quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Virar de página

Dia 31 já está aí. E pensar que um dos meus “Anos Novos” começou em outubro. O outro inicia na sexta-feira. Essa coisa de delimitar datas – ou de ir na maré efusiva da comemoração geral – não é lá muito minha praia. Quero a liberdade de poder (in)definir o que eu bem entender...

2008 passou voando. Acho que a gente entrou na fase dos fast year também, acompanhando tudo que é ligeiro e efêmero neste mundo atual. A contemporaneidade é traiçoeira, é mesquinha, é estúpida. Nos furta o tempo com a impressão de ocupação.

Estamos sempre tão cheio de coisas a fazer. E se não estamos, fingimos estar. Ninguém mais se permite ao “nada”. Pense bem a última vez em que você sentou num banco e, pronto, assim ficou. Não sacou o celular do bolso e ligou para alguém ou pôs-se a mandar mensagens ao léu. Tente rememorar a última vez que contemplou o espaço vazio – ou o espaço cheio com a mente vazia.

Bem, tomei um rumo distinto no texto. Mas essa road trip literária leva sempre a lugares interessantes. Queria dizer que em 2 de janeiro mudo de casa. Começa, então, uma nova fase nesta fase ainda nova da minha trajetória. A cada dia descubro coisas, e o prazer da descoberta é o prazer mais pleno que há.

Diante de tantas opções disponíveis para a virada, não existe um plano traçado. Daqui a pouco acerto o que vou fazer. Neste momento, só quero existir, sem pensar, sem antecipar. E que preguiça de ter de bancar o futuro... me dá o presente e já está excelente. Imprevisível mesmo, bem assim do jeito que ele é.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Recesso na inspiração


Como minha inspiração resolveu tirar uns dias de folga, descansar neste período de recesso, talvez viajar para Cancún, onde aproveita sol e mar... vou utilizar umas belas palavras de Rainer Maria Rilke para lhes presentear a entrada de um novo ano.

Para mim, é bem verdade, o ano começou em outubro. Precisamente, dia 4. A celebração que virá será mero formalismo – um ato simbólico para demarcar as convenções.

***

"Nada está mais longe de tocar numa obra de arte do que a palavras críticas. As coisas não são tão apreensíveis nem tão dizíveis como nos querem fazer crer; quase todos os eventos são inefáveis, desenrolam-se num espaço onde as palavras nunca entram."

"Confie sempre em si próprio e na sua sensibilidade; se estiver enganado, o crescimento natural da sua vida interior conduzi-lo-á lentamente e com o passar do tempo a novos conhecimentos. Deixe que os seus juízos sigam a sua própria evolução silenciosa e impertubável que, como todos os progressos, obedece a uma profunda necessidade interior, não podendo ser imposta nem apressada."

"Alegre-se com o seu crescimento, que não pode ser assistido por ninguém, e seja benevolente para com aqueles que ficam para trás, e mostre-se firme e tranquilo diante deles e não os atormente com suas dúvidas e não os assuste com a sua esperança ou com a sua alegria, que eles não podem compreender."

"Pense no mundo que traz em si e dê a este pensamento o nome que quiser; chame-lhe recordação da infância ou nostalgia do seu futuro, mas tenha atenção ao que nasce em si e conceda-lhe um lugar mais alto do que a tudo o que vê à sua volta. O que acontece dentro de si merece todo o seu amor, trabalhe nisso de algum modo e não perca muito tempo nem alento a tentar esclarecer a sua atitude perante os homens."

domingo, 28 de dezembro de 2008

Feridas do tempo

A parte física não está muito bem. A começar pelos pés. A unha do dedão direito encravou. Isso não é coisa que se diga num blogue... mas encravou, oras. E tenho de relatar a verdade, nada mais que a verdade, toda a pura verdade. Correto?

Pois bem. Dói pouco. Quer dizer, mais incomoda. Só que deixemos a unha pra lá, até porque já gastei linhas demais pra decorrer sobre um problema tão reles. É que a velhice se aproxima – e repetir as coisas é um indício claro. O outro sinal aparece nos joelhos.

As juntas têm sentido o vaivém, o sobe-desce, a maratona na cafeteria. Também, dirá um amigo, estou sempre de all-star... e convenhamos: o calçado não contribui. Sem amortecedor, o impacto nos joelhos é direto. (Consciência eu tenho, eu tenho. Juro que vou me disciplinar e largar o tão querido modelo de tênis.)

