terça-feira, 11 de novembro de 2008

Mais peripécias de um empregado de mesa

Domingo, fim de tarde: Um casal chega ao café e me prontifico a atender. Pergunto se precisam do menu. Ela insinua que não, pois já sabe sua escolha. É brasileira. Ele é português e franze a testa, pensativo. Com agilidade de um ninja, alcanço o cardápio na mesa ao lado e lhe entrego: “Pronto senhor, para eliminar qualquer dúvida”.

O homem, então, me solta a réplica: “Por que não entregaste a carta primeiro à senhorita? Os bons modos são esses”. Oras, ela não havia dito que tinha certeza do que queria?! Não foi ele quem hesitou no pedido?! Pois bem, quase enrolei o menu e ia elaborando uma rima. Também, quando decidiu pelo suco de laranja eu lhe disse que a fruta estava ácida. Só faltou completar: “Assim como o senhor. Agora, com licença” (olhando para ela, lógico).

Domingo, em torno de 21h30: Três garçons ociosos conversam besteira. Um rapaz no auge de sua afirmação pseudo-adulta solicita um capuccino e um mini-croissant de chocolate. O capuccino acompanha chantilly, mas o chantilly acabou. O colega pergunta se pode ser sem. Aí começa: ele não gosta da notícia, faz cara feia, revira-se na cadeira e opta pelo café. Vai à mesa o mini-croissant em pão-de-leite.

Falha nossa. Basta trocar. Simples, não? Ele o-deia o equívoco, faz nova cara feia, dá chilique na cadeira e enfatiza que pediu um mini-CROISSANT. Problema corrigido, lá vai o colega servi-lo, pela terceira vez. Vejo o cliente levantar-se subitamente, ir ao balcão, perguntar quanto deu a conta – no fim de tudo, foi só um café –, pagar e sair batendo o pé.

Descubro que o recheio do mini-croissant tinha de ser com pedaços de chocolate e não em pasta, tipo Nutella. Como diria uma amiga: «ema, ema, ema... cada um com suas neuroses».

Um apanhado socioeconômico: O Centro Comercial das Amoreiras é muito frequentado por gays e pela elite lisboeta. Por isso, é normal atender casais homossexuais e grã-finos. Minha tatuagem fica sempre escondida debaixo de uma manga comprida.

A abordagem é cerimoniosa. Raramente os clientes trocam uma conversa informal comigo. Não que sejam mal-educados, mas é que o clima, por si só, parece não permitir. Engraçado, né? Ainda assim, existem as comemoradas exceções. Como a da senhora, velhinha velhinha, que aguardava vagar uma mesa e puxou papo.

Em outra cena, um senhor com seus 60, 70 anos me perguntou o que eu fazia para “deixar” a barba escura. Bem-humorado, queria a fórmula para seus fios brancos desaparecem. Se espantou quando eu contei que tinha muitos cabelos alvos também. “Mas és tão jovem”, argumentou. “É genético”, respondi. Culpa da família Franco de Carvalho.

Entre uma simpatia e outra, consigo boas gorjetas. Um senhor me deixou 1,15€, a senhora sem mesa agradeceu a atenção com 1,10€, e de centavos em cêntimos o dinheiro vai enchendo a caixinha – o total é dividido, no fim do mês, entre os empregados. Mas o melhor extra foram “modestos” 0,60€ de uma elegante balzaquiana.

Ela ficou cerca de uma hora na cafeteria. Bebeu um chá verde com menta, comeu uma torrada de pão alentejano, leu sua Vogue e foi-se, levando as sacolas de compras. Ganhei a gorjeta, um charmoso sorriso e a convicção de que este emprego, meus caros, vai ser melhor que eu imaginava!

5 comentários:

Drica disse...

Que maravilha Gu!!!
Quando eu trabalhava na Marieta era a mesma coisa, engraçado isso né?!
Mas aprenda tudo aí, quem sabe não abrimos uma filial aqui?? kkkkkkkkkkkkkkkkkkk!!!
Bjssssssss

Anônimo disse...

Todo o potencial que este emprego tem em possibilidades a te ofecerer é algo imaginável apenas para poucos de uma casta seleta da humanidade. Se realmente " é a arte dos encontros" e amamos a cena não há duvidas que um café lisboeta (sao tantas piadas..)numa livraria tem a cena ideal para ótimos encontros.

A fase da afirmação pseudo-adulta é até normal e perdoável. Nossos avôs passaram, nosso pais e nós também. O problema é que a geração de hoje em dia é de emos. Mas ainda assim faz parte. Irrita, mas é engraçado eles sapateando.

Pior são os pesudo-intelectuais que habitam cafés. Detestáveis. Mais até que os citadores de Paulo Coelho.
Pseudo intelectuais que mascaram machismo com bom-modos. Se uma mulher brasileira disse que ja sabe o que quer não aproxime um cardápio dela. Apenas olhe para ela.

Por que será que os mais experientes são sempre os que melhor aproveitam um momento? Enquanto um pesudo-itelectual desfruta de 10 min num café folheando uma revista e sapateando, os veteranos desfrutam de 5 minutos na fila num bate papo proveitoso aos que sabem escutar.

Realmente um blog seguro de se indicar.

Castiel disse...

Quanto à balzaqueana, realmente, um sorriso de soslaio nem sempre vale só 0,60...

sandoval disse...

Se o que você ganhar for o suficiente e sobrar algum dinheirinho, não se esqueça do seu pai, que começou do nada e hoje está na miséria.

Estou com inveja, pois deve ser gratificante esse contato com pessoas de diferentes níveis de educação e cultura.

Como escreveu William James, "Quando duas pessoas se encontram há, na verdade, seis pessoas presentes: cada pessoa como se vê a si mesma, cada pessoa como a outra a vê e cada pessoa como realmente é."

Saudades... e beijos mil!

Rui disse...

Gustavo, você está começando aprender a arte de prestar serviços. Este "personagem" que prestará o atendimento será bem diferente de você próprio. Diminuirá o nível intelectual, para poder conversar com todos, não reagirá aos insultos, meio "sangue de barata", estará sempre com sorriso nos lábios, mesmo de conta bancária baixa.
É um pouco da vida de palhaço, nunca deixará de fazer sorrir, mesmo chorando por dentro.
Não é diferente de ser pediatra.