte, assim, até faz sentido. Talvez seja só heresia de vida minha. Uma coisa ou outra, nada muda(rá).

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Eu quero sem chuva, por favor

Alguém sabe pra que lado fica o Brasil? É que vou pegar meu voo em um mês, com precisão de marceneiro. Desembarco em São Paulo com esperança de não sentir um pingo sequer na cabeça. Essa de terra da garoa que fique de stand by – Lisboa já está molhada demais pro meu gosto.

Há dias que chove. E para. E volta a chover. E nova trégua. O guarda-chuva repousa bem ao lado da chave e da carteira, juntinho à porta. Sair sem proteção (e ainda falo do guarda-chuva...) é arriscado. Do último esquecimento, andei aí a tossir gravemente e expelir as vísceras.

Estou melhor, obrigado. Mas aprendi a lição: o inverno chegou no Hemisfério Norte e recomenda-se agasalho. Vou tratar de umas meias de lã na próxima semana. Barcelona, onde celebro a entrada de 2010, deve estar mais gélida que Lisboa. E também mucho mas caliente, tenho certeza.

Brevemente, porém, já estarei apto a coletar a minha parcela de aquecimento global no verão tupiniquim. Espero praia e sol, além dos diversos (e contínuos) festejos. Só que falhei no prazo do pedido do estatuto de estudante-trabalhador à faculdade e agora tenho até 31 de março para entregar a tese. Vai ser uma corrida contra o tempo.

Como o período é de festas, deixa pra lá isso. Sofrer por antecedência é uma das grandes estupidezes da nossa racionalidade leviana. Minha maior preocupação deve ser lembrar de pegar o guarda-chuva para logo mais à noite. Não quero que me falte ar nas canções de Natal!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Desenhos de despedida

As singelas histórias deste mundo ainda me fazem acreditar nas pessoas. Sei que é piegas demais falar em exemplos, mencionar boas ações e valorizar a pureza. Ainda mais neste período, em que todo mundo transpira solidariedade. Uma solidariedade muitas vezes esquecida e posta de lado no dia-a-dia.

Uma coisa é a gente exercitar o bem no cotidiano, sem buscar nada em troca, sem esperar que isso seja visto, sem achar que exime qualquer atitude inversa. Costumo ser gentil com conhecidos e desconhecidos simplesmente porque respiram e sorriem e sentem fome e tropeçam e molham-se na chuva e ficam tristes e caminham e amam e odeiam...

Já contei isto aqui, mas vou repetir. Certa vez uma colega de trabalho me questionou pelo fato de eu ser ateu. "Mas quem não acredita em Deus é capaz de qualquer coisa", exclamou ela. Lógico que referia-se à falta de regras, de morais, de ética. Coitada. Mal me conhecia para saber que as minhas regras, minhas morais, minha ética é baseada no instinto básico de fazer o bem.

Leiam a maravilhosa peça abaixo. Aqui está a força do sutil, a beleza do mais profundo sentimento. O que aconteceu nesta família tem um só nome: esperança.



domingo, 20 de dezembro de 2009

A Maldição das Viradas


De gorro e aquecedor no máximo, duas meias e casaco pesado, olheiras, falta de ar e barriga roncando, escrevo sem nenhum estilo. Há três noites que durmo mal, por conta de uma infecção nos brônquios. Tentei de tudo, mas o melhor que tive foram quatro horas de sono – na cama, o que é uma vitória.

De novo, devo adormecer sentado, entre os vídeos do Youtube e a maratona de Friends. Nem consegui ler, senão adiantava minha tese. E quando caminhei até o mercado, senti-me um ancião de 26 anos.

De fato, pareço ter a Maldição das Viradas. Coleciono problemas estomacais, brigas conjugais, planos arrasados, mal-estar com amigos, úlcera no esôfago, gripe fortíssima e... agora esta infecção. Mas para além da saúde frágil, ando com mais uns tantos azares.

Não vou fazer balanço de 2009 nem projetar 2010. Acabou meu fôlego.

sábado, 19 de dezembro de 2009

O dia em que a terra tremeu à noite

O primeiro sismo a gente nunca esquece. E eu ainda cismo de ter perdido aquele de 2000 – sentido em quase todo o Sudeste, Centro-Oeste e Sul brasileiro. No exato momento, estava no único local impossível de notar a terra tremer: num avião, entre São Paulo e Brasília.

Mas desta vez, não. Não em Portugal! O luso-shake (expressão do amigo Dago) moveu a cama, onde lia distraidamente. Fez os pratos sacolejarem, as janelas estalarem e, mesmo assim, mantive a compostura – e os olhos no livro. Confesso que oscilei entre a hipótese sobrenatural (sim, espíritos) e a mundana (o vizinho estar divertindo-se de jeito).

Durou pouco: 10 segundos nos meus avoados cálculos. E se tivesse de chutar o grau na escala Richter, seria 0,32. Isso foi de quarta para quinta, em torno de 1h30min. Estranho foi despertar ainda tonto do oitavo sono com a cama, de novo, a dançar levemente. Era um novo abalo, em bem menor intensidade (o principal, com epicentro a 235 km de Lisboa, teve 6.0 na escala Richter e duração de 3 minutos; os seguintes, mais fracos, não atingiram 2.5).

À noite nem lembrava do ocorrido. Minha mãe ligou para saber se estava tudo bem. Demorei para entender que a preocupação tinha a ver com o sismo. É que eu ainda cismo que aquilo não foi bem um terremoto... mas vou sempre relatá-lo como sendo o meu primeiro.

P.S.: Ontem assisti ao apocalíptico 2012 e, realmente, se comparar o tremelique de Lisboa com as crateras engolindo cidades no filme, sinto-me aliviado. Falta três anos para o fatídico (ou não) 21 de dezembro.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Maldita rinite!


Esta rinite que ataca... Maldita rinite! Não posso pegar uma fresta de frio, ainda que esteja a suar dentro do casaco. Nem andar com os pés desnudos, cobrir-me com um cobertor felpudo, usar o cachecol do armário. Maldita rinite!

Que me faz refém de seus espirros, brinca com minha paciência, torna meus olhos profundos. E até escrever sobre ela, agora me obriga. Rinite que não despede-se com anti-alérgicos, que acomoda-se com sacrilégio e sacrifica meus amigos – pobres coitados a ouvir-me fungar o tempo inteiro.

Mexe com o trabalho e o lazer. Tira a vontade, dá lentidão. E lá se vão tantos anos de convívio que pensei ter superado os sintomas, as mazelas, a poeira, a janela entreaberta. É quase inverno e o clima cambiante talvez explique. Maldita rinite! Neste instante, não há coisa que mais me irrite...

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Pequeno dicionário amoroso


Tomei emprestado o nome de um filme (de 1997, com Andréa Beltrão e Daniel Dantas) para escrever sobre um assunto que tem sido recorrente entre os amigos – sejam eles brasileiros ou portugueses. Gosto de partilhar as minhas impressões sobre os relacionamentos daqui.

E quando digo daqui, não espero generalizar. Foco em Lisboa, e pronto. Numa Lisboa a qual participo, sem saber se experiencio a regra ou a exceção. Pelo que tudo indica, minhas apreciações têm lá sentido, mas há sempre de serem confirmadas por almas nativas.

O português repele – por falta de hábito ou ávido medo – a paquera. Raras vezes, e me corrijam se estiver errado, surge uma vertigem de flerte. Explico melhor: é difícil perceber o culto do olhar, do toque e do não-dito, ainda quando existe interesse mútuo.

Tudo é mais direto, objetivo, óbvio e, em alguns casos, até menos lúdico. Há euforia mais incontornável – e irrepreensível – que a do silêncio no início de um enlace? Nelson Rodrigues dizia que “é na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão”.

As mulheres portuguesas sofrem de uma brutalidade visceral, crônica, desestimulante. Desculpe se brutalidade soa forte, mas são poucas – e se calhar ando a buscar nos lugares errados – que acalentam a doçura. Queremos gajas independentes, não homens. Certa vez li a melhor definição ligeira deste fenômeno pós-moderno: mulheres de cabelo no peito.