Então vamos pras mãos, porque dos joelhos aos ombros tudo está a funcionar perfeitamente. Já meus instrumentos de trabalho andam judiados. Uns esfolados aqui, uns arranhões ali. Meu dedão é que experimentou algo mais profundo: um corte. Nada tão grave assim. Enquanto limpava o lixo, um caco de vidro perdido rasgou a pele.

Sou fraco com sangue. Corrijo: com meu sangue. Descobri isso em 2005, quando o box do banheiro “explodiu” bem em cima de mim. Cortou-me o pé, e ao ver aquele poça vermelha descer o ralo, o mundo começou a apagar. Sim, caros, desmaiei. Ontem também titubeei.

Está certo, isso não contribui em nada para minha fama de machão. Mas como nunca tive uma mesmo – e a fama tende a trair o afamado –, estou tranquilo. Achei que a primeira vez seria única. Descobri que o tempo passa e o nosso corpo desenvolve cada vez mais fraquezas. (Como a minha dificuldade em digerir torresmo. E logo eu, que adoro torresmo!)

Pelo menos a cabeça segue boa. Creio eu. O coração está pleno – e não só no funcionamento fisiológico. Também não há nada a reclamar da alma. Mantém-se leve e receptiva. Meu calcanhar-de-Aquiles tem sido a parte física. Mas dou um jeito nisso... talvez os anos passem mesmo com muita rapidez.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Nomadismo

Pensei nisto agora, cá com os meus botões: tive o Réveillon 2007/08 em Balneário Camboriú, cidade a 80 quilômetros de Florianópolis. Voltei à capital catarinense e tempos depois já pegava a estrada, com dois camaradas, para Buenos Aires.

Fizemos um pit-stop ligeiro em Porto Alegre. Outro no Alegrete, terra do poeta Mario Quintana, para descansar. Terminada a aventura em terras argentinas – com direito a extorsões policiais e chave do carro perdida –, celebrei o Carnaval em Floripa, ao lado de amigos antigos e novos.

Também foi minha despedida da Ilha. Assim findou uma fase de dois anos e meio. Vendi as coisas que havia adquirido, juntei minhas trouxas, meti no Palio vermelho e retornei a Brasília. Tive direito a um fim de semana turístico – e etílico – em São Paulo, visitando um estimado amigo.

Já em Brasília, fiz aquela tradicional viagem a Goiânia, para matar saudades dos parentes. Tentei, ainda, aproveitar uns dias em Floripa, num feriado qualquer, mas perdi o vôo. Paciência. Em outubro parti para Lisboa e, por aqui, estive no Porto, Sintra, Ericeira e Mafra.

No meu consistente propósito de estar sempre em movimento, só agora vejo que 2008 foi um ano abençoado. Abençoadíssimo. Pois tenho certeza de que a próxima temporada reserva outros desejos realizados. (Ou assim espero, afinal é o tempo de se planejar e sonhar)

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Noite feliz


Que ceia maravilhosa! Mesa posta com fartura de comida, bom vinho francês, amigos reunidos, conversa animada, muitas risadas, presentes trocados, canções tocantes e, ao fim da noite, um “gordinho” da turma aparece fantasiado de Papai Noel. Ah, cenas tradicionais da festa de Natal. Parecia até filme!

(Mãe, um recado fundamental: se contente com a descrição acima. Não ultrapasse – eu disse NÃO ULTRAPASSE! – a barreira dos asteriscos.)

***

Que noite maravilhosa! Cheguei em casa depois de um dia árduo de trabalho, abri um bom vinho português, tomei um banho quente ao som de Jack Johnson, Amy Winehouse, Gotan Project, Lauryn Hill, Damien Rice, U2 e Joss Stone e fiz um macarrão ao molho branco com milho. Tudo isso só.

Bem, mesmo se disser que era o que eu queria, que estava munido de um arsenal de chocolates – ganhei da dona do café – e que em nenhum momento me senti mal, com certeza vão me tachar de irresponsável, maluco, infeliz ou coitado. O último é o pior.

E daí se quis passar um Natal solitário? Tava cansado, tava afim, tava... não preciso me justificar! Foi uma noite feliz, e pronto. Aliás, agora tenho o “pacote completo”: a virada de 2000/01 passei sozinho, por livre e espontânea vontade. Quer dizer, tive a companhia de uma pizza queimada e alguns desconhecidos no mIRC (lembram-se do mIRC?).

