terça-feira, 18 de novembro de 2008

Já fui mais alegre

Já fui mais alegre. Hoje, sorrio menos. A maioria das vezes sozinho, lembrando do passado. Sorrir faz bem, dizem. Assim como ser leve. Coisa que foge um pouco ao meu jeito. Sou crítico e perfeccionista, e me cobro muito por isso. Organizado ao extremo – no plano externo. Porque aqui dentro é uma bagunça. Tanto de sentimentos quanto de pensamentos. Amo esportes. Vibro e me emociono com eles. Em Copa do Mundo, Olimpíada e Pan-Americano a empolgação é maior.

Tenho medo da morte. Sou cético e isso me machuca. Não acredito em nada, só no nada. E procuro sentido, para não fazer da minha vida um vazio. Mais que da morte, tenho medo do vazio da vida. Quero fazer tudo ao mesmo tempo e minha ansiedade e impaciência atuam contra mim. E me ajudam a ser desajeitado nas relações sociais. Sou reservado e ruim com as palavras faladas. Escondo isso. Me considero bom nas palavras escritas. Só que em vez de abrir, acaba por me fechar portas.

Adoro pipoca e chá mate gelado. Tem pouca coisa que odeio comer. Experimento de tudo, para ter condição de dizer se aprovo ou não. E mesmo rodeado de pessoas, às vezes me sinto sozinho e desamparado. Reflexo da atualidade. Meus medos giram em torno da palavra errar – outro reflexo da atualidade. Já disse: sou crítico e perfeccionista. Odeio ser chamado a atenção, fazer papel de otário, magoar as pessoas. Há situações em que minto pelo bem dos outros. Devia pensar mais em mim. Mas me acho egoísta por pensar assim. Devia mesmo pensar mais em mim.

Sou fanático por futebol. Vejo, nesse jogo de regras simples, muitas explicações para nossos dramas e tragédias reais. Pena que tudo se tornou mais negócio e menos brincadeira. Quando criança, tinha temor que o futebol acabasse, que as pessoas parassem de jogá-lo – ou que os homens fossem trocados por robôs. Também não gostava de pizza e de queijo. Sou um sujeito muito mais fechado hoje que aos 8 anos de idade. Acho que meus problemas não devem aborrecer os outros. Mas absorvo os problemas dos outros. Ouço música para me acalmar e para me agitar. Tomo banho à meia-luz quando quero clarear as idéias. E dá certo. Demoro a pegar no sono. Acordo cedo e disposto. Vejo pouca TV – não tenho paciência.

Acho que nasci na época errada, e se tivesse em outra época, acharia a mesma coisa. Queria ser jogador de futebol e sou jornalista. Quando faço esporte, esqueço do mundo. Tenho vontade de sumir. Mas quem não tem? E também tenho vontade de ter filhos e criá-los como o melhor pai possível. Receio falhar, é verdade. Bebo para me ajudar a ser espontâneo. Também não acho isso legal. Dirigir me tranqüiliza, assim como lavar louça e caminhar. Gosto do mar. Sou desprendido de bens materiais e choro com filmes e ao ver outra pessoa chorar.

Não entendo a intolerância e o preconceito e acho que as pessoas perdem muito tempo com preocupações mesquinhas. Também não entendo como existe tanta gente com a mente fechada. Procuro sempre compreender o outro lado. E é um exercício difícil, mas necessário. Adoro canjica e isso lembra a minha madrinha. Cural e biscoito de queijo também. Amo meus pais e minha irmã, embora fale isso tão pouco a eles – e deveria falar mais. Às vezes fico confuso com a dimensão do meu pensamento, e nem consigo explicá-lo. Apenas sei, sem saber o que sei e como sei. É doloroso conviver com ele. Machuca, acelera os batimentos e chega a pirar.

