quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Crônica de um emprego perdido

Se fosse eu inglês, nascido e criado em Camden Town, este texto não existiria. Se estivesse no Brasil, trabalhando em Floripa ou em Brasília, este texto tampouco teria vida. Mas estou em Lisboa e sou um gajo tupinambá à desenfreada procura de trabalho.

Se não fosse por isso, teria facilmente levantado do recrutamento da Starbucks, pedido mil desculpas e me dirigido à segunda entrevista do dia. Se não fosse isso, antes de tudo, não teria concordado em marcar dois encontros com somente uma hora de diferença entre um e outro. Deu no que deu: esta crônica.

É nessas horas de aperto que um ditado popular sempre vem à nossa mente. Muitas vezes mais de um. Lembrei de “o apressado come cru” e “mais vale um pássaro na mão que dois voando”. Pois bem, a agenda da manhã começou às 11h30.

Em meia hora tudo estaria decidido na Starbucks. Isso que pensei. Tempo ideal para pegar o metro na Baixa-Chiado, trocar a linha Azul pela Amarela em Marquês de Pombal, descer no Campo Pequeno, caminhar alguns quarteirões e, pronto, chegar à Chilli Beans. Porém, devia ter contado esse meu itinerário a um dos participantes da dinâmica de grupo.

Aos 42 anos, formado em Artes Cênicas, Paulo tinha a preocupação imensa de ser excluído do processo seletivo por conta da idade. Sem exagerar: ele fez 2.342 indagações sobre o tema e explicou 5.589 vezes o motivo das perguntas. Além do que, tudo era razão para um comentário, uma pausa, um adendo. E eu lá, quase para esganar o protagonista da tragicomédia. Resumo do ato: saí do local às 12h30. Correndo.

Primeira coisa foi ligar para o entrevistador da Chilli Beans, senhor Vasco Nunes. Com esse nome também... bem, esquece. Avisei que atrasaria. Ele perguntou quanto. Disse que chegava em breve. Ele quis exatidão. Repliquei 15 minutos, mesmo sabendo que o prazo era impossível. Nem se tudo andasse bem eu conseguiria.

E não andou. Peguei o metro. Errado. Troquei de vagão. Voltei para onde tinha partido. Aguardei um bocado pelo próximo. Saltei em Marquês. Corri até a linha Amarela. Mais uns cinco eternos minutos de espera. Entro. Passa a estação de Picoas, de Saldanha, eis o Campo Pequeno! O relógio já perto das 13h.

Saí do subterrâneo, olhei para um lado, para o outro e... estava perdido. Havia deixado o mapa em casa e, por mais que lembrasse o nome da ruela (ninguém saberia informar), não tinha idéia para que lado caminhar. Atravessei a rua, decidi seguir em frente. Dei meia-volta, resolvi arriscar para a esquerda. Liguei para o Vasco:

− Peço mil desculpas ao senhor, mas errei a linha do metro e agora estou completamente perdido. Tenho muito interesse na vaga e queria saber se ainda há tempo da entrevista. Aliás, o senhor já almoçou?

− Sim, já almocei. Não há mais o que fazer. Façamos assim: ligo-te outro dia para remarcarmos. Com licença. Adeus.

Duvido que vá ligar. Retornei desolado, a passos curtos e cansado de tanta pressa. Quase pedi uma injeção letal a uma das três estudantes de Medicina que sentaram próximo a mim, no metro. Não, elas eram bonitas demais. Preferi a contemplação. Quem não tem óculos escuro...

2 comentários:

Raquel disse...

Aprenda bem a andar de metrô, hein? Estarei aí um único dia (10 de janeiro). Quem sabe nos conhecemos pessoalmente? Mas vc vai ter que saber chegar, hehehehehe. Ou me ensinar :)
Outro beijo

Sandoval disse...

Você deveria ter comentado com as estudantes de medicina que havia corrido muito e estava sentindo falta de ar. Em seguida, fingir que estava desmaiando. Quem sabe não sairia uma respiração boca a boca, hem?

Quem não tem óculos escuro, com certeza disfarça o olhar.