sábado, 29 de novembro de 2008

Até já...


Foi numa noite de maio, creio eu, que mandei mensagens de celular para o Matheus e o Paulista. Tinha sido arrebatado pelo sentimento de morar em Floripa de vez, assim que voltasse ao Brasil. Nem havia saído do país tropical, mas sabia que a vinda a Portugal ia se concretizar. Estipulava, com eles, que em cinco anos a gente se encontrava na Ilha da Magia.

Essa vontade permanece. Às vezes forte, às vezes a afogo em racionalidades profissionais. Do tipo: o mercado de Santa Catarina paga mal, existe pouca valorização interna e externa e o potencial de crescimento é pequeno. E daí? – penso na contramão de tudo isso. E daí, se o que importa, mesmo, é a paixão... e sou apaixonado pela cidade.

Costumam me perguntar o que vou fazer quando acabar o mestrado. Lembram-se do: “o que você vai ser quando crescer?” ou “qual curso vai escolher no vestibular?”. Pois bem, a resposta é tão incógnita para a interpelação atual quanto foi para as questões pretéritas. E temos de saber alguma coisa? Tenho certeza que não.

Planos eu tenho. E comecei a escrever este texto para dizer que, ontem, a sensação de que vou para Floripa após minha temporada européia veio com toda a força. Eu e a capital catarinense nos entendemos. Tem muita história em torno de suas praias, ensolaradas ou sob um vento frio apaziguador, cheias ou desertas, aos fins de semana ou em plena segunda-feira.

Minhas lembranças vagam pelos breus da alma por ser aniversário de um querido amigo (já citado aqui: Matheus). Temos um acordo. E meu melhor modo de desejar felicidades e parabéns, é dizer-lhe que pretendo cumpri-lo. Até já...

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Efeito dominó

Todo dia de aula (e são três vezes por semana), passo pelo Estádio do Alvalade, casa do Sporting. Na quarta-feira o clima era de luto nas redondezas. Encontrei com vários torcedores do time português no metro. O «verde e branco» saía de uma humilhação diante do Barcelona: 5 a 2.

O mesmo placar do recente triunfo brasileiro sobre Portugal. Cristiano Ronaldo, aliás, é venerado na terra de Cabral. Estampa várias campanhas publicitárias – contra apenas uma do mito Eusébio. O médio-avançado do Manchester United é ainda mais deus na Ilha da Madeira, onde nasceu.

Pois os Tugas levaram de cinco do Brasil, o Sporting tomou cinco do Barça e só faltava o Benfica. Passado condicional. Ontem, em Atenas, o clube mais popular de Lisboa foi arrasado pelo Olympiakos: 5 a 1. A capa do diário A Bola já diz tudo...

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

"Você disse que morreria por mim"

Revirava sentimentos e redescobria textos quando deparei com algo que escrevi em junho deste ano, para o Dois em Xeque. As inquietações de agora, que eu tento me libertar pelas palavras – ou apenas as faço adormecer? – já foram contempladas por mim nessa época.

"Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver." (Alberto Caeiro)

***


A voz rouca de Lauryn Hill. O grito áspero da dor de um amor que não deu certo. Ex-Factor é o nome da música. Mas no início tudo ainda é desolação branda, um abatimento sereno: "It could all be so simple, but you'd rather make it hard" (Podia ser tudo simples, mas você prefere dificultar).

Sim, preferimos tornar mais complicado, transformar a relação em um jogo leviano e mesquinho – "a silly game". Amar se aprende amando, ensinou Drummond, só que parece que não temos tempo e vontade para colecionar esse tipo de conhecimento. Há coisas mais importantes, certo?

Por conta de dispêndios – e frustrações – materiais, familiares, profissionais, sociais... seja lá quais forem, desconta-se a expectativa de "redenção" na pessoa que escolhemos ter ao lado. "If I lack love, then I have nothing at all/I can give away everything I possess" (Se me falta amor, então não terei nada/Posso jogar fora tudo que possuo). É outra música dela. Chama Tell Him e fala do amor paciente, altruísta, crível, maduro. "Love is not boastful and love is not loud" (Amor não é orgulhoso nem barulhento).

Não sei a fórmula da união perfeita. E se descobrisse, desconfiaria de imediato. O perfeito nunca vai existir. Enquanto perdemos anos nessa busca, o que realmente importa vai embora despercebidamente: a autenticidade. O amor, e qualquer movimento que nos faz sair do lugar, precisa de autenticidade.