De qualquer modo, era o que eu precisava. Agora também quis comemorar comigo mesmo o nascimento de Cristo – ou foi a morte? Ressurreição? Algum milagre? Confesso que não sei.

Por exemplo: alguém aqui pode contar que lavou roupa na noite de Natal? Pois eu lavei. E não que despreze presenças e histórias ou glorifique a solidão, apenas trato tudo com calma e naturalidade (né, Caeiro?). Se forem pra sentir pena, nem comentem – sei que é um bocado mal-educado pedir isso, mas...

E saibam que meu Natal foi ótimo. O melhor de 2008! – e não estou a exagerar.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Então é Natal?

O Natal... Ah, o Natal... que época chata! Tumulto nas ruas, cantigas idiotas e aquele vago espírito renovador: tudo um grande pé no saco – que me desculpem pelo termo chulo. Estou ácido – e um bocado divagador. “Então é Natal... lá-lá-lá”.

Acho bonito e engraçadinho as duas miúdas que fizeram uma capela com canções natalinas à porta do café. Estavam desafinadas, é verdade, mas depois desejaram um bom dia e ótimas festas com aquele fulgor infantil. No entanto, em linhas gerais, acho essas letras e melodias irritantes.

Seja em português – entendo tudo –, em inglês ou espanhol – entendo mais ou menos –, em italiano – entendo pouco –, em francês ou alemão – não entendo bulhufas! –, elas soam como uma ode ao nada. Quer dizer, se até fosse ao “nada” ainda seria válido. É uma ode a tudo: solidariedade, amor, felicidade, afeto, respeito, amizade, carinho, blá, blá, blá...

Parecem-me temas negligenciados, olvidados, descartados, escarniçados, polvilhados, vilipendiados ao longo do ano (uau, que vocabulário! Obrigado, pai-dos-burros). Ou só lembrados agora. Do tipo: “tá bem, tá bem, fomos uns parvos nos 355 dias, mas agora vamos evocar as emoções boas e nos comportar de maneira agradável, vai...”.

Sei que não é assim e estou a dramatizar um tantão. Desculpem entrar de sola no assunto. Não é mau humor ou inveja de algo. Não é ingratidão por não ter ganho presente do Papai Noel – e me comportei tão direitinho... Nem ao menos recrimino que cantem, gravem, produzem, toquem, dancem, remixem essas canções triviais. Sou a favor das liberdades de criação e expressão.

Porém, nada me tira a certeza de que podíamos facilmente viver sem o excesso de humanismo excelso. Né, Celso? Então cesso aqui. (Ia citar as aglomerações desumanizadoras por conta das compras e outros recheios natalinos que me embrulham o estômago, mas decidi poupá-los. É meu singelo presente. Senão vocês me acharão um daqueles ativistas anticonsumismo encolerizados... Não carrego bandeiras. Elas pesam e pendem.)

De qualquer modo, bom Natal! Aproveitem a reunião familiar, os amigos e a comilança. Optem por CDs bacanas, por favor. E, depois do 24/25 de dezembro, se encham de esperança – pois um novo ano vem aí... igual ao anterior, mas diferente.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Eu, proparoxítono

Meus dias retomam o curso dos saberes e dos sabores. Eu, tão último em tudo, tão ávido e lúdico, escrevo – existo – na proparoxítona não mais como uma lástima ou uma súplica. Procuro arriscar histórias plásticas e encontros sempre mágicos. Me abrigo nos amigos cósmicos e nos amores épicos.

(A vida propôs-se em uma música clássica.)

domingo, 21 de dezembro de 2008

Medo de envelhecer


Todos temos medo de envelhecer. E lá estava um senhor, no metro, de pele enrugada e escassos fios brancos. Era um sujeito simples, a andar só – e taciturno – no despertar da madrugada de um sábado. A contraponto, jovens riam alto, gozando da liberdade reveladora de personalidades; casais enamoravam-se, embriagados pelas solidões que se enroscam; trabalhadores recolhiam-se ao silêncio, fadigados, interrompidos.

Temos medo de envelhecer. E lá estava o senhor heroicamente envelhecido. Tinha as roupas sóbrias: um casaco negro por cima de uma camisa clara quadriculada, a calça marrom e os sapatos grossos. No rosto, pendia-lhe um óculos antigo, de lentes profundas. Nas mãos, trazia uma boina cinzenta, dobrada, gasta – uma peça sentimental.