E é isso que muitas são. O que não consegui entender é se primeiro veio o ovo ou a galinha. Se o, outrora, sexo frágil age assim para se defender das viris investidas masculinas ou se os piropos (cantadas) sujos nasceram como um aríete para machucar barreiras.

Seja qual for a raiz desta queda de braços estúpida, quem perde é a sinceridade. Eles mandam frases de uma ofensividade estéril – e até passível de um processo por atentado violento ao pudor, de tamanha baixo nível que são. Elas querem controlar tudo, mostrarem-se fortes e perfeitas, santas e putas. Todos, por fim, esquecem de perguntar o que o amor quer, que caminho a paixão pode percorrer livremente.

Faz-me confusão lidar com os jogos, mais ainda quando são jogos frívolos. Porque, consciente ou não, sempre brincamos na cena da conquista. É saudável. O que é maligno é alimentar mentiras (de todas as dimensões) e disseminar traumas. Pois assim vejo grande parte das relações daqui...

.. e já prevenido de qualquer contestação lusa, proponho que levemos esta conversa para uma mesa de café. Afinal, como disse, são apenas meras impressões.

sábado, 12 de dezembro de 2009

De regresso a viver só


De novo, e por pouco tempo (mas o tempo ideal para me devolver um certo entusiasmo que andava ausente), volto a morar só. Mal lembrava como é acordar com espaço e caminhar sem pudores. Como é ter o banheiro sempre livre e a cozinha do jeito que deixei à noite – poder tomar café da manhã com a privacidade que pede um café da manhã de inverno.

Durante um ano e meio, em Florianópolis, vivi num apartamento vazio. Experimentei dores e sabores da solidão, e posso dizer que em alguns momentos o que mais quis foi dividir. Mas dividir o lar com estranhos é mais difícil que parece, um desafio bem mais estreito que os seriados e filmes nos fazem crer.

Nunca tive conflitos sérios. Talvez porque não invista em problemas – afinal ver suas compras desaparecerem da despensa, definitivamente, é motivo de conflito. Esse é o preço agregado que se paga por partilhar a mesma área, pois algumas pessoas acham que o que está na casa é da casa. E existem tantas outras situações desconfortáveis que consumiria o tempo de vocês ao espreme-las.

Acostumei a estar só, por mim mesmo. Acostumei a fazer comida para um, a não passar roupa, a deixar a tampa da privada levantada. Acostumei lá atrás, com muito gosto – e certo custo por a solidão tornar-se uma emboscada. Fico em Lisboa até meados de janeiro contemplado por esta saga anacoreta, e quando regressar do Brasil (em março) os dias voltam a ser limitados.

Porém, será um mês muito bem aproveitado. Podem ter certeza.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Frases soltas

É por ti que espero. É para encontrar-te que descasco os meus dias sem importar quanto tempo perco. Ganharei-os de volta ao seu lado: um a um.

Isso tudo não é sobre amor. Ou é. Já nem sei do que se trata. O amor fascina, mas nunca é remendo. E eu tenho tanto sentimento que a solidão me confunde.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O canto da sereia


Ei, tome cuidado! Saudade é brinquedo perigoso, é coisa frágil. A gente precisa é afagar o passado com moderação, acariciar a distância como se fosse um gato traiçoeiro. A nostalgia é aliciante, então tome cuidado. Tome muito cuidado...

Não deixe as memórias seduzirem. Não sinta que o ontem era melhor. A vida que repartimos em cronologias deve-se ao presente. Recordas que queria mesmo caminhar na neblina? Então deixe-a também cobrir as suas costas.

Saudade é canto da sereia, é convite para a casa de doces. Saudade mente. Ouve como quem não escuta. Diz o que gostaríamos de ouvir. E enquanto vamos sendo abraçados pelos seus tentáculos, a melancolia sorri.

Seja pura na vontade e não tenha pressa da resposta. Seja a pergunta. Seja hoje. E isso que te atinge, será atingido por ti, para se compor um tempo que ainda nem existe.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Aquele saber ao vazio

Eu não tenho jeito. Eu não consigo escapar das minhas ilusões, não consigo acomodar em minha inquietude, não consigo suspirar sem o peso de 100 toneladas. Eu não tenho jeito para agir, eu sonho sem critério e adormeço com esperança.

Eu não desaprendo, não me desprendo das amarras, nem destempero. Vivo a coordenadas exatas – que tolice! –, com métodos ineficazes de ser eficaz. Eu não tenho tempo, mas o tempo me tem. Me aprisiona, enquadra, me leva, me deixa. Fecho os olhos tentando encontrar o que nunca soube o que é.

Eu não permito. Escondo qualquer sentimento por detrás do medo. E se aconselho, se partilho, se me exponho... é por minutos, não mais. Eu necessito de alguém, ainda que pareça me virar muito bem sozinho. Mas não tenho jeito para pedir, para chegar, para sorrir e fluir.

Eu não utilizo o sim com facilidade. Impeço logo no começo, porque é mais seguro que abdicar depois. Receio e arrependo. Esqueço e reprometo. Redefino e sigo na mesma. Enquanto a vida passa. Não tem graça essa lamentação – nem traz nada.

Eu não sei. Simples assim.



sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Natal de luzes, compras e amigos


As luzes de Natal embelezam a capital portuguesa. Não sei o quanto se gastou em enfeites brilhantes, porém Lisboa não mais escurece. O coração, no Largo de Camões, muda de cor ao toque do botão – e qualquer um pode fazer isso. As velas de cabeça para baixo estendem-se pelo Chiado. As estátuas dos ilustres ganharam o toque de embrulho de presente.

Os festejos de fim de ano chegam e os centros comerciais lotam. É a euforia do consumismo, em seu momento de ápice. E como o europeu gosta de gastar! – o que tem e o que não tem. O inverno também propicia o frenesi: as pessoas vão às lojas para sair de casa, remodelam o guarda-roupa para ocupar o ócio.

Já não há mais novidade no ciclo. Em 2008, passei o Natal sozinho. Confesso que a data me é indiferente. Agora, devo celebrar com os amigos, numa ceia simples. O réveillon continua em território espanhol: salta da pacata Badajoz para a agitada Barcelona.

E no dia 25 de janeiro desembarco em São Paulo. Mas ainda não é o regresso definitivo, podem acreditar.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

É merecido!


Dezessete anos depois, cá estou em Portugal para ver o Flamengo levantar a taça de campeão brasileiro. Não quero celebrar o oba-oba ou antecipar a glória vermelha e preta, mas perder o título diante da conjuntura é tão improvável quanto nevar na Bahia.

O pior de tudo é que, pelo andar da carruagem, o desmérito vai marcar a conquista. O Flamengo foi a melhor equipe do segundo turno, triunfou brilhantemente nas mãos de Andrade, e ainda vão fazer questão de enfatizar que facilitaram a nossa vida.

Justo a nossa nada-fácil vida, de vertiginosas frustrações (a lembrar o Grêmio em 1997, o Santo André em 2004 ou o América do México em 2008) e intrínsecas ligações com a Série B. Aliás, quando o Fla não caiu em 2001, foi ajudado. E agora, se for campeão, também terá sido ajudado.

Caso fosse assim, caso o clube da Gávea desfilasse tamanha força nos bastidores, acham mesmo que enfrentaria 17 anos de jejum? E outra: São Paulo, Inter, Palmeiras, Atlético-MG e Cruzeiro falharam pelas próprias pernas. Oscilaram, titubearam, baquearam, como muitos num torneio equilibrado (seja pelo alto ou pelo baixo nível, não importa).

Quero mesmo que o Grêmio entre em campo como se fosse uma decisão de campeonato gaúcho – e o Flamengo fosse o Internacional. Quero que a hombridade que faltou aos colorados no ano passado não falte aos tricolores este ano.

