quinta-feira, 27 de novembro de 2008

"Você disse que morreria por mim"

Revirava sentimentos e redescobria textos quando deparei com algo que escrevi em junho deste ano, para o Dois em Xeque. As inquietações de agora, que eu tento me libertar pelas palavras – ou apenas as faço adormecer? – já foram contempladas por mim nessa época.

"Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver." (Alberto Caeiro)

***


A voz rouca de Lauryn Hill. O grito áspero da dor de um amor que não deu certo. Ex-Factor é o nome da música. Mas no início tudo ainda é desolação branda, um abatimento sereno: "It could all be so simple, but you'd rather make it hard" (Podia ser tudo simples, mas você prefere dificultar).

Sim, preferimos tornar mais complicado, transformar a relação em um jogo leviano e mesquinho – "a silly game". Amar se aprende amando, ensinou Drummond, só que parece que não temos tempo e vontade para colecionar esse tipo de conhecimento. Há coisas mais importantes, certo?

Por conta de dispêndios – e frustrações – materiais, familiares, profissionais, sociais... seja lá quais forem, desconta-se a expectativa de "redenção" na pessoa que escolhemos ter ao lado. "If I lack love, then I have nothing at all/I can give away everything I possess" (Se me falta amor, então não terei nada/Posso jogar fora tudo que possuo). É outra música dela. Chama Tell Him e fala do amor paciente, altruísta, crível, maduro. "Love is not boastful and love is not loud" (Amor não é orgulhoso nem barulhento).

Não sei a fórmula da união perfeita. E se descobrisse, desconfiaria de imediato. O perfeito nunca vai existir. Enquanto perdemos anos nessa busca, o que realmente importa vai embora despercebidamente: a autenticidade. O amor, e qualquer movimento que nos faz sair do lugar, precisa de autenticidade.

Volto a Lauryn. Ela suplica essa autenticidade nos versos finais de Ex-Factor. "Care for me, care for me/I know you care for me/There for me, there for me/Said you'd be there for me/Cry for me, cry for me/You said you'd die for me/Give to me, give to me/Why don't you live for me?" (Se importe comigo/Eu sei que você se importa/Lá por mim/Disse que sempre estaria lá por mim/Chore por mim/Você disse que morreria por mim/Dê pra mim/Por que você não vive por mim?)

A força com que enfatiza, roucamente, "You said you'd die for me" é de arrepiar. Acreditamos que morreremos pelo amor. Antes, porém, o matamos. Me faz lembrar Nelson Rodrigues e sua dramaticidade funesta: "Quem nunca desejou morrer com o ser amado nunca amou, nem sabe o que é amar".

Somos Romeus, eternamente atrás de nossa Julieta.

4 comentários:

jehoel disse...

Incauto, fui "atingido", valeu, amigo!

LAG disse...

falaí, guss...

falando em nelson e em amor, outra dele corrobora o pensamento: "Os nossos jovens, de ambos os sexos, esquecem antes de amar e sentem o tédio antes do desejo".

Bembi disse...

Fui atingida em cheio. Tão boba e tão romântica. Sempre tão disposta a morrer por algum amor. Ou talvez levando quase ao topo do andor que é de barro.
Enfim. Podia discorrer linhas e linhas. Mas não. Sigo pensando nisso e sentindo coisas.
Adorei o post.

Júlia disse...

Adoro muito essas duas músicas que você citou dela, e hoje ainda ouvi Ex-factor vindo trabalhar.