Medo de envelhecer. Como carregamos esse fardo, então melhor ignorá-lo. Fingir que não existe. Eu não consigo, e quando observei o senhor na sua conformidade anciã, tive de me enquadrar, várias vezes, a desviar o olhar. Algo naquele homem me hipnotizou: a sua paz irrequieta ou seus fortes traços a apontar uma vida contemplada palmo a palmo. Acima de tudo, marcou-me o isolamento. Deve bater ali um coração sofrido, mas inteiro e maciço.

Envelhecer. É o que me acontece enquanto escrevo o texto – e a vocês, enquanto o lê. Vejo os idosos e o ímpeto é de me projetar. Imagino como eram na minha idade. Imagino como serei na idade deles. A gente constrói histórias. Será o nosso maior tesouro? A gente divide presença. Será o pendor da vitória? O que fica? O que vai? O que transcende?

Ainda tenho um caminho a percorrer. Mas o senhor do metro, um dia, também teve. E como ele o aproveitou?

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Estreita ligação

As torneiras estão secas. Não há água no apartamento desde o início da manhã. Não há água no prédio, na freguesia toda de Penha de França, pelo que pude perceber. E desta vez nem avisaram com antecedência.

Na quarta (ou foi terça?) também desligaram os registros para a manutenção, entre 14h e 20h, mas comunicaram. Tudo bem, o prazo era até 18h, mas afinal estamos em Portugal. Cá, tal qual no Brasil, esse tipo de rigor é pouco – ou nada – seguido.

A ligação do cotidiano lusitano com o tupiniquim é muito, muito maior que à distância imaginamos. Quando falamos da afinidade entre os países caminha-se sempre para o sentido afetivo, dos séculos de relação íntima, de nossa ascendência patrícia, da mesma língua-mãe.

Essas condições, de fato, caracterizam o estreito laço de irmandade. Entretanto, não só elas. A simbiose vai além. Os hábitos e costumes são impressionantemente parecidos, desde a base às altas estruturas.

Nas conversas com amigos portugueses, isso fica cada vez mais claro – para mim e para eles. Na faculdade, por exemplo, os serviços administrativos são iguais aos do Brasil. Ou seja, caminham de modo moroso. Além disso, é normal um professor faltar por “motivo profissional” ou “de força maior”. A ausência é avisada a duas horas do início da aula.

Lá no café, a aproximação com os colegas e com os clientes fortalece a percepção. Tem quem trabalhe com afinco e quem apenas enrole – com a esperteza de fingir muito bem. Há consumidores com paciência e “jogo de cintura” para esperar e quem carregue o “rei na barriga” e desconsidere problemas. (Isso existe em tudo quanto é parte do mundo, mas as reações cá e lá é que nos aproximam assustadoramente.)

Este passeio por Portugal tem sido fundamental para eu ver coisas que ocupam, em todos nós, o plano da impressão, do puro achismo. É preciso vivenciar para entender. É preciso estar para ser.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Diante do mar...

Amigos, uma confissão: chorei ao ver o mar. Foi um pranto suave e pleno de uma lágrima solitária. Quem estava em volta nem sequer notou. Chorei calado, acompanhado do vento fino e do sol robusto. Chorei não pela saudade arrefecida, mas pelas saudades que virão; não pela distância atemporal, mas pela proximidade secular. Chorei por me tornar enorme diante da imensidão total.

Engraçado, visitei tantos sítios e paisagens belas em Sintra e me apeguei logo ao conhecido: o oceano. Pela primeira vez, porém, vivi a real sensação de estar d’além mar. Me embebi da água salgada do Atlântico pelo seu lado europeu. Descalcei-me do Brasil para pisar a areia portuguesa e despi-me dos casacos pesados para abraçar a leveza da espuma.

O auge foi na Praia Grande, mas percorremos a vila de Sintra, tombada Patrimônio Mundial da Unesco, e os seus arredores. Tudo na companhia de um amigo-morador, exímio conhecedor do local, o que engrandeceu ainda mais o passeio. Tão breve será impossível esquecer o que vi. E nem pretendo.

Diante da poesia formada aos meus olhos, me senti melhor.

Me senti.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Vou a Sintra

Comprei meia grossa, acordei às 7h: vou a Sintra.

Separei a roupa, fui dormir bem cedo: vou a Sintra.

Marquei com os amigos, preparei a mochila: vou a Sintra.

Carreguei a máquina, levantei dinheiro: vou a Sintra.