Volto a Lauryn. Ela suplica essa autenticidade nos versos finais de Ex-Factor. "Care for me, care for me/I know you care for me/There for me, there for me/Said you'd be there for me/Cry for me, cry for me/You said you'd die for me/Give to me, give to me/Why don't you live for me?" (Se importe comigo/Eu sei que você se importa/Lá por mim/Disse que sempre estaria lá por mim/Chore por mim/Você disse que morreria por mim/Dê pra mim/Por que você não vive por mim?)

A força com que enfatiza, roucamente, "You said you'd die for me" é de arrepiar. Acreditamos que morreremos pelo amor. Antes, porém, o matamos. Me faz lembrar Nelson Rodrigues e sua dramaticidade funesta: "Quem nunca desejou morrer com o ser amado nunca amou, nem sabe o que é amar".

Somos Romeus, eternamente atrás de nossa Julieta.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Deixe-me viver


O dia se arrasta, lânguido e pernicioso. Tem mais que 24 horas. Horas que teimam em não passar. Mas ao fim, parece que foi outro que as viveu. Me sinto como se estivesse fora do meu corpo, a observar tudo que faço.

Não é uma experiência transcendental, algo do além. Nada disso. O automatismo que me puxa pelo pé é diferente – ajo mecanicamente sem agir, sou o mesmo sem o ser. Talvez a falta de trabalho produza essas memórias oníricas. A falta de me sentir útil, a falta de um lar, a falta de um romance... carências que se misturam a outras carências.

Queria lapidar frases que me explicassem, e só alcanço a inconclusão.

Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza. (Gabriel García Márquez)

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Pátria que me pariu


A temporada em Portugal tem me ensinado muito sobre o Brasil. Não é por conta da ligação afetiva, das raízes históricas e esse blá-blá-blá todo que a gente fala e escuta – e nem precisa pisar cá para compreender.

O que Portugal ensina é o que eu poderia encontrar aí mesmo em território tupinambá, seja no Enecom (Encontro Nacional dos Estudantes da Comunicação), no carnaval de Salvador ou em Copacabana: a diversidade de conterrâneos. Já conheci gente de tudo quanto é canto do país, de Fortaleza a Porto Alegre (versão diminuta do Oiapoque ao Chuí).

Para começar, o casal que me “adotou” – Daniel e Soraya – é pernambucano. No mesmo apartamento, moram a gaúcha Juliana e a mineira Camila. O quarteto arrematou as amizades do Duda, fiel representante de Curitiba, e do Vitor, natural de Piracicaba.

Ainda do interior paulista, há outra Juliana, de Ribeirão Preto. A Rebeca, colega de curso e de casa, veio do sítio mais “próximo” daqui: Fortaleza. O Ismael, brasileiro que também divide a moradia, nasceu em Governador Valadares, cresceu em Vitória e estava em Brasília. Já a Luzia deixou o sufocante calor de Cuiabá pelo clima aprazível de Lisboa.

A Thaís e o Rafael, ambos cariocas, eu conheci rápido – em entrevistas de emprego. O Marcelo, terceiro mineiro da parada, assiste à aula de sexta. Atendi a uns brasileiros no café – famílias, casais, solitários viajantes –, e todos eles, posso afirmar, vinham de lugares distintos.

Bom saber que meu objetivo de absorver ao máximo o ambiente cultural português e europeu ganha uma nova e instigante dimensão. Milhares de quilômetros longe do Brasil, aprendo mais sobre a pátria que me pariu.

***

O que tem de chinês aqui não está no gibi. E de indiano também. Às vezes, parece que quem fala português é minoria.

domingo, 23 de novembro de 2008

Ímã de garotas (ou íman de raparigas)

Se tem um dom que não se aprende na escola, que não está nas cartilhas, que não se ensina no Telecurso 2000, esse dom é o da atração. E podem as mulheres se pintarem, os homens malharem, que não há – tudo é placebo, pílula de farinha.

Vou apelar a como os franceses descrevem: je ne sais quois (um não sei o quê). Desculpe lá – agora como dizem os portugueses –, mas notei que possuo esse poder. E foi num simples intervalo de trabalho, enquanto observava despretensioso o vaivém de pessoas no shopping.

Ganhei um tchauzinho e um sorriso. Assim, só na troca de olhar. Sou mesmo um íma de garotas! Garotas que ainda usam fraldas. Porque os “cortejos” femininos foram enviados por pequenas coisinhas que não atingem os três anos de idade.

Esse é o meu genessequá. Gero um fascínio indecifrável nas crianças. Até hoje não sei se é por conta da minha cara de bobo ou de guri. As meninas fixaram os olhinhos em mim e chega fiquei sem graça – os pais as chamavam e nada. Umas lindas.

