quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Obrigado, pai


Desculpe expor assim o que era para ser um agradecimento privado. A verdade é que o blogue tem me consumido. Consumido meus sonhos e os tornado num só: de um dia ter isto publicado em capa dura, ilustrada, com orelha, perfil e prefácio. Prefácio que talvez contenha as suas palavras.

Desculpe escancarar algo nosso, mas um e-mail seria insuficiente para dizer obrigado pelo presente antecipado de Natal. Até porque há outras dádivas, muitas outras, que nunca tive oportunidade real – e coragem visceral – de agradecer.

Como o gosto pelas letras. Herdei de ti a paixão por romances, poesia e jornalismo, além da aptidão pela escrita. Irônico que pouco soube desse seu enlace com a literatura e me surpreende cada citação, memória e conhecimento que apresentas. O que está diante dos nossos olhos normalmente é o mais difícil de se enxergar.

Meus amigos sempre tiveram liberdade contigo. Obrigado por esse espírito leve. Te sacaneavam e curtiam, como se fosse pai deles também. E eu me sentia orgulhoso, porém confuso, quando elogiavam a sua sabedoria. Acho que de tão parecidos, elaboramos uma distância entre nós.

Porém foi você quem me encaminhou a Nelson Rodrigues, lá nos meus 12, 13 anos. Talvez nem saiba disso, e eu mal compreendia àquela altura o impacto que o Anjo Pornográfico causaria na minha trajetória. Escrevi sobre o fato há alguns meses:

O primeiro livro do Nelson Rodrigues que tive nas mãos era uma coletânea de crônicas esportivas, chamado Fla-Flu: E as multidões despertaram. Esse livrão de capa preta, vermelha, verde e branca tem uma história bacana, do imaginário infantil. [...] cheguei a acreditar que o Fla-Flu era um exemplar único e exclusivamente meu, que eu dispunha de uma raridade na estante.

Ele estava no escritório do meu pai. Um dia o velho chegou com o presente, dizendo que tinha o encontrado entre umas petições. As fotos antigas e os recortes de jornal do início do século 20 davam um caráter pré-histórico àquelas páginas.


Sentei e folheei o livro como quem é apresentado a uma nova vida. Desde então, passei a guardar o tesouro, escondendo dos outros que o possuía, achando que Nelson o escrevera excepcionalmente para meu pai.

Lógico que depois a ficha caiu e a fantasia ruiu. Até hoje, só sei de uma pessoa que tem a obra e, de certo modo, ainda prefiro pensar como quando eu era criança.


Admiro muito essa admiração que as pessoas têm por ti, seja parente, amigo, colega ou aluno. És amado por onde passa pois não distingue ninguém e está sempre a cativar com uma piada, um causo contado, um sorriso. As manifestações são honestas justamente porque você transborda honestidade.

Obrigado por me ensinar a ser assim também: puro. Lembra quando a pediatra falou que eu era “todo engraçadinho” por conta das brincadeiras durante a consulta? Respondi que ela devia conhecer você, pai. Hoje, quase duas décadas depois, replico a mesma frase para qualquer qualidade que me adjetivem. Sou, várias vezes, espelho espelho seu.

Foi você que me fez um apaixonado por futebol, e ficava à beira do gramado a gritar o que eu devia e não devia fazer como jogador. Me enlouquecia. Mas era um companheiro de táticas, de técnica e de quando as coisas saíam do lugar. Nunca esqueci do jogo em que invadiu o campo para me proteger de uma briga que provoquei.

Ainda pequeno, eu e a Di íamos ao seu escritório passar a tarde, recordas? Era esquisito ver o homem de bigode sério, engravatado, compenetrado – diferente do pai brincalhão, que jogava bola e dava corda no mini-bugue. Lá, conhecíamos outro você. Peguei cacoetes e trejeitos seus – inclusive o da seriedade no trabalho –, e às vezes me deparo com eles, assustado pelas nossas semelhanças.

