sábado, 22 de novembro de 2008

A humanidade em Douradores

Às vezes há tanto para se dizer, que não cabe em um texto – muito menos na minha cabeça. Mas fica maçante se virar um relatório e a determinação é poupar os leitores. Vou tentar ser objetivo sem ser superficial. A experiência jornalística há de contribuir nessa tarefa.

Já escrevi a umas páginas atrás sobre as aulas das sextas-feiras. São as melhores, as mais instigantes, provocativas. O nome oficial da cadeira não lembro, porém pouco importa. Procurem pelo nome do professor e verão que o gajo é valorizado: Adriano Duarte Rodrigues.

Pois estou a desviar do foco. Mencionei a aula de sexta para dizer que normalmente depois dela, ainda com o cérebro a mil, vamos ao Chapitô – uma escola circense-bar-restaurante. O lugar é fenomenal, com uma vista magnífica para o Tejo e para a Praça do Comércio. Aliás, a iluminação de Natal enfeita Lisboa de modo singelo e divino.

Assisti ao meu primeiro fado. Um espetáculo lindo. Durante as canções, todos param e escutam com respeito. É falta de educação conversar ou transitar em frente aos músicos.

Antes disso, por acaso, estive na famosa Rua dos Douradores, no Chiado, sítio que ficou marcado em muitos fragmentos de Fernando Pessoa em O Livro do Desassossego. Me deparei com uma placa bem grande "Antiga Casa Pessoa".

Vejo-me no quarto andar alto da Rua dos Douradores, assisto-me com sono; olho, sobre o papel meio escrito, a vida vã sem beleza e o cigarro barato que a expender estendo sobre o mata-borrão velho. Aqui eu, neste quarto andar, a interpelar a vida!, a dizer o que as almas sentem!, a fazer prosa como os gênios e os célebres! Aqui, eu, assim!...

E, se o escritório da Rua dos Douradores representa para mim a vida, este meu segundo andar, onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte. Sim, a Arte, que mora na mesma rua que a Vida, porém num lugar diferente, a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver, que é tão monótona como a mesma vida, mas só em lugar diferente. Sim, esta Rua dos Douradores compreende para mim todo o sentido das coisas, a solução de todos os enigmas, salvo o existirem enigmas, que é o que não pode ter solução.

Quantos Césares fui, aqui mesmo, na Rua dos Douradores. E os Césares que fui vivem ainda na minha imaginação; mas os Césares que foram estão mortos, e a Rua dos Douradores, isto é, a Realidade, não os pode conhecer.

Serei sempre da Rua dos Douradores, como a humanidade inteira.

(Tinha mais coisas para lhes passar e as passagens relidas do poeta português inebriaram minha mente. Deixa para outro dia. Temos tempo.)

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