Gosto de acreditar, ingenuamente, no caráter íntegro do ser humano, ainda que Nelson Rodrigues tenha me alertado diversas vezes que “no Brasil quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte”. E não há melhor definição para este momento...

O iminente título rubro-negro não pode ser manchado por especulações tolas. Não pode ser posto em causa por conta de um goleiro esquentadinho ou um meia de polêmico histórico. Em vez disso, que tal exaltar a lucidez do técnico Andrade, a maestria de Petkovic, os gols de Adriano, a competência de Bruno, a dedicação de Maldonado?

Meu manto sagrado está a caminho para erguer-se como uma bandeira no arco, na comemoração do sexto título. Merecido e justo. Ou então não quero mais crer no bom feitio do homem.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Diria que é um guia (Parte 3)

Opção cultural... há em Lisboa? Pois foi nessa toada do último e-mail trocado. Respondi, com certo receio de vender gato por lebre. Aposto no meu gosto, apesar de às vezes concordar que a capital portuguesa deveria vir mais recheada de uma boa agenda. Vamos ao terceiro blá-blá-blá...

Sim, confesso que me "pegou" no tema do outro e-mail. E gostei da risada macabra. Estive a pensar mesmo na questão que te corrói e consegui chegar a duas certezas que se atravessam:

- Há bastante opção cultural aqui;
- Não há tanto opção cultural quanto podia ter.

Explico desde já. As revistas mentem uma verdade maquiada. Lisboa é realmente cada vez mais metrópole, cada vez mais diversificada, cada vez mais tolerante e aberta, cada vez mais in. No entanto, trata-se de um caminho lento diante do conservadorismo do povo português. Os antigos ainda teimam em martelar na tradição; os jovens já cresceram na mistura e aceitam o diferente com naturalidade.

No entanto, a produção de Portugal enquanto país cultural é pequena. Nisso assemelha-se um pouco ao "provincianismo" de Floripa, infelizmente - pois tanto um lugar quanto outro tem o suficiente para tornar-se mais importante neste cenário. Então já te digo que não espere o peso de Londres, Paris, Roma ou Madrid. Não espere a efervescência de Barcelona ou Amsterdã. Lisboa ainda engatinha nesse aspecto e tem suas belezas e magias.

Essas revistas são, talvez, um combate ao complexo de vira-latas. Ainda assim, não me arrependo de ter escolhido aqui - principalmente para aproximar de um país e pessoas que a gente pensa saber e conhecer, mas não tem ideia de como são; desmistificar muito senso comum que nos é imposto e, por que não, valorizar a nossa terra e raízes.

Sinceramente, se fosse para te indicar algum local para fazer o mestrado, seria Itália ou Espanha. Mas é que sou mesmo apaixonado por ambos, e só não escolhi um deles por conta do idioma. Tenho certeza de que ainda vou morar em Roma, Barcelona ou Madrid. Isso é fato, hehe. Mas posso dizer que Lisboa é agradável e se já conheces Londres e quer ficar perto do teu namorado, não vejo porque não escolher a capital lusa.

Com certeza passará momentos interessantes...

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Diria que é um guia (Parte 2)


Continuo na ambição do despretensioso manual. A amiga pergunta-me sobre o curso, se dá para pagá-lo com o dinheiro que se ganha aqui ou se é melhor trazer uma grana extra. Também quer saber sobre emprego e essas coisas. Eis o segundo e-mail escrito:

Eu trouxe a grana para pagar o mestrado. Quis garantir. Ah, em comparação com o restante da Europa (e até com o Brasil), aqui em PT é mesmo mais barato. O meu saiu a 2.500€, dividido da seguinte maneira: 500€ no 1º semestre, 500€ no 2º e 1.500€ no último. Agora abaixou: está 2.000€.

O bom é que deves vir numa época de contratações nas lojas e cafés. O ano letivo começa em setembro/outubro e esses lugares buscam novos funcionários por conta do Natal. Trabalhei num café de novembro a maio, e desde junho estou numa empresa de comunicação, fazendo clipping. Ganho menos por hora que no café, mas trabalho mais (então tiro mais no fim do mês). Vale você estar atenta a uma coisa aqui: recibo verde. Que é uma espécie de certificado de trabalho autónomo. Você deixa de contribuir para a segurança social (espécie de INSS), perde os subsídios que tem direito, mas recebe bem mais por hora. Para se ter uma ideia, tirava 2,60€/hora no café com contrato de trabalho temporário. Depois, com o recibo verde, subiu para 4,50€.

Essa é mesmo a média que se recebe aqui em Portugal. É pouco porque o custo de vida também é baixo. No meu trabalho atual tiro 3,60€/hora. No fim do mês isso me dá uns 600€. Com essa grana consigo viver legal, não regular mixaria e ainda viajar. Sem contar que sobra uma boa quantia. Sabendo que isto aqui é temporário, é mesmo válido fazer "concessões" (como o luxo de uma casa só pra si) e juntar um dinheiro pra desbravar a Europa (falar isso pra ti é irrelevante, pois já tens essa noção e esse espírito).

Tem muito ainda a falar que fico "perdido". Vou ajudando aos poucos, e você vai colocando suas dúvidas.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Diria que é um guia (Parte 1)

Já há muito queria iniciar uma espécie de Guia de Lisboa para os viajantes-aventureiros. Queria iniciar, mas não tinha um mote. Ou tinha um mote, mas transbordava preguiça. Agora as desculpas esvaíram-se...

Uma amiga veio, recentemente, perguntar sobre a vida em Portugal. Quer cursar um mestrado na Europa e oscila entre a pátria de Camões e a Inglaterra. Se ela já não tivesse lá morado, não hesitaria: “vá para a Londres!”, bradaria. Mas a terrinha tem seus inúmeros encantos – também tem inúmeros enganos.

Pois ao longo dos nossos e-mails trocados, vou atualizando o blogue com minhas impressões, ideias, sensações e experiências. Afinal, foi para isso que este espaço nasceu. E é assim que ele ainda sustenta-se de pé. Ainda que cambaleante.

Enfim, sem mais delongas, vamos ao seu impasse: Inglaterra ou Portugal. Aqui tem alguns pontos fundamentais a se pesar, para além da área académica. O custo de vida é um deles. Portugal (e aqui falo de Lisboa, que por ser capital é mais "cara") é um país muito barato de se viver. Não sei se tens interesse de trabalhar ou se vens com uma grana já. Mas de um jeito ou outro, consegues arrumar um quarto em conta (desde 150€ – sem despesas – a 300€ – com tudo incluído) e bem localizado. A parte de alimentação é acessível e consegue-se viver bem com 500€.

Se quiseres um apartamento, aí vai precisar de um pouquinho mais de dinheiro. Mas nada muito além. Há estúdios ou T0 por 350€ a 500€, sem as despesas de água, luz e gás. Os transportes são simples se viver na parte "histórica" de Lisboa. Quanto à universidade (a minha é a Nova), acho-a um tanto bagunçada. Essa é a parte ruim do mestrado: e por pior que pareçam as nossas instituições públicas de ensino, aqui parece que a desorganização é maior.

O conteúdo, em si, é interessante. Mas há uma "teorização" exorbitante. Explico: nossa linha de estudo está mais voltada para a norte-americana, agregando a parte teórica à prática. Temos essa valorização do "fazer", enquanto eles aqui estão muito focados somente na "investigação". Poderás pensar que um mestrado é exatamente isso. Concordo. Porém, às vezes há qualquer coisa de muito utópico e, pior, de muito "circular". Para quem já está no mercado de trabalho parece tudo uma grande volta sem propósito.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Numa segunda-feira bucólica


Queria ter agora um texto suplente para atualizar o blogue. Um texto já escrito, esperando a sua vez de tomar a página virtual. Um texto sem pretensão de ser o melhor, mas com a leveza de completar um vazio.

Porque escrever é uma necessidade plena e consciente. Publicar o que se escreve já é mais forte que nós. Depois que iniciamos o processo de escancarar nosso eu ao outro, não há mais volta. Partilhar torna-se um vício perigoso.

