segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Dois marroquinos

“Dois marroquinos”. Foi esse o meu primeiro pedido atendido no café. Dois marroquinos? Olhei para os lados e vi portugueses, moçambicanos, angolanos, caboverdianos e brasileiros. Sei que há muitos indianos e chineses por aqui também – uma recente pesquisa apontou que apenas 15 países integrantes da ONU, dos 192, não têm cidadão em Portugal –, mas nada de marroquino por perto.

Logo pensei que a dona trabalhasse pro mercado de tráfico internacional. Ah, sabia! O salário estava bom demais para dois dias de trabalho como empregado de mesa. Os imigrantes devem estar presos num galpão no subsolo do shopping, a condições precárias.

Ainda assim, encaminhei o pedido ao balcão. É meu dever. Cogitei acionar os Direitos Humanos, a Unicef, o Capitão Planeta... mas o melhor mesmo é não questionar. O casal queria dois marroquinos? Levaria aos dois “saidinhos” o que haviam solicitado: uma camada de chocolate quente, café e cobertura de chantilly. Eis o marroquino.

A mão tremeu um pouco e outros pedidos vieram. Às vezes um sobre o outro, bagunçando o número da mesa que o fez e o que era. Pior são algumas especiarias típicas daqui e, de certo modo, inexistentes no (meu) Brasil. Queijada já ouvi falar, mas confesso que só ouvi. Agora queque... foi novidade total.

Um senhor irritou-se comigo. Foi no domingo, segundo dia da saga. Já estava mais tarimbado e me virei bem quando o café encheu e estive sozinho como garçom. Porém o tal cavalheiro, acompanhado da Sra. Cara de Poucos Amigos, pediu um batido de chá de frutos não-sei-o-que-lá com baunilha. É lá algo que se peça, ora pois?

Fiz que compreendi e pedi ajuda aos colegas. Omiti o “batido”, por não tê-lo entendido da primeira vez. A expressão deles foi de igual surpresa e dúvida. Voltei à mesa 6, pedi desculpas e disse que eram tantos pedidos que havia me esquecido. O caro senhor levantou-se e foi me mostrar que tratava-se de gelados (sorvetes). Pronto.

As duas bolas foram servidas. Só que péra lá, ainda não era isso! O sujeito mais uma vez pôs-se de pé, caminhou taciturno até o balcão e esbravejou para a gerente que havia pedido um “batido” e eu não sabia o que é um “batido” (sim sim, um milk-shake; agora é fácil).

Eu devia era ter batido nele!

– Tá aqui, ó... POW! SOC! UFF! PLOFT! PUM!

Mas atender público é assim mesmo. É preciso exercitar a paciência e a auto-estima. Por isso, a única moral que deixo neste espaço tem a ver com respeito e boas maneiras: use e abuse. A gente dá menos importância que deveria. Eu tenho a consciência leve – e, modéstia parte, colecionei umas gorjetas por investir nesses princípios.

***

Outras histórias virão com o tempo. No fim de semana inaugural já foram muitas. A que conto agora não tem a ver com o novo emprego. Estava no metro, domingo, e mãe e filha brasileiras conversavam animadamente.

Dava para ver que a mãe tinha vindo visitar a cria. E a gaja contava causos e percalços da vida lisboeta. Falava sobre os amigos que fez, o local onde mora, as festas que foi. Senti um aperto no peito e tive vontade de lágrimas de saudades pela primeira vez no Velho Mundo.

Estar longe de quem amamos é difícil sempre, mas principalmente quando queremos dividir as descobertas. Então sentimos que a distância é a forma mais nostálgica – e dura – do gostar.

3 comentários:

sandoval disse...

Já tá ganhando gorjetas? então o atendimento não foi tão ruim...

Ou será que os Portugueses dão gorjetas nos bons e maus serviços?

Beijos mil

Luciana disse...

Como já dizia um poema meu:
que a distancia seja brebe e o momento curto. Chorar sim, mas não choro de luto. Choro de satisfação, de dever cumprido......
Essa é a verdadeira arte da vida.
Abraços bem brasileiros.

Drica disse...

Gu!!!!!
Amamos demais!!! Estou super feliz pela conquista!!
Ei, mande por favor algumas dicas de café pro café do Rudy, hehehe, pra colocarmos no cardápio, que tal??
Mande por email...
bjssssssss