Planejei roteiros, desisti no meio: vou a Sintra.

Peguei o comboio, foi só o começo: vou a Sintra.

Viajar é o que há...

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Um rio que deflui


Pedem notícias. Notícias minhas d’além mar. Até mesmo quem está deste lado do Atlântico solicita que eu apareça. De fato, é esquisita esta fase que passo. (Será mesmo uma fase? Apenas isso? Sim... afinal, sempre é).

Os dias correm, situações ocorrem, vidas decorrem e pareço estático. Todos estudaram Física e lembram da tal explicação da inércia. O professor citava o exemplo do sujeito, parado, dentro do ônibus a 50 km/h. Tudo lá fora é movimento; aqui dentro é estagnação.

Pedem notícias. Apesar dessa sensação, estou bem. Lisboa ajuda a estarmos bem. É uma cidade com opções maravilhosas de distração. Desde andar na rua – nesta época, sob o vento cada vez mais gelado do inverno que se aproxima – a visitar galerias, espaços, centros comerciais.

Já se foram dois meses e meio e parecem anos. Praguejaram sobre os portugueses – “eles são isso e aquilo”. Que nada. A generalização é burra. E muito injusta. Há pessoas simpáticas e pessoas intragáveis aqui como há em qualquer canto deste vasto planeta. No contato do dia-a-dia, da faculdade e da cafeteria pude observar inúmeros tipos. A gente gosta mesmo é de se fazer vítima.

Tenho treinado a concentração. Os fatos externos devem me abalar cada vez menos. Minhas angústias alimentam-se de problemas originais e autênticos. Aliás, qualquer preceito deve-se partir da autenticidade... é essa a minha busca natural. De que vale o amor se não for amor, e apenas um simulacro?

Um amigo veio dizer que a sinceridade por vezes machuca. E questiono: é por isso que vamos abdicar dela? Nunca. Podemos, quem sabe, esperar o momento certo – e quando saberemos que o meu momento certo é o momento certo do outro? Teorias... na prática, as coisas são mais mundanas.

Eu quero sentir. Sem significar. Desejo me apaixonar a cada 15 minutos – e não somente pelas belas mulheres, mas por paisagens, idéiais, sonhos, emoções, caminhos, lugares, pessoas, vontades, comidas, motivos. E concretizar toda essa paixão, de modo que minha trajetória seja um rio que deflui macio e desagua no mar de serenidade.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Confusão

No meu peito reside uma confusão. São temas e lemas que não têm resposta. Às vezes me fogem, mesmo, as perguntas. O que quero saber? Por que quero saber?

Como dizia o poeta, o maior sofrimento do mundo é nunca ter sofrido. Ainda que haja frustração numa história, melhor vivê-la que omiti-la. Pena que nem sempre consigo essa espontaneidade de ousar, de tentar, de insistir. E logo eu, que escondo uma coragem audaciosa por trás de todo esse fingimento plácido.

A gente fica calejado com o tempo, e talvez esse seja nosso maior erro. O receio nos nivela. A culpa nos reduz. “Só os imbecis têm medo do ridículo”, escreveu Nelson Rodrigues – estou ausente das letras.

O sol voltou a brilhar lá fora, mas minha inspiração continua protegida da chuva. Escondida e taciturna, sem crer no presente. No meu peito reside uma confusão. Uma confusão que, de tempos em tempos, decide se apossar de mim.

sábado, 13 de dezembro de 2008

A crise mundial

Esta crise econômica, amigos, é o que ainda há de mais perturbador neste resto de ano. Sempre que falo dela, lembro do apelo triste de uma amiga.

“todos os dias os jornais noticiam demissões e mais demissões. como essa gente vai sobreviver? isso só irá causar mais violência, roubo, briga e desgraça. comecei a ficar com medo de fazer dívida. tudo anda muito instável. o meu receio é que o mundo entre em depressão econômica. se isso acontecer, teremos muito sofrimento pela frente.”

2008 já começou meio estranho mesmo, pelo menos para mim. Durante seu curso, houve vários altos e baixos. De qualquer modo, a pesar prós e contras, foi um ano esquisito. E como o tempo tem fugido cada vez mais depressa! (Ou é impressão minha?)

Abri meu e-mail e vi a notícia da demissão de 81 funcionários do Correio Braziliense, jornal de maior peso e circulação em Brasília. Da redação foram sacadas 11 pessoas. Não sei de quais postos ou quais funções desempenhavam.

