sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Estreita ligação

As torneiras estão secas. Não há água no apartamento desde o início da manhã. Não há água no prédio, na freguesia toda de Penha de França, pelo que pude perceber. E desta vez nem avisaram com antecedência.

Na quarta (ou foi terça?) também desligaram os registros para a manutenção, entre 14h e 20h, mas comunicaram. Tudo bem, o prazo era até 18h, mas afinal estamos em Portugal. Cá, tal qual no Brasil, esse tipo de rigor é pouco – ou nada – seguido.

A ligação do cotidiano lusitano com o tupiniquim é muito, muito maior que à distância imaginamos. Quando falamos da afinidade entre os países caminha-se sempre para o sentido afetivo, dos séculos de relação íntima, de nossa ascendência patrícia, da mesma língua-mãe.

Essas condições, de fato, caracterizam o estreito laço de irmandade. Entretanto, não só elas. A simbiose vai além. Os hábitos e costumes são impressionantemente parecidos, desde a base às altas estruturas.

Nas conversas com amigos portugueses, isso fica cada vez mais claro – para mim e para eles. Na faculdade, por exemplo, os serviços administrativos são iguais aos do Brasil. Ou seja, caminham de modo moroso. Além disso, é normal um professor faltar por “motivo profissional” ou “de força maior”. A ausência é avisada a duas horas do início da aula.

Lá no café, a aproximação com os colegas e com os clientes fortalece a percepção. Tem quem trabalhe com afinco e quem apenas enrole – com a esperteza de fingir muito bem. Há consumidores com paciência e “jogo de cintura” para esperar e quem carregue o “rei na barriga” e desconsidere problemas. (Isso existe em tudo quanto é parte do mundo, mas as reações cá e lá é que nos aproximam assustadoramente.)

Este passeio por Portugal tem sido fundamental para eu ver coisas que ocupam, em todos nós, o plano da impressão, do puro achismo. É preciso vivenciar para entender. É preciso estar para ser.

3 comentários:

Marília disse...

Sigo me emocionando a cada leitura das tuas impressões e pensamentos.. Até tua melancolia é bela. E me sinto menos só no mundo ao compartilhar de muitas delas. Segue aproveitando tua nova realidade. Me inspiras até a começar a escrever aquilo que só me fica na cabeça.. Bjo grande, Marília

Gustavo Jaime disse...

Marília, saber que inspiro alguém a escrever também é o que tem de maior na minha despretensão. Porque no fundo, no fundo, a gente sempre pensa em tocar o outro com as nossas idéias enunciadas. Bom, agradeço a presença e contribuição. Agradeço a sensibilidade nas palavras e os elogios tocantes - dizer que minha melancolia é bela é uma das coisas que realmente me tiram um sorriso e completam meu ar de paz, pois brigo sempre em tentar legimitar qualquer sentimento autêntico, seja ele a felicidade ou a infelicidade. O peso não está em o que sentimos, mas em como sentimos. Mais vale pra mim uma tristeza genuína a uma alegria falsa. (Disse Quintana: o mais perigoso não são as lágrimas de crocodilo, mas os sorrisos de crocodilo).

Beijos e se cuida!

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