A que me deu tchau parece ter começado a andar há pouco tempo. Ia aos tropicões pelo caminho. Da outra, recebi uma risada gostosa. Sem que eu sorrisse antes. Foi assim de graça, espontânea e verdadeira.

Essas situações já fazem valer o meu dia.

***

Nunca escondi que o mestrado em Jornalismo é pretexto para eu estar em Portugal. Mas acho que essa “doutrina” tem indo longe demais. De algum modo, a cúpula da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Nova descobriu tudo e resolveu boicotar minha turma.

Nesta semana, tivemos apenas uma aula. Na quarta, a professora Cristina Ponte foi roubada – no próprio campus! – e cancelou o seminário. Na quinta, a professora Graça Simões alegou um contratempo profissional e dispensou os alunos. Só mesmo o professor Adriano Duarte é que assumiu a (contra)postura de lecionar.

Tudo bem que sempre defendi a “doutrina” com veemência xiita, porém não imaginei que fosse ter represália da universidade. Que coisa!

sábado, 22 de novembro de 2008

A humanidade em Douradores

Às vezes há tanto para se dizer, que não cabe em um texto – muito menos na minha cabeça. Mas fica maçante se virar um relatório e a determinação é poupar os leitores. Vou tentar ser objetivo sem ser superficial. A experiência jornalística há de contribuir nessa tarefa.

Já escrevi a umas páginas atrás sobre as aulas das sextas-feiras. São as melhores, as mais instigantes, provocativas. O nome oficial da cadeira não lembro, porém pouco importa. Procurem pelo nome do professor e verão que o gajo é valorizado: Adriano Duarte Rodrigues.

Pois estou a desviar do foco. Mencionei a aula de sexta para dizer que normalmente depois dela, ainda com o cérebro a mil, vamos ao Chapitô – uma escola circense-bar-restaurante. O lugar é fenomenal, com uma vista magnífica para o Tejo e para a Praça do Comércio. Aliás, a iluminação de Natal enfeita Lisboa de modo singelo e divino.

Assisti ao meu primeiro fado. Um espetáculo lindo. Durante as canções, todos param e escutam com respeito. É falta de educação conversar ou transitar em frente aos músicos.

Antes disso, por acaso, estive na famosa Rua dos Douradores, no Chiado, sítio que ficou marcado em muitos fragmentos de Fernando Pessoa em O Livro do Desassossego. Me deparei com uma placa bem grande "Antiga Casa Pessoa".

Vejo-me no quarto andar alto da Rua dos Douradores, assisto-me com sono; olho, sobre o papel meio escrito, a vida vã sem beleza e o cigarro barato que a expender estendo sobre o mata-borrão velho. Aqui eu, neste quarto andar, a interpelar a vida!, a dizer o que as almas sentem!, a fazer prosa como os gênios e os célebres! Aqui, eu, assim!...

E, se o escritório da Rua dos Douradores representa para mim a vida, este meu segundo andar, onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte. Sim, a Arte, que mora na mesma rua que a Vida, porém num lugar diferente, a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver, que é tão monótona como a mesma vida, mas só em lugar diferente. Sim, esta Rua dos Douradores compreende para mim todo o sentido das coisas, a solução de todos os enigmas, salvo o existirem enigmas, que é o que não pode ter solução.

Quantos Césares fui, aqui mesmo, na Rua dos Douradores. E os Césares que fui vivem ainda na minha imaginação; mas os Césares que foram estão mortos, e a Rua dos Douradores, isto é, a Realidade, não os pode conhecer.

Serei sempre da Rua dos Douradores, como a humanidade inteira.

(Tinha mais coisas para lhes passar e as passagens relidas do poeta português inebriaram minha mente. Deixa para outro dia. Temos tempo.)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Obrigado, pai


Desculpe expor assim o que era para ser um agradecimento privado. A verdade é que o blogue tem me consumido. Consumido meus sonhos e os tornado num só: de um dia ter isto publicado em capa dura, ilustrada, com orelha, perfil e prefácio. Prefácio que talvez contenha as suas palavras.

Desculpe escancarar algo nosso, mas um e-mail seria insuficiente para dizer obrigado pelo presente antecipado de Natal. Até porque há outras dádivas, muitas outras, que nunca tive oportunidade real – e coragem visceral – de agradecer.

Como o gosto pelas letras. Herdei de ti a paixão por romances, poesia e jornalismo, além da aptidão pela escrita. Irônico que pouco soube desse seu enlace com a literatura e me surpreende cada citação, memória e conhecimento que apresentas. O que está diante dos nossos olhos normalmente é o mais difícil de se enxergar.