Também li que outros dois diários da capital sofrem para pagar os salários em dia. O Jornal de Brasília só foi depositar os rendimentos ontem, dia 12. E daí, após três anos exclusivamente no mercado, escuto alguns discursos utópicos dentro da academia. Lógico que o espaço de debate é esse, mas me parece sempre um tanto longe da realidade – ou perto demais de um vício crítico, capenga e ranzinza.

Eu apenas procuro paixão nas coisas. Sou assim, um egoísta incorrigível.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

É bom!


É bom caminhar à noite sem rumo e em agradável companhia. Ainda mais vigiado pela lua cheia. O frio trava os músculos, os termômetros marcam 10ºC, a sensação é de menos – inclusive, sente-se o sangue gelado percorrer as veias.

É bom escutar as raparigas dizerem "bocadinho" em meio às suas conversas. Uma delícia auditiva. Observar como se vestem elegantes no inverno, e como são tímidas nos seus disfarces a um olhar contemplativo – fingem não ligar, tão mal atrizes quanto as da novela local.

É bom comer chocolate amargo e ouvir Chet Baker & Art Pepper em Resonant Emotions. Parece nos ensinar que os problemas são apenas acordes mal-tocados. Se a gente descobre uma forma de reordená-los, a confusão transforma-se numa bela melodia – às vezes a trilha sonora de uma época.

É bom receber um sorriso agradecido de um cliente. Mais que uma gorjeta polpuda, anima saber que a correria de um lado pro outro, o intuito de atender com eficiência e a pressão psicológica que desgasta podem ser reconhecidos com simpatia – a gente sorri pouco, com receio de parecermos tolos ou interesseiros.

É bom ler o e-mail da irmã, o recado no messenger da mãe, o comentário no blogue do pai. Mesmo que a vontade de abraçá-los seja enorme, sei que esse escasso contato à distância nos aproxima muito – quem sabe mais que se estivéssemos a alguns metros agora.

É bom voltar a cozinhar. Almoçar arroz e feijão com frango – e depois lavar a louça em água quente.

É bom ter meus livros de novo comigo. Até porque posso sublinhar trechos, dobrar cantos de páginas, fazer anotações – sem contar que as dedicatórias são memoráveis.

É bom planejar viagens para a próxima semana e para fevereiro. Ser perguntado para onde vou após o mestrado e dizer "não sei" – ou responder "Buenos Aires!", para surpresa do interlocutor.

É bom sentir. É bom se curar. É bom aprender. É bom se alongar logo cedo. É bom assistir futebol. É bom ajudar. É bom ser ajudado. É bom escrever.

É bom crer que amanhã será melhor que hoje.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

30 curtas

1. Saiba – e não esqueça antes dos 90 – que a sua vida é você e mais você.

2. Os riscos existem para trazer medo e desejo em cada passo que damos. Sem eles, as escolhas seriam meras formalidades.

3. As nossas maiores frustrações nascem de nossas maiores expectativas. Está aí: depositar nas coisas e pessoas anseios que elas não podem, não querem ou não conseguem suprir. Faça seu tempo, seu vento e sua trajetória. Não dependa, não espere. Também não se ofenda, nem se desespere.

4. Minha vida é uma maré cheia, que lambe a areia levemente e absorve toda a sujeira de volta pro mar.

5. A solidão é uma emboscada.

6. Viemos ao mundo e o deixamos exatamente do mesmo jeito.

7. Minha vida é um misto de passado e futuro. Nunca vivo o presente.

8. A alma é aquilo entre você e o outro.

9. O adeus é transcendental.

10. O peso que meu pensamento tem pro mundo, eu levarei pro túmulo.

11. Escrever é expelir palavras. A tarefa de organizá-las e dar um sentido é do leitor.

12. Antes o desvario dos sonhos à aridez da realidade.

13. A gente passa a ser sincero quando entende que a vida é uma só.

14. Ser fiel ao outro é, antes de tudo, uma fidelização ao próprio eu.

15. É por estarmos cercados de culpa que acabamos iguais.

16. Amar é eternizar a vida; é a morte.

17. A solidão é o maior dos ensinamentos. Se nos permitissem o isolamento, não haveria conflito e destruição; só arte.

18. Eu só quero ser sincero na minha tristeza. Porque a melancolia é muito mais heróica que a alegria – esta ninfa promíscua.