Os critérios podem dissipar. Posso estampar neste espaço qualquer coisa que me valha – e não contém valor algum. Nem ao menos sei o impacto que as palavras daqui tem aí, em vocês. Recebo retornos (ou feedbacks, na língua dos executivos) esporádicos e espasmódicos.

Minha necessidade de escrita, por vezes, é inimiga. Cria qualquer coisa, inventa uma roda triangular, forja modelos mal-acabados. Quis escrever sobre a derrota da minha virilidade, mas parei. Escrever deve ser expor-se sem medo ou amarras. E confesso que ainda devo a todos (e mais ainda a mim) descascar-me intimamente.

Só assim a escrita é válida e real. Só assim vale para alguma coisa, que não encher linhas numa segunda-feira bucólica. Então vou comprometer-me a aprofundar o texto, verticalizar o sentir: e criar sem barreiras. Porque a única razão legítima de escrever é ler-se.

sábado, 21 de novembro de 2009

Fumar mata

Eu sei que fumar mata. Mesmo que não estivesse escrito no rótulo, dá para supor que faz mal. Conheço gente que fuma há anos e um dia, por causa do tabaco, vai morrer. Pode ser aos 40, 70 ou 100.

Por isso nem hesitei quando li a advertência na caixa de charutos. Comprei-a, com a satisfação de ter às mãos um modelo cubano. De Havana. E se realmente o fumo matasse, o que seria do Fidel?

Os charutos chegaram a mim pela bagatela de 6,5€. Multiplique isso por 2,6 e terás uma média do preço em reais. A caixa tornou-se minha “menina dos olhos”. As cinco unidades vêm embaladas com finesse, individualmente, numa espécie de tubo de ensaio.

O fabrico, o cuidado, a preservação, o corte, o acompanhamento... tudo é importante num charuto. Fumá-lo é um ritual, tal qual na degustação do vinho e na apreciação do café. Não se traga. A fumaça deve percorrer a boca, para os sabores serem sentidos.

Amanhã, no aniversário de um amigo português, estreio a caixa. Ou como no título de um filme francês: é o primeiro dia do resto de minha vida.

domingo, 15 de novembro de 2009

Este acaso chamado destino


Não acredito em destino. Pelo menos de segunda a sábado. Domingo é diferente, então hoje quis crer. Ia sair do Centro Comercial das Amoreiras (durante este mês, volto a trabalhar no café) para o Centro Comercial Colombo.

Perdi o primeiro ônibus por questão de um minuto talvez; desatento, deixei o segundo passar após longa espera; e quando desisti de aguardar pelo terceiro e abandonei o ponto, eis que surge o automóvel.

A sucessão categórica de desastres fez-me valer da máxima: não era mesmo para eu ir. Enfrentei a chuva fina, andei alguns parcos quilômetros e tomei o metro em direção a casa. Mais fácil assim.

***

A noite de sábado foi de futebol. Portugal e Bósnia duelaram no estádio da Luz, por uma vaga no Mundial-2010. Foi o primeiro jogo, estive lá e deu 1-0 pros donos da casa.

A torcida lusa parecia num teatro, enquanto os bósnios entoavam gritos sempre animados, pulavam e vibravam com olhos rútilos e dentes cerrados. Deu saudade da festa nas arquibancadas brasileiras, do incentivo e das provocações.

Finda a partida, prometi que iria interagir com os visitantes. Queria trocar o cachecol – o meu de Portugal por um da Bósnia. Nem precisei sair da arena. Realizei o escambo com um senhor. Ele jogou o azul-amarelo, eu enviei o verde-vermelho.

Minha felicidade contagiou os bósnios. Parecia uma criança à frente do presente de Natal. Ficou marcado o rosto do homem desconhecido, a simplicidade do gesto de arremessar o objeto. Ele já deve ter passado por tantas coisas e agora carrego um pouco de sua história.

Onde comprou o cachecol? Quando? Como ganhou o dinheiro? Quantas vezes utilizou? Por que quis trocá-lo?

Talvez seja coisa do destino, numa participação especial no sábado.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Impresente companhia

O homem tem várias obsessões. Um homem sem obsessão, sem uma reles e ínfima obsessão, assemelha-se a um daqueles chiuauas de madame: inofensivo, indefeso, patético.

A minha mais recente obsessão é pela voz feminina. Ando pra cima e pra baixo com os fones no ouvido, sempre a escutar um delicado timbre, uma canção sussurrada, um sopro de alma.

É exagero. Tudo o que tem muito adjetivo é exagero. O que se repete é exagero. E estou para exagerar, afinal. Nas músicas de uma Lisa Hannigan, uma Regina Spektor, uma Fiona Apple. Ouço-as e torno a ouvi-las.

Misturo-as a Adele, Lauryn Hill, Amy Winehouse, Amel Larrieux, Norah Jones, Madeleine Peyroux, Erykah Badhu, Sheryl Crow, Amy Macdonald, Joss Stone… O repertório nunca se encerra.

São as minhas impresentes companhias.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Nada é nosso


Todas as coisas que são nossas nunca são nossas de fato. A casa construída, o carro comprado, a geladeira, o fogão, o computador, o livro, as roupas. Nada. As sensações, as lembranças, o frio, a fome, a arte, o desejo, a mulher amada. São coisas nossas sem nos pertencerem – sem algum dia terem nos pertencido.

Hoje, escutando uma canção francesa, tive a lúcida noção que a liberdade nunca será alcançada. Porque essa é das imagens desprendidas que mais queremos deter. Como o amor. E se nada é meu das substâncias materiais, o que dirá das imateriais?

Isso é algo que deveria nos emancipar de nós mesmos, em vez de amedrontar – como acaba por fazer. Se pensarmos que tudo passa, e também passaremos, podemos simplesmente desligar-se desse mundo regado de incongruências. Uma menina, um dia, espantou-se por eu ignorar Deus.

– Quem não acredita Nele é capaz de qualquer coisa – disse ela.

E mal sabia que sou. Mas não de maldades, como ela supôs. Sou capaz de viver à busca de ávidas belezas e disseminar uma espécie de pureza terna, sem achar que possa ou deva realizar isso. Um egoísta generoso, indiferente às dores alheias porque elas também são coisas que não são nossas.

Se penso naquelas noites de solidão, a solidão apavora-me, não porque a posso ter de volta, mas porque nunca as terei como eram. A saudade nada mais é que assumir a impossibilidade da posse de um momento – um momento, na verdade, ausente de nós.

Quero vaguear nesse ínterim do achar e do ter. Porque se nada é nosso, nem esta vida efêmera, nada temos a desperdiçar.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Alguns dias fora...

Forçosamente, precisei estar ausente da internet por uns dias. É que deu problema na conexão em casa e fiquei restrito às visitas ao e-mail – e só. Até porque, do trabalho, não consigo ir muito além.

A boa nova é que voltei. Quer dizer, ainda estou a tentar imaginar a “boa nova” disso para vocês, mas tudo bem. Alguns poucos e rápidos fatos sucederam-se na semana. Depois de recuperar o sono da pungente Madrid, inventei de apanhar uma gripe.

Não é a A, é a S. A tal sazonal, como chama em Portugal a gripe que arrebata 79,23% da população nesta mudança brusca de clima (a percentagem ficou por minha conta). Também pudera: fui inventar de jogar frescobol na praia, debaixo de chuva.

Porém estou a me cuidar. Até porque iniciei uma fase “pauleira” na minha vida. Mesmo para acabar o ano com jeito. Até o dia 30 de dezembro devo ter uns ínfimos dias de folga dos trabalhos. É que resolvi ocupar meus fins de semana de outono/inverno com um outro emprego. Assim faço um pé-de-meia de jeito.

Lógico que depois vem o réveillon em Barcelona, algum trabalhinho mais, as férias merecidas no Brasil e, assim que pisar em solo português de novo, mais uma viagem: para Marraquexe (Marrocos), com uma ligeira passagem por Madrid.