Meus amigos sempre tiveram liberdade contigo. Obrigado por esse espírito leve. Te sacaneavam e curtiam, como se fosse pai deles também. E eu me sentia orgulhoso, porém confuso, quando elogiavam a sua sabedoria. Acho que de tão parecidos, elaboramos uma distância entre nós.

Porém foi você quem me encaminhou a Nelson Rodrigues, lá nos meus 12, 13 anos. Talvez nem saiba disso, e eu mal compreendia àquela altura o impacto que o Anjo Pornográfico causaria na minha trajetória. Escrevi sobre o fato há alguns meses:

O primeiro livro do Nelson Rodrigues que tive nas mãos era uma coletânea de crônicas esportivas, chamado Fla-Flu: E as multidões despertaram. Esse livrão de capa preta, vermelha, verde e branca tem uma história bacana, do imaginário infantil. [...] cheguei a acreditar que o Fla-Flu era um exemplar único e exclusivamente meu, que eu dispunha de uma raridade na estante.

Ele estava no escritório do meu pai. Um dia o velho chegou com o presente, dizendo que tinha o encontrado entre umas petições. As fotos antigas e os recortes de jornal do início do século 20 davam um caráter pré-histórico àquelas páginas.


Sentei e folheei o livro como quem é apresentado a uma nova vida. Desde então, passei a guardar o tesouro, escondendo dos outros que o possuía, achando que Nelson o escrevera excepcionalmente para meu pai.

Lógico que depois a ficha caiu e a fantasia ruiu. Até hoje, só sei de uma pessoa que tem a obra e, de certo modo, ainda prefiro pensar como quando eu era criança.


Admiro muito essa admiração que as pessoas têm por ti, seja parente, amigo, colega ou aluno. És amado por onde passa pois não distingue ninguém e está sempre a cativar com uma piada, um causo contado, um sorriso. As manifestações são honestas justamente porque você transborda honestidade.

Obrigado por me ensinar a ser assim também: puro. Lembra quando a pediatra falou que eu era “todo engraçadinho” por conta das brincadeiras durante a consulta? Respondi que ela devia conhecer você, pai. Hoje, quase duas décadas depois, replico a mesma frase para qualquer qualidade que me adjetivem. Sou, várias vezes, espelho espelho seu.

Foi você que me fez um apaixonado por futebol, e ficava à beira do gramado a gritar o que eu devia e não devia fazer como jogador. Me enlouquecia. Mas era um companheiro de táticas, de técnica e de quando as coisas saíam do lugar. Nunca esqueci do jogo em que invadiu o campo para me proteger de uma briga que provoquei.

Ainda pequeno, eu e a Di íamos ao seu escritório passar a tarde, recordas? Era esquisito ver o homem de bigode sério, engravatado, compenetrado – diferente do pai brincalhão, que jogava bola e dava corda no mini-bugue. Lá, conhecíamos outro você. Peguei cacoetes e trejeitos seus – inclusive o da seriedade no trabalho –, e às vezes me deparo com eles, assustado pelas nossas semelhanças.

Peguei também o ímpeto de viajar. Quando resolvi sair de casa, aos 22, noivo e para uma cidade nova, desconhecia as suas objeções. Não sei nem se eram bem objeções, ou medo. No entanto, você sempre me apoiou, mesmo ressabiado. Vendi o carro que havia me dado e parti.

Assim que decidi retornar, fui acolhido na sua casa de braços abertos. E acolheu desde o princípio o meu intuito de sumir de novo no mundo, nesta aventura d’além mar. Sem você não estaria onde estou, cumprindo mais um desejo de minhas inquietudes.

Por isso quero agradecer muito além do presente antecipado de Natal. Muito além de todas as bolas, carrinhos, camisas de futebol, livros, passeios, jantares que me deu. O que recebi de ti ao longo da minha história, e ainda recebo – basta lerem os deliciosos comentários neste espaço –, são os (e)ternos ensinamentos para a vida.

Mais que tudo: obrigado, pai.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Já fui mais alegre

Já fui mais alegre. Hoje, sorrio menos. A maioria das vezes sozinho, lembrando do passado. Sorrir faz bem, dizem. Assim como ser leve. Coisa que foge um pouco ao meu jeito. Sou crítico e perfeccionista, e me cobro muito por isso. Organizado ao extremo – no plano externo. Porque aqui dentro é uma bagunça. Tanto de sentimentos quanto de pensamentos. Amo esportes. Vibro e me emociono com eles. Em Copa do Mundo, Olimpíada e Pan-Americano a empolgação é maior.