Peguei também o ímpeto de viajar. Quando resolvi sair de casa, aos 22, noivo e para uma cidade nova, desconhecia as suas objeções. Não sei nem se eram bem objeções, ou medo. No entanto, você sempre me apoiou, mesmo ressabiado. Vendi o carro que havia me dado e parti.

Assim que decidi retornar, fui acolhido na sua casa de braços abertos. E acolheu desde o princípio o meu intuito de sumir de novo no mundo, nesta aventura d’além mar. Sem você não estaria onde estou, cumprindo mais um desejo de minhas inquietudes.

Por isso quero agradecer muito além do presente antecipado de Natal. Muito além de todas as bolas, carrinhos, camisas de futebol, livros, passeios, jantares que me deu. O que recebi de ti ao longo da minha história, e ainda recebo – basta lerem os deliciosos comentários neste espaço –, são os (e)ternos ensinamentos para a vida.

Mais que tudo: obrigado, pai.

9 comentários:

Luciana disse...

Oba....... fui a primeira a comentar.
Que linda essa sua relação com o seu pai, bacana mesmo. Eu e o meu fomos bem distantes....mas enfim, hoje nos amamos e nos damos bem e por isso coloco aqui, mais um blog meu q tem tudo a vê com o q vc escreveu hoje para o seu pai:
www.meuverdadeiropai.blogspot.com
Lá, poderei compartilhar a minha historia, da mesma forma em que compartilhou asqui no blog a sua linda história.

Rui disse...

Assim você mata o velho.
Eu que me considero um novo amigo de infância do seu pai, sou testemunha desta figura ímpar que vocês, Adriana e tu, têm a sorte de ter como pai.
Tive a sorte de ter um pai com esta amabilidade e este humor piadista. Este ano meu pai teria feito 100 anos, era o sonho dele. Em sua homenagem escrevi o que vai a seguir:

C E N T E N Á R I O

Num dezessete qualquer nos deixou
Sonhando ainda viver o centenário
Comeu feliz como sempre apreciou
Agradeceu, sorriu e desencarnou.

Quanto tempo este fato aconteceu
Não tem nenhuma importância
Sua presença diária preenche meu eu
Seus olhos traquinas ele me deu.

No espelho a imagem que vejo
É a memória da minha infância
Tento manter o sorriso maroto
Mas o choro derrama teimoso.

Drica disse...

NOSSAAAAAAAA!!
Que lindo Gu!!! Pena que eu não tenha a eloquência das suas palavras, não saiba escrever tão brilhantemente quanto vc, mas pegando emprestado isso que tens, faço das suas palavras as minhas...
Nosso pai simplesmente é um símbolo de vida, de caráter, de sinceridade, de amabilidade, de profissionalismo, de pai...
Amoooooooo bem muito vcs, família!!!

jehoel disse...

Que nobreza de sentimento, Gustavo! És o maior, gajo! Uma Vénia!... :)

sandoval disse...

É difícil externar sentimentos, notadamente na forma escrita e após tantas recordações de uma só vez. Eu, particularmente, tenho dupla dificuldade, pois a verbal também se faz difícil. Sou mais de sentir – e muito -, razão pela qual busco suprir as minhas duas deficiências com pequenos gestos ou ações, visando com tal proceder demonstrar todo sentimento de carinho, respeito, amizade e amor que nutro pelas pessoas, indistintamente. É óbvio que as pessoas mais próximas são detentoras de sentimentos mais abrangentes, sinceros, dedicados, imensuráveis...

Quisera eu ter esse seu dom maravilhoso de saber externar, por meio da escrita, o que se passa no meu âmago, em especial o que sinto e desejo a você, Drica e sua mãe.

É bem verdade que você herdou de mim a paixão por romance, poesia e jornalismo, mais não a aptidão pela escrita, pois não a tenho. Simplesmente, engano. Como diziam na grande metrópole (óbvio que estou me referindo a Niquelândia), “Não tenho letra, mas tenho trêta”.