Por que cada vez mais acho que viajar é a minha sina? O que me acalma.

sábado, 7 de novembro de 2009

Males que vêm pra bem

A frase está desgastada, mas não custa reforçá-la: “Há males que vêm pra bem”. Ou ainda: existem acontecimentos muito além de coincidências. O fato de a reserva do hostel em Madrid ter sido feita no dia errado levou-nos a uma pensão superagradável, limpa e tranquila – de um senhor espanhol casado com uma carioca.

Também teve a visita à Praça de Touros, segunda maior arena do mundo, convertida numa incursão etílica por conta da Feira da Cerveja que rolava no local. Com direito a uma disputa (eu e a Ju contra um casal) para ver quem serrava um tronco mais rápido. Vencemos e arrematamos um boné da cerveja bávara Paulaner (ela queria um chapéu da Guiness...).

E quando resolvemos tirar foto com o Homem-Aranha na Plaza Mayor? Detalhe que o super-herói desfilava uma barriga de causar inveja ao Homer Simpson. Ê pá, o gajo ainda era português! Simpatitíssimo e divertido. Como foi divertido passar por diversos artistas de rua, com infinitas aptidões criativas.

Não encontramos as boates sugeridas, mas e daí? A noite barata e louca passou numa disco chamada Cibeles. As pessoas fantasiadas no Halloween interagiam, brincavam umas com as outras, riam. E visitei o Museu do Prado e o estádio Santiago Bernabéu; a Plaza del Oriente (que lugar!) e o Mercado de San Miguel (que lugar!).

Madrid ainda está em mim, como uma tatuagem na memória. Foi um fim de semana apenas, porém intenso. Com amigos que cada vez tornam-se mais importantes para fazer dos momentos que tenho vivido inesquecíveis. Pois como escrevi no início: “Há males que vêm pra bem”.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

La movida madrileña


Uma cidade é muito mais que paisagem. É muito maior que seus edifícios e monumentos; que os pontos turísticos, as zonas históricas; os parques, jardins, becos e ruas. Uma cidade é como nós: tem personalidade, constrói um caráter, ganha uma alma.

Por isso Madrid é bela na forma, mas é especial no conteúdo. A capital espanhola esbanja vitalidade estética ao mesmo tempo em que abraça a simpatia com um jeito despretensioso de conduzir a rotina. Como numa peça sem trama.

Meu encanto foi imediato. Sair do subterrâneo na Gran Vía às 10h da manhã e perceber o mundo que se abre teve peso – e importância sublime. Depois da meia-noite o deslumbre foi igual. Madrid não dorme e, acordada, faz festa. Seja no meio da rua, seja numa discoteca.

O bom humor é mesmo algo que se (re)aprende na Espanha. E como nos energiza! Embarquei de volta a Lisboa no Aeroporto de Barajas com a certeza de esse enredo merengue foi apenas o prólogo.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Eu não sei

Eu não sei. Juro para vocês: eu não sei. Perguntam se volto, quando volto, o que farei ao voltar. E bagunça-me a ordem saber que em algum instante, por imediatio que seja, terei de decidir essas coisas.

Porque sinceramente, com toda a franqueza e serenidade que alguém franco e sereno possa exprimir-se, eu não sei. Já pensei em viver a vida que tem de ser vivida: emprego, casa, família. Sem tirar nem pôr.

Mas cada vez que foco no convencional, despedaço a convicção. Já pensei em adiar o futuro e fintar o destino. Depois que a gente voa a primeira, a segunda, a terceira vez, não há mais ninho, nenhum lugar é lar. E me questiono se não fujo das responsabilidades?

A resposta já devem saber que eu não sei. Vejo meus amigos daqui seguirem suas trajetórias... aqui. Vejo meus amigos de lá valorizarem os seus traçados. Tento entender em qual me identifico mais. Onde me encaixo. A qual mundo faço parte.

Todas essas dúvidas furtam o dia, a noite, o intervalo, a ressaca, a solidão, a euforia, o presente. E pego-me a pensar no amanhã quando o hoje ainda está a iniciar. Porém o que faço? O que resolvo? Eu não sei.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Viver tudo em romance

"O meu ideal seria viver tudo em romance, repousando na vida - ler as minhas emoções, viver o meu desprezo delas. Para quem tenha a imaginação à flor da pele, as aventuras de um protagonista de romance são emoção própria bastante, e mais, pois que são dele e nossas. Não há grande aventura como ter amado Lady Macbeth, com amor verdadeiro e direto; que tem que fazer que[m] assim amou senão, por descanso, não amar nesta vida ninguém?" (Fernando Pessoa)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O silêncio da nuvem


“Tudo está em silêncio como uma nuvem passando diante do sol.” Acho que foi em Viajante Solitário, de Jack Kerouac, que li isso. E agora faço essa relação com o meu momento. Tudo está em silêncio, os ponteiros dão voltas e nem ao menos dou conta de sua trajetória.

Parece, sei lá, que espero algo. Algo que nunca está onde sempre procuro. Ou sempre está onde nunca procuro. Vou gastando os minutos que restam para o apito final, como se empatasse uma partida que já sabia perdida.

Tenho poemas na manga que dizem tudo de mim. Mas nunca são (ou serão) publicados. Tenho tempos de ápice artístico, tempos de déficit estilístico. Fracasso na tentativa de ser entendido e vou seguindo por estradas inóspitas do desconhecimento fluido. Comunico-me para confundir-me.

E desses fragmentos que brotam sem coerência, vou coexistindo com a loucura. Amo tanto amar que descuido-me da realidade do sentimento – e passo a venerar a principal armadilha do amor: a ilusão. Vou viver escondido até encontrar alguém que saiba domar este animal selvagem dentro de mim.

domingo, 25 de outubro de 2009

Epopeia grega (Parte V)


Finalmente os monumentos! Porque contar Atenas em quatro textos e não citar o Partenon, o Templo de Zeus, o Templo de Poseidon, o Arco do Adriano, o Estádio Kallimarmaro... é até uma heresia mitológica.

Fui à capital grega com todo esse imaginário aflorado. Confesso que sempre fascinou-me a história de deuses e homens, heróis e mortais. Tanto que o foco da minha tese de mestrado é esse – a partir das crônicas esportivas de Nelson Rodrigues.

Estar no outro berço da mitologia (há cerca de 10 anos estive em Roma) foi como soltar uma criança num parque de diversões. Subi a Acrópole como quem passeia, eufórico, na roda gigante. Visitei o primeiro estádio das olimpíadas modernas com a alegria do garoto que estreia no circo.

A cidade antiga foge às vistas. Contemplar o infindável horizonte do Olimpo faz-nos, realmente, sentir eternos. Tirei fotos – para contrariar a minha máxima –, mas nenhuma delas conseguiu captar o “estar lá”.

É fácil andar por Atenas. Para os turistas, uma boa sugestão é o tran – uma espécie de eléctrico lisboeta. O destino é Síntagma, o centro histórico e comercial. A rua Ermou é a das lojas de grife.
Na Monastiraki, uma agradável zona, está o comércio informal.

À noite essa região transforma-se num ponto de encontro multietário. O Thissio reúne bares e restaurantes, alguns mais clássicos, outros modernos. As mesas ficam voltadas para onde as pessoas caminham. Já a Marina de Flisvos é um desfilo de requinte. Em meio às sofisticadas discos estão aportados iates de milhões de euros, de toda a parte da Europa.

Eis Atenas ao meu (singelo) olhar. No próximo fim de semana é a vez de Madrid, vale?

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Epopeia grega (Parte IV)

Kalimera, pessoal. Bom dia! Hoje eu ia contar sobre o habitual quando se pensa em Atenas: os templos, os deuses, a mitologia. Mas não – deixa para o quinto e último post.

É que ontem cheguei ao trabalho e fui hostilizado em grego com um gesto típico: os cinco dedos abertos e a palma da mão projetada à frente. O mesmo que o “número cinco”, mas arremessado com veemência. Isso quer dizer... bem, é o nosso “dedo do meio”.