Tenho medo da morte. Sou cético e isso me machuca. Não acredito em nada, só no nada. E procuro sentido, para não fazer da minha vida um vazio. Mais que da morte, tenho medo do vazio da vida. Quero fazer tudo ao mesmo tempo e minha ansiedade e impaciência atuam contra mim. E me ajudam a ser desajeitado nas relações sociais. Sou reservado e ruim com as palavras faladas. Escondo isso. Me considero bom nas palavras escritas. Só que em vez de abrir, acaba por me fechar portas.

Adoro pipoca e chá mate gelado. Tem pouca coisa que odeio comer. Experimento de tudo, para ter condição de dizer se aprovo ou não. E mesmo rodeado de pessoas, às vezes me sinto sozinho e desamparado. Reflexo da atualidade. Meus medos giram em torno da palavra errar – outro reflexo da atualidade. Já disse: sou crítico e perfeccionista. Odeio ser chamado a atenção, fazer papel de otário, magoar as pessoas. Há situações em que minto pelo bem dos outros. Devia pensar mais em mim. Mas me acho egoísta por pensar assim. Devia mesmo pensar mais em mim.

Sou fanático por futebol. Vejo, nesse jogo de regras simples, muitas explicações para nossos dramas e tragédias reais. Pena que tudo se tornou mais negócio e menos brincadeira. Quando criança, tinha temor que o futebol acabasse, que as pessoas parassem de jogá-lo – ou que os homens fossem trocados por robôs. Também não gostava de pizza e de queijo. Sou um sujeito muito mais fechado hoje que aos 8 anos de idade. Acho que meus problemas não devem aborrecer os outros. Mas absorvo os problemas dos outros. Ouço música para me acalmar e para me agitar. Tomo banho à meia-luz quando quero clarear as idéias. E dá certo. Demoro a pegar no sono. Acordo cedo e disposto. Vejo pouca TV – não tenho paciência.

Acho que nasci na época errada, e se tivesse em outra época, acharia a mesma coisa. Queria ser jogador de futebol e sou jornalista. Quando faço esporte, esqueço do mundo. Tenho vontade de sumir. Mas quem não tem? E também tenho vontade de ter filhos e criá-los como o melhor pai possível. Receio falhar, é verdade. Bebo para me ajudar a ser espontâneo. Também não acho isso legal. Dirigir me tranqüiliza, assim como lavar louça e caminhar. Gosto do mar. Sou desprendido de bens materiais e choro com filmes e ao ver outra pessoa chorar.

Não entendo a intolerância e o preconceito e acho que as pessoas perdem muito tempo com preocupações mesquinhas. Também não entendo como existe tanta gente com a mente fechada. Procuro sempre compreender o outro lado. E é um exercício difícil, mas necessário. Adoro canjica e isso lembra a minha madrinha. Cural e biscoito de queijo também. Amo meus pais e minha irmã, embora fale isso tão pouco a eles – e deveria falar mais. Às vezes fico confuso com a dimensão do meu pensamento, e nem consigo explicá-lo. Apenas sei, sem saber o que sei e como sei. É doloroso conviver com ele. Machuca, acelera os batimentos e chega a pirar.

Tenho saudades de várias coisas – inclusive do futuro. Acho que sou velho e vivi pouco. Me cobro mais sabedoria. Me cobro menos entendimento. Gosto do número 13 e de ler Fernando Pessoa e Nelson Rodrigues. De comer com colher e beber em caneca. Queria saber o motivo de estarmos aqui. Parece meio vago. Certa vez, disseram: o que importa é a presença. As histórias também. Quando vejo uma criança, sorrio. Fui aprendendo a ser calmo e natural com o tempo. No entanto, já fui mais alegre.

[Texto de junho de 2007]

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

%$#%&$ internet!

Não pensem que o trabalho venceu a batalha e me fez de refém durante o fim de semana. Produzi tal qual nos tempos do ócio, o longínquo e áureo período de ficar de pernas pra cima. Foi a dona internet, essa mesma, que resolveu folgar no sábado e no domingo, ora pois! Passei os dois dias a brigar com a conexão banda larga da Zon TV – ou seja lá como chama.

Tudo bem que o serviço se mostrou capenga em um mês de uso, mas agora ele superou o recorde olímpico de ineficiência. E continua mais pra lá que pra cá... Verdadeiramente aconselho aos visitantes do blogue entrarem na justiça por danos morais à não-publicação dos textos. Nem é tanto pelo conteúdo; pensem no dinheiro – e lembrem-se de mim.

Escrevi algumas coisas que a validade expirou. Deixa guardado. Uma noite reativo as idéias.

