domingo, 21 de dezembro de 2008

Medo de envelhecer


Todos temos medo de envelhecer. E lá estava um senhor, no metro, de pele enrugada e escassos fios brancos. Era um sujeito simples, a andar só – e taciturno – no despertar da madrugada de um sábado. A contraponto, jovens riam alto, gozando da liberdade reveladora de personalidades; casais enamoravam-se, embriagados pelas solidões que se enroscam; trabalhadores recolhiam-se ao silêncio, fadigados, interrompidos.

Temos medo de envelhecer. E lá estava o senhor heroicamente envelhecido. Tinha as roupas sóbrias: um casaco negro por cima de uma camisa clara quadriculada, a calça marrom e os sapatos grossos. No rosto, pendia-lhe um óculos antigo, de lentes profundas. Nas mãos, trazia uma boina cinzenta, dobrada, gasta – uma peça sentimental.

Medo de envelhecer. Como carregamos esse fardo, então melhor ignorá-lo. Fingir que não existe. Eu não consigo, e quando observei o senhor na sua conformidade anciã, tive de me enquadrar, várias vezes, a desviar o olhar. Algo naquele homem me hipnotizou: a sua paz irrequieta ou seus fortes traços a apontar uma vida contemplada palmo a palmo. Acima de tudo, marcou-me o isolamento. Deve bater ali um coração sofrido, mas inteiro e maciço.

Envelhecer. É o que me acontece enquanto escrevo o texto – e a vocês, enquanto o lê. Vejo os idosos e o ímpeto é de me projetar. Imagino como eram na minha idade. Imagino como serei na idade deles. A gente constrói histórias. Será o nosso maior tesouro? A gente divide presença. Será o pendor da vitória? O que fica? O que vai? O que transcende?

Ainda tenho um caminho a percorrer. Mas o senhor do metro, um dia, também teve. E como ele o aproveitou?

4 comentários:

Luciana Lopes. disse...

Como sempre nos brindando com textos lindos que nos fazem pensar e repensar a maior dúvida de todo e qualquer ser humano: a existência.
Ah Gustavo, como ainda pode me dizers que estas sem inspiração. Você transpira belas palavras e faz dos seus leitores fãs incondicionaís desse jeito simples mas forte de escrever. Um escritor como poucos. Um poeta como raros raros. Um desbravador de mundos com a coragem de jovem e a sabedoria de um ancião.

Gustavo Jaime disse...

Uau! O que faço com tantos elogios? Admito que sou um pouco desacostumado (melhor: desajeitado) com tantos adjetivos bondosos. Não que eu costuma receber críticas severas (pois deveria também), mas é que sou rígido com minhas criações e nem sei se merecem mesmo definições tão especiais.

Não é desfeita, por favor! Apenas desconheço como receber esse tipo de comentário (hehehe). Acho que um "Obrigado!" já é um começo...

sandoval disse...

A essência da vida não é contar os anos vividos, não é a quantidade de anos que vivemos. A essência da vida está na qualidade de tempo que vivemos.

Cinco minutos podem ser mais importantes que um dia inteiro. E quantas vezes não temos em nossas vidas esses cinco minutos?

Mais uma vez, parabéns pelo texto.

Beijos mil.

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