Como sou desprovido, dentre vários outros, desse dom da escrita – e agradeço a Deus por tê-lo transferido a você – vou resumir tudo numa única frase: te amo de montão, te admiro muito e tenho o maior orgulho de ser seu pai.

Não procure jamais imaginar ou mesmo mensurar a extensão da frase acima. Lembre-se sempre que o universo é inatingível, não têm fronteiras e que estarei sempre ao seu lado para o que der e vier, nos bons e maus momentos e sem quaisquer fronteiras ou barreiras.

Guga, te desculpo pelos excessivos e imerecidos elogios, mas não há o que se desculpar com relação ao que “que era para ser um agradecimento privado”, pois a beleza do texto – com alguns excessos e exceções – ensejou uma oportunidade impar para que eu, também, externasse o meu imenso amor, orgulho e admiração por você, ainda que de forma bastante diferente no manejo da escrita, dom que, repito, sou desprovido.

As exceções eu as coloco agora. Que foto é essa? Você elogiou na escrita e acabou comigo na exposição fotográfica. E mais: ficou com vergonha de falar nas outras obras literárias que te apresentei, tais como Ele e Ela, Playboy e Bocage?

Como última exceção, nunca mais me pergunte se recordo dos fatos pretéritos ocorridos com você e a Drica, pois jamais os esqueci ou esqueço, notadamente de suas “traquinagens”, como urinar numa garrafa plástica e jogar no carro da vizinha, estacionado na garagem; ou quando sua mãe foi lhe dar umas palmadas (o que ocorreu uma única vez na vida), e você, muito sacana e esperto, ajoelhou, uniu as mãos, olhou para o alto e exclamou: “oh, meu Deus, chegou a hora da minha surrinha.” E mais: “velho” é o seu pai...

Guga, foi muito gratificante saber que você se lembra de fatos ocorridos na sua infância, ainda que para muitos sejam considerados fatos de somenos ou pequenos, pois como escreveu Theodor Fontane, "O amor vive de amáveis pequenices."

Deus te abençoe. Continue sendo sempre essa pessoa maravilhosa, afável, culta, amiga... Nunca desista dos seus sonhos. Corra sempre atrás deles com muita determinação, humildade e bastante trabalho, pois como disse Albert Einstein, "O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário."

Beijos mil. Te amo de montão.

Sandoval disse...

Eu não sabia, ou melhor, desconhecia a veia poética do meu pediatra, Rui.

O velho é bom nas letras!

E também sacana. Veja você a mensagem que ele me enviou:

SOZINHO O HOMEM NÃO É NADA, NEM CORNO!

Bembi disse...

Que lindo Gus.
Eu smepre comentei contigo a simpatia que tinha pelos teus pais sem nunca tê-los conhecido. Isso se deve ao jeito como tu és. Uma pessoa como tu só podia ter vindo de um lar especial com pessoas tão especiais quanto. A pequena polegar Didi é a mesma coisa. Querida e sensível, educada e uma fofa. Você de tão educado chegava a se atrapalhar, lembra? O pedido de desculpa por não ter me dado oi, eu nunca esquecerei.

Lindo texto, que pai especial. Que filho de dar orgulho.

Dá-lhe, Seu Sandô!

Janaína disse...

Amei!
Como sempre me emociono com o que vc escreve...
Parabéns!
Bjoss

Drica disse...

Que linda Bembi (gostei do apelido)!!! Saiba que a recíproca dos elogios é a mesma, mas acrescentaria a ti um em especial: comédia de pessoa, me divirto muito! Saudades demais de vcs duas!!!
Pai, Gu, mama, amoooooooo demais vcs!!! Feliz por ter uma família tão linda e que me ensinaram valores humanos tão concretos e edificantes!
Bjsssssssss