***

Depois desse rodeio, vou falar do horário de descanso na cafeteria. Descobri a melhor maneira de usar a pausa obrigatória e merecida. A primeira metade da hora faço a refeição na própria loja.

A gente tem direito a tudo: da pastelaria variada aos sanduíches e torradas; do espresso ao chocolate quente e capuccino. De barriga cheia, vou à livaria Bertrand, escolho um bom livro e relaxo numa confortável poltrona preta. Como Quintana sugeriu: o chá é mais espiritual e o café, mais intelectual.

***

No domingo diversifiquei. Dei uma volta no Centro Comercial das Amoreiras e sentei em um banco fashion do passaredo, verde e amarelo, ondular e incômodo. Sentei perto de um senhor que dormia feito neném.

Enquanto ele sonhava de olhos fechados, eu o imitava desperto. Mas nem era bem um sonho que tinha – foi mais um devaneio. Fiquei a observar os casais que passeavam e uma convicção me abateu, feito pedra de estilingue num cambaxirra: é preciso muita afinidade, muita empatia, muita sintonia e muito conforto para querer a vida ao lado de alguém.

Casados, namorados, pretendentes iam e vinham nos corredores cleans do shopping, e vi pouco – ou quase nada – de amor. De amor como o evocam: singelo e espontâneo. Tinha paixão dos recém-ligados, carinho do companheirismo, responsabilidades de família. Mas minha análise é leviana e distante – ou então o amor é apenas tudo isso.

O que me derrubou foi pensar no meu caos. Digo, caso. E emergiu aquele misto de certeza e medo, esperança e inquietação, vontade e dúvida. A gente simplesmente sente, desde o início, que pode passar o resto da nossa trajetória com outra pessoa ou o laço na saúde e na doença é firmado dia após dia, após dia, após dia?

Eu já tenho a minha resposta. O senhor a cochilar no banco também.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Sobre termômetro e paixões (ou frio e quente)


Agora sim começamos a falar de proximidade do inverno! Pela primeira vez nestes 40 e poucos dias, a temperatura cá ficou em um dígito. Suportei bravamente – com uma camiseta, dois casacos e cachecol – os 8° da rua. Tende a cair ainda mais...

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Sempre fui homem de paixões reprimidas – ou escondidas, se preferirem. Ao mesmo tempo que a covardia me impede de anunciá-las, a poesia as canaliza. Drummond afirmou que o único amor possível é o impossível. Oscar Wilde defendeu que o mistério do amor é superior ao mistério da morte. Pessoa escreveu que amar é não pensar, e não pensar é a verdadeira inocência. Já Rainer Maria Rilke apontou o seguinte caminho:

Amar não tem de início nada a ver com abrir-se, entregar-se e unir-se a uma outra pessoa, é antes uma ocasião sublime concedida ao indivíduo para que ele possa amadurecer, tornar-se qualquer coisa dentro de si, tornar-se mundo, tornar-se mundo para si em nome de um outro, é um imperativo grande e imodesto que faz dele um eleito e o chama para a distância.


***

Lisboa é cidade de mulheres agradáveis e bonitas, mas bué difíceis. Se a paquera já costuma ser um jogo de quebra-cabeça, por aqui existem mais peças que o usual. Tudo começa pelo olhar – e é onde termina também.

Raramente elas retribuem o flerte. Não é porque não gostaram de serem apreciadas; é por conta de uma certa “culpa católica”. O prazer da carne é um desejo pecaminoso. Às vezes a situação chega a ser divertida: ao cruzar com uma bela mulher, olho bem fundo nos seus olhos. Ela nota e disfarça. Fico à espera de um sinal – uma virada de rosto ou algo assim –, mas não o recebo. Ainda assim, dá para perceber o impacto.

Uns amigos relataram o costume local dos “10 cafés” (óbvio que há exagero no roteiro). Dizem que para arrematar uma portuguesa é necessário paciência de Jó – traduzida nas intermináveis 10 saídas. Bom, isso para se ganhar um beijo...

Desconfio que o verbo ficar não seja tão conjugado cá quanto no Brasil. Será isso uma valorização feminina ou influência da Igreja e dos valores tradicionais/conservadores? O certo é que os “zucas” (da abreviação de “brazucas”) não têm lá uma fama muito boa nesta terra. Pior ainda são as mulheres tupiniquins – os adjetivos vão de fáceis a putas.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Vontade e desordem

Essa noite estive febril e delirei: o blogue virava livro.