Tenho saudades de várias coisas – inclusive do futuro. Acho que sou velho e vivi pouco. Me cobro mais sabedoria. Me cobro menos entendimento. Gosto do número 13 e de ler Fernando Pessoa e Nelson Rodrigues. De comer com colher e beber em caneca. Queria saber o motivo de estarmos aqui. Parece meio vago. Certa vez, disseram: o que importa é a presença. As histórias também. Quando vejo uma criança, sorrio. Fui aprendendo a ser calmo e natural com o tempo. No entanto, já fui mais alegre.

[Texto de junho de 2007]

8 comentários:

Anônimo disse...

maionese

Se aí o inverno está começando aqui o sol apareceu. Os habitantes da ilha voltam a jogar tênis, futebol, surfar, ir à praia, beber no boteco enquanto comem iscas de peixe. Não sei se vou suportar.

Morra de inveja

Anônimo disse...

hehheheheheh eu aqui matando os dias e saciando meu mais novo vício.

Uma ótima terça-feira.

Joice Mendes
Coronel Fabriciano,MG

Bembi disse...

Que orgulho do meu guri!
Textos tão elegantes, coisas tão lindas.
Lindas daquelas que dão até vontade da gente acordar e viver.
Saudades de ti que nem cabem.
Um beijo meu e outro da Boo

Marília disse...

Confesso não ter ainda prestigiado teu espaço.. Vejo que apesar da até convivência, pouco eu sabia de ti. Me arrepiei e me emocionei ao te ler assim, despido, pela primeira vez. E me enxerguei em tantas coisas que conseguiste expressar nas belas palavras desse texto. Parabéns! Aproveita aí. Quando descobrires alguma das respostas pra tantas inquietaçoes, divide comigo... e te lembro do gaúcho Mário Quintana, que acho que tão bem expressou, de outra maneira, já ter sido mais alegre:~
"Da primeira vez em que me assassinaram, perdi um jeito de sorrir que eu tinha; Depois, de cada vez que me mataram, foram levando qualquer coisa minha.."
bjocas

Rui disse...

Não tente acalmar sua inquietude, esta é a força maior que nos movimenta. Sua exposição visceral que me desinibiu em mostrar minhas produções caseiras. Vai aí mais uma, não por outro motivo, inquietude, é autobiográfica.

Autobiografia

A simples inquietude
fez o magricela se mexer
e decidir tomar atitude

O medo fez do frangote
de poucos músculos e muita fantasia
enfrentar o mundo como coiote

De madrugada comia literatura
de dia sonhava acordado
pensando na formatura

Na vida esteve presente
de luta nunca fugiu
encarando tudo de frente

Os filhos vieram a furo
criou cabelos brancos
pensando lá no futuro

Viver com este caboclo
ouvir seus sonhos diários
deixa qualquer um louco

Luciana disse...

Obrigada Gustavo. Obrigada por escrever textos tão lindos e que encorajam sempre.
Você tem a alma leve e pura e apear de só nos conhecermos pela net e pelosnossos blogs, você tem o dom de fazer qualquer um refletir sobre diversos assuntos.
Os seus textos me fazem bem, transmitem o bem, a paz, o calor humano.
É como se fossem um abraço. Mais gostosos até do que comer chocolate quando se esta de regime.
Adoro lê o que escreve e como escreve e já te falei isso mas sempre que o momento permitir eu falarei.
Na parte em que diz que chora quando vê alguém chorando....sou prova viva disso.
Sem comentários esse texto.
Obrigada,mais uma vez obrigada, afinal ele me deu inspiração pra escrever um também e colocar de forma real o que estou sentindo.

Hugo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Hugo disse...

Ola ilustrissimo amigo kandango,que não és só um,és tantos.Tantos quanto nos seus escritos.
Suas palavras nao formam apenas textos.Fazem espelhos,que por vezes reflete nossa alma com mais semelhança que a imaginamos.
Interessante,mesmo com poucos numeros,a idade fica muito maior apos um tempo fora de casa.O tempo passa rapido.
Nessa fase,a felicidade é como um cubo de gelo em nossas mãos.Está ali perto,mas quanto mais a agarramos mas ela escorre...por entre os dedos.
Espero nos revermos logo,e faze um encontro de velhos amigos velhos.
Um abração pra ti!!!