19. Uma vez estive triste e me repreenderam. A tristeza, esse sentimento pacífico, se transformou em raiva.

20. Mentira! A felicidade é inventada!

21. Encarar a adversidade de frente pode até não resolvê-la, mas com certeza a dissolve.

22. Há tantos males no mundo que sofrer com os próprios é encarado como sacrilégio.

23. “E eles viveram felizes para sempre.” O livro então acaba e morrem as personagens.

24. O sofrimento é a sorte de poder andar pelo caminho mais longo.

25. As convicções são de natureza efêmera.

26. Utilidade e futilidade estão separadas por uma letra.

27. Quanto mais penso no futuro, menos me vejo nele.

28. O amor é a bendita – e única – forma de imortalidade.

29. A derrocada do tempo ocorre quando dois corpos se entrelaçam de modo perfeito.

30. Só tem medo da morte quem teme a vida.

domingo, 7 de dezembro de 2008

... do futuro

Caminhava pelas ruas, debaixo da chuva titubeante, apressado sem saber porquê, com a visão retida a adiante, a ignorar vidas e mortes, sonhos e desalentos, que todos têm sorte, e também retêm sofrimentos, tentando entender em vez de existir, tomado por melindres, ausente de sentir... quando me bateu uma intensa saudade, como se um tapa metafísico explodisse em minha face. Um senhor murro. Era saudade do futuro.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Sobre Natal, Réveillon e poesia

Época de união e solidariedade. É assim quando nos aproximamos do 25 de dezembro. Me perguntam onde vou passar o Natal e respondo: “Juro que não sei”. Pode ser em qualquer lugar ou em lugar nenhum. Não é revolta pela data, rebeldia pela exploração do mercado. Ah, passei dessa fase – a gente se torna menos azedo ao longo dos anos.

A dúvida é porque nem pensei mesmo que em 2008 teria estas coisas. Desembarquei no Velho Mundo achando que um Novo Ano já havia inciado. Mas tempos depois ouvi as pessoas falarem de réveillons em Roma, Paris, Madrid, Londres, Vladivostok. E se viravam a mim para saber onde comemoraria a passagem. Err... Lisboa? Pode ser?

Por alguns minutos houve a possibilidade de confraternizar o Natal no Porto. Por alguns dias houve a possibilidade de festejar a virada em Sevilla. Porém vai ser por aqui mesmo, sem a perda do fator “novidade”. Tenho de viver a cidade em sua totalidade. Que venha 2009!

***

Andei distante da poesia. Não propriamente por desgaste ou asco. Já disse – e se não disse, digo agora – que os versos são minha religião. Ou melhor, minha fé. Hoje relia poemas que escrevi e me reconectei com “eus” anteriores. Aliás, que se escondem e reaparecem.

Em abril inaugurei um blogue de rabiscos poéticos, e a intenção era mantê-lo incógnito. Para uma ou outra pessoa eu indicava o endereço. Para os desconhecidos, o cartão de visitas era mais distribuído.

Ou seja, não o queria divulgar de boca cheia – mas também nunca rejeitei o filho. Hoje acordei com vontade de gritar poemas ao mundo e a força que me impele a dividi-los com todos é enorme: Inutensílio do Mundo. Não que sejam bons versos, mas são feitos com autenticidade.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Porto, a Londres lusitana


“Acho que houve um engano, senhor. Comprei o bilhete pro Porto e vim parar em Londres.” Mas ele respondeu em português e percebi que estava tudo okay – ou melhor, ôquei. Apesar da chuva fina, da neblina insistente e de todo o clima bucólico típico da capital inglesa, desembarcara mesmo no Porto. Para ser mais específico, na Praça da Batalha.

O local tem uma imponente estátua de Dom Pedro V e, ao redor, o Teatro Nacional São João e o abandonado Cine Águia. Os dois edifícios são parecidos: antigos e magistrais. A cidade está toda decorada para as festas de Natal, entretanto confesso que os pingos doces atrapalharam uma melhor contemplação.

Porto é simpático em sua enorme pequenez. Me pareceu uma minimetrópole – e foi isso mesmo que confirmou um carioca que conheci no metro. O botafoguense morou entre fevereiro de 2007 e deste ano na freguesia de Campanhã, próximo ao Estádio do Dragão. O escasso tempo e, mais uma vez, a intimidante chuva não me deixaram visitar a arena do FC Porto.