Logicamente que os meus colegas descobriram o gesto e foram brincar comigo. Mas pegaram o jeito e virou costume. O melhor foi ver no estádio de futebol (assisti a Olympiacos 3 x 0 Asteras Tripoli, pelo campeonato grego) a torcida mandar a “mão” ao árbitro.

Claro que participei do xingamento. Na primeira vez, timidamente. Depois, quando o juiz deixou de marcar um pênalti e ainda deu cartão amarelo por simulação, levantei da cadeira e projetei as duas mãos abertas em direção ao mediador. Descobri que, seja lá qual for a forma de comunicação, é sempre terapêutico.

E por falar em sinais, o “não” e o “sim” também são diferentes. Para negar ou recusar alguma coisa, levanta-se o queixo – como se fosse o nosso “oquié?”. Ou então simplesmente erguem as sobrancelhas.

Já a afirmativa tem um lance meio epilético. Não sei fazer nem consegui reconhecer na rua, e da única demonstração assistida ficou um desentendimento total.

Só para não esquecer, uma vez que escrevo sobre símbolos... o da imagem acima é o amuleto de Boa sorte da Grécia. É um olho contra o mau olhado. Efaristó!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Epopeia grega (Parte III)


Uma das coisas que mais chama a atenção na Grécia é a culinária. Eles não são muito chegados a almoço. Come-se um souvlaki e pronto, está de bom tamanho. O souvlaki é um sanduíche com carne e vegetais, num pão sírio (a pita). Já o jantar...

... é um evento. Senta-se à mesa para ficar duas, três horas. O costume é pedir vários pratos e beliscar de tudo um pouco. A cozinha ateniense é muito saudável. Abusa-se das saladas. O porco e o carneiro são os tipos de carne mais consumidos. E ainda tem o moussaká.

Bem, conheci o moussaká ainda no Brasil. É uma lasanha de beringela. Minha mãe fazia muito, e quando descobri que era um prato grego – durante a Olimpíada de 2004 – brincava com ela. O que experimentei, tendo vista para a Acrópole, estava fenomenal.

Na rua, popular é um pãozinho (uma espécie de bagel) com gergelim vendido de 0,60€ a 1€. Nas casas, o que não pode faltar é o queijo feta. Além de ser barato nos mercados, o feta é uma delícia. Outra tradição grega é o masticha (diz-se mastirra).

O masticha, ou mastika, é uma resina retirada da ilha de Chios usada para fazer um licor e... chiclete. Reza a lenda que os nativos mastigavam as plantas e, daí, surgiu a pastilha elástica e o termo. Interessante, não?

E penso comigo: quantas histórias mais não estão encrustadas nesse país tão belo?

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Epopeia grega (Parte II)


Quer pegar um táxi em Atenas? Então esteja preparado para negociar. Não o preço, mas o destino. Pode ser que o motorista simplesmente recuse a te levar. E se conseguir convencê-lo, não ache que a paz reinará. Caso dê na telha, o taxista para e pega outro passageiro.

É verdade... o veículo pode ter quatro pessoas que nunca se viram indo para um mesmo rumo. Paga-se o proporcional à corrida. Fiquei pensando se já não houveram casamentos, namoros ou amizades iniciados no veículo. Ou então, como cogitei fazer, pode acontecer a escolha a dedo daquele táxi com uma deusa dentro.

Por falar nisso, as gregas são exóticas. Tem uma beleza diferente, apesar de não ser comum encontrar uma mulher bonita na rua. São charmosas, embora às vezes abusem dos penduricalhos. Os traços lembram os árabes: o nariz é um pouco grande (mas já confessei a queda que tenho por narizes robustos) e a boca... ah, a boca é sensual e proporcionalmente carnuda.

É um povo alto. Tudo bem que minha referência atual são os portugueses, que são baixos por natureza. Curioso também é que as amigas costumam andar de braços entrelaçados na rua.

Atenas é uma cidade em conta. O preço do café parte de 1,20€ – em Portugal é 0,50€. E come-se bem por 10€. As principais cervejas são a Alfa e Mythos. Mas vou deixar a gastronomia e outras curiosidades para depois.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Epopeia grega (Parte I)


Yásas, Lisboa! Após cinco dias ausente da minha querida casa portuguesa, admito que senti saudade. Também de escrever, para relatar a epopeia na chuvosa Atenas. Apesar da água só ter dado trégua na tarde de sexta-feira e no domingo – dia do adeus –, foi possível conhecer a milenar cidade.

Difícil saber por onde começar. Vou pelo idioma, que é um obstáculo enorme. Porém, motivador. Porque o grego é mesmo complicado – pois ainda não sei se é pior de entender a língua falada ou a escrita. Efaristó é “obrigado”, parakaló é “por favor” e “de nada”, signómi é “desculpa” e “com licença”. Yásas quer dizer “olá”. Já no fim da viagem distribuía os quatro verbetes a todo mundo que encontrava pela frente.

Duro é que a partir daí achavam que eu era nativo e desembestavam a falar comigo. Então resgatava o meu inglês para balbuciar “Sorry, I don’t speak greek” e estava tudo bem. Quer dizer, quase tudo... o inglês deles é, por vezes, incompreensível.

Mas não há qualquer temor em virar-se na cidade. Os atenienses são gentis, apesar de os comerciantes serem um pouco impacientes. O povo compreende espanhol e arrisca-se no português. Pelas vistas, adoram o Brasil.

Ah, e sabe a tradição grega de quebrar pratos? Espatifei logo dois no chão, na área de alimentação do Ikea. Como bom admirador da cultura, tive de fazer a minha parte. Uns vão dizer que – estabanado como tudo – foi descuido meu. A verdade (minha, pelo menos) é que gosto de inserir-me nos costumes.

E esta saga ainda tem muito a relatar...

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Correria

Os meus dias estão corridos. Amanhã parto numa jornada a Atenas. Dito desse jeito soa como uma epopéia. O fato é que ando a reapaixonar-me por Lisboa. O olhar de fora trouxe um novo olhar para o cotidiano (e, pela primeira vez depois de muito tempo, cogitei ficar).

Da Grécia, espero muita beleza. Vou banhar-me de cultura, mergulhar nas histórias de um povo alegre e valoroso. O importante é absorver, estar com os poros bem abertos para colecionar experiências. É nisso que a vida toma graça, toma jeito, entorna paixão.

domingo, 11 de outubro de 2009

Um sábado espetacular


Será mais simples do que devia, mais rápido do que gostaria... porém, ainda assim, serve de registro para a posteridade – não é este o intuito superior do blogue?

Vivi um sábado espetacular, balanceado entre boas parcerias e um jogo de futebol. Durante o dia tive a agradável companhia de uma nova amiga. Ela é arquiteta, ela é francesa e passeamos por Estoril e Cascais a deslumbrar-se com as histórias dos lugares e os lugares das histórias.

Essa troca de cultura aumenta a burrice de maneira sadia. Ou diminui a ignorância a conta-gotas. Quanto mais interagimos com o mundo, menos o inteiramos. Ficam partes soltas de eloquência momentânea, perdidas nesse silêncio do indescoberto.

Desculpem os fracos neologismos. O fato é que renovou-me, mais tarde nesse sábado completo, o duelo entre Portugal e Hungria pela eliminatórias europeias da Copa do Mundo. Assistir a uma partida no estádio (neste caso, o da Luz) é divino. Ou ainda: é uma recompensa dos deuses.

Acredito mesmo que lá esteja contida toda a essência humana. E o que é a massa misturada, aquelas individualidades confundidas, a multidão em harmonia? Arrepia. A minha pobreza de descrição, faz-me repetir: ARREPIA. Com todas as letras enormes para saber que não é figura de linguagem.

