terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A vida que me lambe o rosto

Como há coisas que nem Freud explica, vou me eximir de tentar. Apenas divagarei, devagar e sempre – que é o tempo do papel. De modo grosseiro, posso rotular de masoquismo essa perturbação que me aflige desde os... deixa eu ver... 16, 17 anos.

No entanto, como vocês são pessoas finas e estudadas, esqueçam a definição mal-ajambrada. Recorro a algo mais lúdico, literário, poético. Recorro a Rainer Maria Rilke:


“Sabemos pouco, mas que temos de nos ater à dificuldade é uma certeza que nunca nos abandonará; (...) que uma coisa seja difícil deverá ser mais uma razão para a fazer.”


Dito isso, tirem as mães de frente ao computador. Ou basta tirar a minha, que deve ser, aliás, a única mãe a ler este blogue (Ci, não te excluí). Troquei o conforto de casa, os mimos do lar, a tranqüilidade domiciliar, pelos apuros da rua. Coisa boa. Afinal, foi assim em 2005 – e superei, amadureci, sobrevivi. Não há modo mais autêntico de sentir a vida lamber-te o rosto.

Parece loucura, eu sei. Para os que se surpreendem com a minha coragem (por favor, não há nada de corajoso nisto!), digo que trocar a família pelas aventuras é um estímulo implacável. Meus pais me criaram para o mundo, e percebo o orgulho deles em me ver longe. Aperto? Saudades? Receios? Lógico. Porém morar em um quartinho, andar de autocarro e metro, equilibrar as contas do mercado, trabalhar oito horas a servir mesas, caminhar debaixo de chuva e voltar para casa ensopado e cansado à meia-noite... tudo isso fadiga, mas é real.

Não sei explicar o porquê, já falei. Nem Freud. Quando estive em Florianópolis também houve renúncias, complicações, desgastes (físico, mental e emocional), altos e baixos, momentos ruins. Situações que me ensinaram a continuar aprendendo. E com naturalidade e calma, se me permite o Fernando Pessoa. Às vezes me pego a rir sozinho das condições a que me submeto. Uma risada até um pouco macabra.

Só que as riquezas que a gente leva em nosso roteiro são as nossas histórias, e tento colecionar diversas com as quais me reconheça – e acalme uma alma inquieta por excelência. Há uma frase de juventude que nem sei quem é o autor, mas vire e mexe ressurge: “Busco o impossível, já que o possível pode esperar”.

Para fechar, mãe (sei que prosseguiste no texto), mostro uma passagem em vídeo do livro Mar Sem Fim, do Amyr Klink. Tem tempo que quero compartilhar estas palavras. Chegou o dia.

3 comentários:

Elis disse...

Olá Gustavo, eu cheguei também ao final de seu texto, não menos poético que a escrita do Amyr (linda e profundamente verdadeira)Ah! e também sou mãe. Cheguei até aqui não lembro como. Mas ao contrário do axioma que prega que mais importante que a chegada é o trajeto, nesse caso a chegada foi mais importante.Acompanho há algum tempo seu blog, apesar de nunca ter deixado comentário. O faço, talvez por me identificar em muitas situações-quando leio seus posts-com o seu pensamento e a sua forma de ver a vida.
Tudo que escrevesse agora ficaria pequeno demais diante do que vi e li até agora. Resta-me desejar-te sucesso nessa sua viagem (interior).
Abraços.

sandoval disse...

Gostei!

Assim como a vida, não há conhecimento absoluto, pois tudo está em constante transformação.

Logo, não há saber nem ignorância absoluta: há apenas uma relativizcão do saber ou da ignorância, que nem Freud explica.

E se tentasse explicar, muitos discordariam.

Entendeu?

Drica disse...

Freud não explica (claro, coitado, pessoa limitada) mas Adriana Jaime sim!!! kkkkkkkkkkkkk!!!
Bjsssssss