Fiz um bate-volta para levar os documentos de um amigo – Rui, ilustre visitante deste espaço – que solicita a equivalência do diploma de Medicina na Universidade do Porto. Em meio ao calhamaço de papéis, faltou o atual Programa de Pós-Graduações e Mestrados da UnB. Um detalhe que valeu a recusa do recebimento do pedido.

Essa burocracia vai se tornando parte do cotidiano. Ontem fui renovar meu visto de estudo/residência no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), mas também não pude. Devo voltar a 30 de dezembro com o contrato original de arrendamento do apartamento onde moro. “Só” tinha a cópia. Paciência. Melhor dançar conforme a música que ser expulso do baile.

Engraçado que a rápida viagem me deu uma saudade de Lisboa...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Esperas

Esperar. Está aí o princípio de muitas ofertas da vida. A gente tem de exercitar a paciência, seja num romance, na carreira ou na travessia da rua.

Mas vamos cutucar essa psicologia de botequim – ou de blogue mesmo. Qual é a linha que divide a serenidade do conformismo? Quando termina a parcimônia e inicia a acomodação? Existe barreira entre a paciência e a desolação (ou desilusão)?

“Quem espera sempre alcança”, ensina o provérbio. E, ao mesmo tempo, escutamos dizer que “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Oras, a qual deles seguir? A esperança é a última que morre ou é a primeira que mata?

Eu fico mesmo com o instinto, com essa voz interior, o saber da alma – mais sensato que qualquer ensimanento de fora. Afinal, os ditados são meras casualidades para tudo o que quisermos legitimar.

Ps.: Decidi escrever sobre o tema após assistir ao filme A Casa do Lago. Tem outra película que trata também da paciência no amor: Diário de uma Paixão, um dos preferidos de minha irmã. Na literatura, sou fascinado pelo mito da Odisséia, que conta a saga de Ulisses e Penélope.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A vida que me lambe o rosto

Como há coisas que nem Freud explica, vou me eximir de tentar. Apenas divagarei, devagar e sempre – que é o tempo do papel. De modo grosseiro, posso rotular de masoquismo essa perturbação que me aflige desde os... deixa eu ver... 16, 17 anos.

No entanto, como vocês são pessoas finas e estudadas, esqueçam a definição mal-ajambrada. Recorro a algo mais lúdico, literário, poético. Recorro a Rainer Maria Rilke:


“Sabemos pouco, mas que temos de nos ater à dificuldade é uma certeza que nunca nos abandonará; (...) que uma coisa seja difícil deverá ser mais uma razão para a fazer.”


Dito isso, tirem as mães de frente ao computador. Ou basta tirar a minha, que deve ser, aliás, a única mãe a ler este blogue (Ci, não te excluí). Troquei o conforto de casa, os mimos do lar, a tranqüilidade domiciliar, pelos apuros da rua. Coisa boa. Afinal, foi assim em 2005 – e superei, amadureci, sobrevivi. Não há modo mais autêntico de sentir a vida lamber-te o rosto.

Parece loucura, eu sei. Para os que se surpreendem com a minha coragem (por favor, não há nada de corajoso nisto!), digo que trocar a família pelas aventuras é um estímulo implacável. Meus pais me criaram para o mundo, e percebo o orgulho deles em me ver longe. Aperto? Saudades? Receios? Lógico. Porém morar em um quartinho, andar de autocarro e metro, equilibrar as contas do mercado, trabalhar oito horas a servir mesas, caminhar debaixo de chuva e voltar para casa ensopado e cansado à meia-noite... tudo isso fadiga, mas é real.

Não sei explicar o porquê, já falei. Nem Freud. Quando estive em Florianópolis também houve renúncias, complicações, desgastes (físico, mental e emocional), altos e baixos, momentos ruins. Situações que me ensinaram a continuar aprendendo. E com naturalidade e calma, se me permite o Fernando Pessoa. Às vezes me pego a rir sozinho das condições a que me submeto. Uma risada até um pouco macabra.

Só que as riquezas que a gente leva em nosso roteiro são as nossas histórias, e tento colecionar diversas com as quais me reconheça – e acalme uma alma inquieta por excelência. Há uma frase de juventude que nem sei quem é o autor, mas vire e mexe ressurge: “Busco o impossível, já que o possível pode esperar”.

Para fechar, mãe (sei que prosseguiste no texto), mostro uma passagem em vídeo do livro Mar Sem Fim, do Amyr Klink. Tem tempo que quero compartilhar estas palavras. Chegou o dia.