Ser contemplado com um dia assim mudou o meu dia seguinte. Ainda mais que hoje revi meus pais – após um ano. E Lisboa ganhou novas paixões nessa minha (a contragosto) estável trajetória recente. Porque como disse um professor meu, em certa aula do mestrado: “A paixão é a única coisa que importa na vida”.

Andava a sentir falta de (re)apaixonar-me por qualquer coisa que seja.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Fingir a felicidade

Uma das minhas especialidades do momento é camuflar a tristeza. Ou talvez driblá-la, enganá-la, ludibriá-la. Venho fingindo a felicidade para ao menos suportar o fato de que não ando feliz.

E sinto-me culpado. Oras bolas, por que cargas d’água tenho de estar cabisbaixo assim? Tem acontecido tanta coisa boa nesta trajetória: amigos, descobertas, viagens... e meus pais chegam depois de amanhã.

Durmo e acordo a questionar este peso. Vira e mexe, acompanha-me silencioso. Vira e mexe, lido com ele na volta para casa depois de uma noite divertida, enquanto preparo o almoço, em um filme que assisto, nos planos que traço. E minha vida parece distante de mim.

Finjo a felicidade para continuar tendo esperança. Mas às vezes repudio-me. Camuflo a tristeza para continuar sendo forte. Mas às vezes fraquejo – nunca à vista, porém mais vezes que muitos imaginam.

Queria ser leve, menos sonhador e não dedicar tanto os meus sorrisos a alguém.


terça-feira, 6 de outubro de 2009

Queda


Tenho queda por franja de lado e por nariz meio grande. Por voz rouca e pé bem cuidado. Por pouca maquiagem e sandália rasteira. Por bota clássica, vestido leve, blusa com ombro de fora e olhos que sorriem.

Tenho queda por cabelo curto, por rabo de cavalo alto, por presilhas no topo, por nuca à mostra. All-star, jeans e covinhas. Por mulher que gosta de sushi, fala de cinema, escuta jazz e não tem frescuras.

Tenho queda pela graciosidade das de 20, pelo desembaraço das de 30. Por aquelas que, educadamente, fingem não notar o flerte e retribuem o olhar com delicadeza. Por mão nas madeixas, pela malícia de um decote, por não que é sim, por tatuagem no pé (que sobe pelo tornozelo), colar rústico e calcinha estilo sunquini.

Tenho queda por mulher que cozinha, que aprecia bom vinho, se espreguiça devagarinho e quer companhia no mar. Ri de piada sem graça, é estabanada, topa fazer nada, entende piada elaborada, solta os ombros para trás e acaricia a minha nuca enquanto dirijo.

E ao mesmo tempo em que tenho queda por todos esses pormenores encantadores, já há muito não caio...

domingo, 4 de outubro de 2009

O Meu Ano Novo

É hoje, não mais e não menos, que faço um ano em Portugal. Pouco sei o que escrever. Para falar a verdade, ando sem inspiração e até com certo desprezo da minha escrita. Sou recheado de intenções, mas quando as palavras começam a fluir no papel somente emergem os clichês fajutos.

É hoje, exatamente, que desembarquei no Velho Mundo em busca de uma nova vida. Os meses rodaram, conheci pessoas e lugares, participei de eventos e descobertas, senti purezas e saudades. Tudo entranha-se à minha biografia com leviandade profunda, modificando para sempre o meu caráter.

É hoje, e todo 4 de outubro, que celebro o Meu Ano Novo.

sábado, 3 de outubro de 2009

Há um ano...


Quase um ano depois, refaço o caminho que fiz a Belém. Acordei com um sol estonteante e resolvi aproveitar Lisboa ao ar livre. Dei-me conta da reconstituição já no autocarro.

Muita coisa mudou de outubro de 2008, quando deixei o Brasil, pra cá. Houveram as mudanças práticas: mudei de casa (três vezes), mudei de emprego, de peso, de ideia para tese, de amigos, de mulheres, de corte de cabelo, de atividades, de hábitos. Mas mudei ainda mais por dentro.

Um ano atrás, era outro. E se hoje cruzasse na rua com aquele eu dificilmente o reconheceria. Estava repleto de hipóteses e vontades. Agora não me acho melhor ou pior: apenas mudado. Todos mudamos para continuarmos iguais.

Se pego-me a pensar quem devo ser é porque ando confuso. O exílio concede ganhos que somam perdas, perdas que resultam ganhos. É mesmo complicado entender. E a distância demorada, a solidão ululante, o crescimento silencioso... são misturas que tornam-se cotidianas.

Aqui, aprendemos a não alcançar respostas, mas entender qual é a pergunta que deve ser feita. Aprendemos que sonhos rejuvenescem e envelhecem, que queremos tanto e podemos ainda mais, que nem todos os medos foram catalogados, que a carência é uma merda, que novas aspirações vêm, sem quê nem porquê – mesmo aquelas desconhecidas.

Estou há um ano em um percurso que buscava há vários. Absorvo o que desejei, experimento a liberdade e seus efeitos colaterais, coleciono contos, fabrico artesanalmente as minhas vidas. Cheguei, enfim, ao papel de protagonista. Com custo, com gasto, com certezas e surpresas.

Não sei, hoje em dia, mais nada sobre a felicidade. Parece-me uma palavra estranha, uma sensação fora de mim. Porque essa perseguição já me é estranha. A felicidade nunca é fim, mas meio. E somente possível se não for percebida.

Deixei, há um ano, sem saber, um jeito qualquer de olhar as coisas...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A novidade. O ópio

É impressão minha ou saltaram setembro do calendário? Eu realmente nem o vi passar. Deve existir, hoje em dia, alguma pressa nas datas. As folhas correm, os dias atropelam-se e parece que ontem aconteceu há cinco anos.

Setembro foi uma época de visitas. Correção: setembro abriu a época de visitas, que se estenderá por outubro. Meus pais vêm lamber a cria e fazer turismo. Passarão por Lisboa para conhecer a minha Lisboa – depois vamos para a maravilhosa Atenas. Confesso que é uma agradável responsabilidade.

Gosto de receber as pessoas queridas. Vou adiante: gosto mais de receber as pessoas queridas que de visitá-las. Fascina-me a ideia de partilhar as descobertas, dividir os contos e trombar com seus olhares contemplativos. Os visitantes nos fazem reviver a novidade.

A novidade... é algo que preciso cotidianamente na vida. Um ópio.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O resgate da beleza


O mundo está cercado de mau humor, de cara feia, de reclamações, de sisudez, de grosseria e desrespeito. Minha percepção talvez seja caótica e apocalíptica. Mas o fato é que no nosso dia-a-dia recebemos menos sorrisos e bom dia que deveríamos. Tinha de ser lei, instituída e passada a ferro, as pessoas cruzarem-se na rua e apertarem os olhares.

Por isso quando sei do início de um romance, quando ouço uma música tocante ou quando vejo uma criança a brincar, o mundo recolore-se. Porque lá está a pureza da ação. E não há beleza mais profunda que enamorar, repetidamente, a sensibilidade da alegria expansiva.

Soa piegas, eu sei. Porque achamos essa coisa de sentir muito demodè. A gente sente medo, sente sede, sente fome, sente que vai chover... mas não sente que sente, e não permite ser sentido. Por muito tempo eu perguntava qual era o sentido de estar aqui, numa daquelas incursões existenciais que vez ou outra temos. E talvez a resposta esteja na própria pergunta: sentir.

Então passei a colecionar sentires e este abalo sísmico no peito, este terremoto que me toma de supetão no meio da burocracia de gestos, mostra que às vezes atinjo o objetivo. Sinto as dores e os amores alheios; as vontades e os dramas; as vocações e as frustrações. Porque permito esgotar-me para encher tudo de novo.

Mais que reunir bens, tenho a ambição egoísta de resgatar a beleza na vida das pessoas. (... despretensiosa pretensão de disseminar sorrisos puros pela escrita.)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Fuga de mim

Nesta jornada tão própria, a gente perde um pouco da gente pelo caminho. Fica para trás aquele jeito de ser, de olhar, de pensar, de sonhar, de sentir... – e de não ser, olhar, pensar, sonhar e sentir. Já nem sei como sou, quem sou eu, mas hoje cogitei não regressar deste passeio no breu.