Escrevo sem ordem, sem pretensão, sem conseqüência. Escrevo com causa – mas ainda não sei se por uma. Às vezes sou tomado por um mundo de utopia, um mundo de fantasias inconsistentes.

Não sei para quem escrevo ou com que finalidade, mas me sinto tranqüilo. As coisas lá fora é que me inquietam e angustiam. Sinto que a vida, ao contrário do que eu mesmo penso muitas vezes, é uma força impressionante e devemos saber lapidá-la da melhor maneira.

Perde-se muito tempo com bobagens. Vê-se muita injustiça, intolerância e maldade. Tenho um misto de vontade e desordem dentro de mim. Existem coisas que não precisam ser lidas, basta senti-las. E quanto mais penso, mais me desespero.

Nunca perdi o rumo, mas também nunca soube direcionar a embarcação.

[Texto de julho de 2005]

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Mais peripécias de um empregado de mesa

Domingo, fim de tarde: Um casal chega ao café e me prontifico a atender. Pergunto se precisam do menu. Ela insinua que não, pois já sabe sua escolha. É brasileira. Ele é português e franze a testa, pensativo. Com agilidade de um ninja, alcanço o cardápio na mesa ao lado e lhe entrego: “Pronto senhor, para eliminar qualquer dúvida”.

O homem, então, me solta a réplica: “Por que não entregaste a carta primeiro à senhorita? Os bons modos são esses”. Oras, ela não havia dito que tinha certeza do que queria?! Não foi ele quem hesitou no pedido?! Pois bem, quase enrolei o menu e ia elaborando uma rima. Também, quando decidiu pelo suco de laranja eu lhe disse que a fruta estava ácida. Só faltou completar: “Assim como o senhor. Agora, com licença” (olhando para ela, lógico).

Domingo, em torno de 21h30: Três garçons ociosos conversam besteira. Um rapaz no auge de sua afirmação pseudo-adulta solicita um capuccino e um mini-croissant de chocolate. O capuccino acompanha chantilly, mas o chantilly acabou. O colega pergunta se pode ser sem. Aí começa: ele não gosta da notícia, faz cara feia, revira-se na cadeira e opta pelo café. Vai à mesa o mini-croissant em pão-de-leite.

Falha nossa. Basta trocar. Simples, não? Ele o-deia o equívoco, faz nova cara feia, dá chilique na cadeira e enfatiza que pediu um mini-CROISSANT. Problema corrigido, lá vai o colega servi-lo, pela terceira vez. Vejo o cliente levantar-se subitamente, ir ao balcão, perguntar quanto deu a conta – no fim de tudo, foi só um café –, pagar e sair batendo o pé.

Descubro que o recheio do mini-croissant tinha de ser com pedaços de chocolate e não em pasta, tipo Nutella. Como diria uma amiga: «ema, ema, ema... cada um com suas neuroses».

Um apanhado socioeconômico: O Centro Comercial das Amoreiras é muito frequentado por gays e pela elite lisboeta. Por isso, é normal atender casais homossexuais e grã-finos. Minha tatuagem fica sempre escondida debaixo de uma manga comprida.

A abordagem é cerimoniosa. Raramente os clientes trocam uma conversa informal comigo. Não que sejam mal-educados, mas é que o clima, por si só, parece não permitir. Engraçado, né? Ainda assim, existem as comemoradas exceções. Como a da senhora, velhinha velhinha, que aguardava vagar uma mesa e puxou papo.

Em outra cena, um senhor com seus 60, 70 anos me perguntou o que eu fazia para “deixar” a barba escura. Bem-humorado, queria a fórmula para seus fios brancos desaparecem. Se espantou quando eu contei que tinha muitos cabelos alvos também. “Mas és tão jovem”, argumentou. “É genético”, respondi. Culpa da família Franco de Carvalho.

Entre uma simpatia e outra, consigo boas gorjetas. Um senhor me deixou 1,15€, a senhora sem mesa agradeceu a atenção com 1,10€, e de centavos em cêntimos o dinheiro vai enchendo a caixinha – o total é dividido, no fim do mês, entre os empregados. Mas o melhor extra foram “modestos” 0,60€ de uma elegante balzaquiana.

Ela ficou cerca de uma hora na cafeteria. Bebeu um chá verde com menta, comeu uma torrada de pão alentejano, leu sua Vogue e foi-se, levando as sacolas de compras. Ganhei a gorjeta, um charmoso sorriso e a convicção de que este emprego, meus caros, vai ser melhor que eu imaginava!