Quis permanecer, escondido da vida real, esquivando-me do tempo que passa. Como se isto, afinal, fosse Neverland. Subitamente, cheguei à resposta da dúvida que me arrebata quando fecho os olhos e encerro o dia: procuro algo ou fujo de algo?

Estive sempre a fugir, a fugir e a fugir. Minha vida só foi possível pois ela não é. Nunca existi. Corrijo-me: deixei de existir com credibilidade plena no primeiro adeus – o mais difícil, há três anos. Depois disso, passei a ser qualquer coisa como um objeto à superfície de um mar de óleo.

Não sei mais se reconhecem-me por aí... Se eu mesmo reconheço-me. E tive esse ímpeto de crer que desaprendi a desejar o eterno e a estar confortável diante da mesmice. Eu fujo de mim pois quero reinventar-me a cada fuga.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Oxalá e Fon Fon Fon

Nesta terça-feira, em que a claridade furtou-me os sonhos, aqui vai uma fatia da cultura portuguesa. São dois grupos que fazem um fado diferente, experimental e mais alegre. Já andei por cá a dar dicas de cantores lusitanos (Jorge Palma, Mafalda Veiga, Tiago Bettencourt). Esta imersão é inevitável e enriquecedora.

Apresento primeiro o Óquestrada. A vocalista (Miranda) é superdivertida, tem uma ótima voz e presença de palco muito bacana. Fui a um concerto deles... é empolgante. Sem contar que, reparem bem, o contra-baixo é improvisado: um balde, um barbante e um pedaço de pau.




E logo abaixo estão os Deolinda. Mais conhecidos e antigos, são uma espécie de "precursores" deste estilo. A letra de Fon Fon Fon tem tudo a ver com Lisboa. Sugiro que a procurem por escrito, porque não vão entender metade do que será dito (mas vão pegar-se a dançar).

domingo, 20 de setembro de 2009

Complexo de gato de apartamento


Sou um crítico cáustico dos brasileiros que cercam-se de brasileiros num país estrangeiro. Ora, se você sai do Brasil e só vive o Brasil no exterior, então qual é o objetivo da partida? Digo isso como estudante, lógico, e não como imigrante. A diferença básica dos dois é que, para o primeiro, o adeus tem prazo de validade.

O imigrante deixa sua terra com um sopro fustigado de esperança. Como se avançasse numa colonização reversa, num processo de contra-desbravamento. É normal que procure conterrâneos com as mesmas experiências, visões de mundo, sobressaltos e nostalgias.

Ainda assim, não entendo o porquê de brasileiros criarem guetos. A má fama no estrangeiro vem um pouco daí. Somos um povo cordial, mas também demasiadamente orgulhoso da auto-suficiência, da auto-preservação. O complexo de vira-latas moldou-se num complexo de gato de apartamento.

Mas há o contraponto. Sempre há. E pelo menos em Lisboa é assim: os nativos são fechados, o que faz ser difícil entrar no cotidiano deles. Tenho amigos portugueses da faculdade e do trabalho, mas quando não é a distância física que nos separa é a distância cultural e/ou emocional.

Gosto da mistura, da diversidade de ingredientes. Meu namoro com a Vera, uma alfacinha autêntica (quem é da terceira geração nascida em Lisboa), ensinou-me muito sobre a capital e o país – nenhum livro de História, passeio turístico ou Wikipédia seria capaz de tanto. Essa imersão é fundamental.

Então inquieta-me, hoje, se não oiço o sotaque europeu à volta nos momentos de folga, se não aprendo como é em Portugal e não partilho como é no Brasil. Mas já entendo melhor que, muitas vezes, cercar-se com a mesma nacionalidade é menos uma opção e mais uma necessidade. Infelizmente.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Manias portuguesas e o sonho europeu

Enquanto não retorno, e traço planos de mais um ano em Portugal, dou-me conta das manias adquiridas. Como tomar ducha com chuveiro móvel. Agora é coisa comum – e bem prática. Ou acender a luz do banheiro pelo lado de fora.

Já refogo a comida no azeite (aposentei o óleo), tempero pratos com curry (caril por aqui), compro feijão pré-cozido em lata. E o café, então? No mínimo dois por dia. Tornou-se hábito e ritual.

Os termos, então, nem se fala. Voltarei com menos gerúndio, bué palavras novas e a contar sobre as viagens de comboio, as linhas do metro, os passeios de eléctrico, os trajetos do autocarro. Pá, casa de banho, telemóvel, cena e fixe também já incorporaram-se ao meu vocabulário.

Vai ser impossível não gozarem-me. Ou me gozarem. Depois de tanto tempo num local a gente acaba por tomar emprestada a cultura, os calões, os trejeitos e costumes. Mas nada apaga a relação com a casa. Nem o tal “sonho europeu”.

Converso com amigos que pensam que isto é a oitava maravilha do mundo, que não existem problemas deste lado do Atlântico, que é bobagem preocupar-se com qualquer coisa quando estamos no Velho Continente. Essas pessoas não entendem – e não irão entender até viver – o que é estar fisicamente distante.

O jogador Adriano, do Flamengo, relatou o seu retorno ao Rio de Janeiro assim: “Eu precisava disso. Aqui falam a minha língua, entendem a minha cultura. É muito mais fácil. Volto para casa após os jogos e tenho minha família, os meus amigos. Isso me faz muito mais feliz do que antes. Aqui é Brasil. Apesar das dificuldades somos um povo vencedor.”

Nunca desencorajarei o arriscar, mas vou explicar em letras graúdas que não há glamour gratuito – como pensam ou sonham ser. Cada passo dado no exterior é mais pesado e cuidadoso. Após 10 meses em Portugal consegui realizar a primeira viagem para fora.

Somente em julho consegui equilibrar as contas e me dar ao conforto de compras melhores, lanches na rua e prevenir-me do frio como deve ser. Trabalhei em café, servi mesa, ouvi desaforo de cliente, cortei-me em louça quebrada, tomei chuva de madrugada, subi e desci ladeiras infinitas. Ainda hoje divido a privacidade com cinco estranhos num apartamento com um banheiro. (Mas já foi pior.)

E não arrependo de nada disso. Porque nunca iludi-me com um tal “sonho europeu”. Sei, porém, que descubro a cada dia que meu lugar é o Brasil.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Esta sensação de pertencimento


Não sei bem como a gente sabe que já pertence a um lugar. É por caminhar sem preocupar-se com as placas, sem olhar o mapa? Ou é quando o que já foi diferente torna-se trivial? Não sei bem se é pelo cheiro ou pelo olhar, se é de um dia pro outro ou leva tempo.

Eu tenho pra mim que é, um pouco, quando a gente cumprimenta conhecidos na rua. Quando uma ida ao mercado é interrompida por um “oi, tudo bem?”. Quando no trajeto do metro, descobre-se aquela ex-colega de trabalho, que não se via há meses.

E é confuso, bom e ruim, este sentir-se pertencer ao que não é seu. Vira e mexe misturo rostos na minha memória em movimento. Avisto pessoas de Florianópolis em Lisboa – gente que convivia superficialmente. Em Floripa, bagunçava as raízes: não sabia se conhecia o sujeito de lá ou de Brasília.

Estranho demais ter pedaços espalhados em cada lugar, como se a coragem – e a vontade – de dizer adeus fosse paga com o esquartejamento da alma. Por isso escrevo. Por isso o blogue. É onde engaveto histórias e formalizo experiências com a convicção apaziguadora de poder reconstruir – ou recriar – o todo, ainda que nasça um Frankenstein literário.

Não sei bem se, algum dia, irei questionar se, alguma vez, pertenci a Lisboa. Mas, então, terei este pretenso texto para sanar a dúvida que uiva: afinal, foi Lisboa que pertenceu a mim, como uma cadelinha é sempre fiel ao seu dono.