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Dois marroquinos

“Dois marroquinos”. Foi esse o meu primeiro pedido atendido no café. Dois marroquinos? Olhei para os lados e vi portugueses, moçambicanos, angolanos, caboverdianos e brasileiros. Sei que há muitos indianos e chineses por aqui também – uma recente pesquisa apontou que apenas 15 países integrantes da ONU, dos 192, não têm cidadão em Portugal –, mas nada de marroquino por perto.

Logo pensei que a dona trabalhasse pro mercado de tráfico internacional. Ah, sabia! O salário estava bom demais para dois dias de trabalho como empregado de mesa. Os imigrantes devem estar presos num galpão no subsolo do shopping, a condições precárias.

Ainda assim, encaminhei o pedido ao balcão. É meu dever. Cogitei acionar os Direitos Humanos, a Unicef, o Capitão Planeta... mas o melhor mesmo é não questionar. O casal queria dois marroquinos? Levaria aos dois “saidinhos” o que haviam solicitado: uma camada de chocolate quente, café e cobertura de chantilly. Eis o marroquino.

A mão tremeu um pouco e outros pedidos vieram. Às vezes um sobre o outro, bagunçando o número da mesa que o fez e o que era. Pior são algumas especiarias típicas daqui e, de certo modo, inexistentes no (meu) Brasil. Queijada já ouvi falar, mas confesso que só ouvi. Agora queque... foi novidade total.

Um senhor irritou-se comigo. Foi no domingo, segundo dia da saga. Já estava mais tarimbado e me virei bem quando o café encheu e estive sozinho como garçom. Porém o tal cavalheiro, acompanhado da Sra. Cara de Poucos Amigos, pediu um batido de chá de frutos não-sei-o-que-lá com baunilha. É lá algo que se peça, ora pois?

Fiz que compreendi e pedi ajuda aos colegas. Omiti o “batido”, por não tê-lo entendido da primeira vez. A expressão deles foi de igual surpresa e dúvida. Voltei à mesa 6, pedi desculpas e disse que eram tantos pedidos que havia me esquecido. O caro senhor levantou-se e foi me mostrar que tratava-se de gelados (sorvetes). Pronto.

As duas bolas foram servidas. Só que péra lá, ainda não era isso! O sujeito mais uma vez pôs-se de pé, caminhou taciturno até o balcão e esbravejou para a gerente que havia pedido um “batido” e eu não sabia o que é um “batido” (sim sim, um milk-shake; agora é fácil).

Eu devia era ter batido nele!

– Tá aqui, ó... POW! SOC! UFF! PLOFT! PUM!

Mas atender público é assim mesmo. É preciso exercitar a paciência e a auto-estima. Por isso, a única moral que deixo neste espaço tem a ver com respeito e boas maneiras: use e abuse. A gente dá menos importância que deveria. Eu tenho a consciência leve – e, modéstia parte, colecionei umas gorjetas por investir nesses princípios.

***

Outras histórias virão com o tempo. No fim de semana inaugural já foram muitas. A que conto agora não tem a ver com o novo emprego. Estava no metro, domingo, e mãe e filha brasileiras conversavam animadamente.

Dava para ver que a mãe tinha vindo visitar a cria. E a gaja contava causos e percalços da vida lisboeta. Falava sobre os amigos que fez, o local onde mora, as festas que foi. Senti um aperto no peito e tive vontade de lágrimas de saudades pela primeira vez no Velho Mundo.

Estar longe de quem amamos é difícil sempre, mas principalmente quando queremos dividir as descobertas. Então sentimos que a distância é a forma mais nostálgica – e dura – do gostar.

domingo, 9 de novembro de 2008

A volta do cão voador

Assim que abri a porta e tocaram-se os sinos, lá veio ele a abanar o rabo e seguir meus passos pelo corredor. Das escadas, o cheiro não escondia o retorno e minha obrigação volta a ser a de olhar fixo pro chão quando caminho. Trata-se do exercício de manter as solas limpas.

Havia duas semanas que Fly, o cão em trajes de raposa, ou de hiena, estava fora. Sim, ele parece qualquer coisa entre um e outro animal desses, com seu focinho alongado e a pelagem manchada. Mas uma versão geneticamente alterada: os hábitos caninos permanecem, enquanto os saltos são de canguru.

Porém parece mais comportado. Leve impressão. Deram um corretivo nele? Não sintam pena aquelas gajas que acreditam que ele tenha problema em uma das pernas – como aparentou-me na primeira vez que o vi. É tudo uma mentira que não tive coragem e chance de corrigir. O diabinho é um saudável quadrúpede de quatro patas.

Agora, ainda ei de descobrir como pula tão alto. Já cogitei que seja da família Hypolito, que tenha aprendido ao ver o Michael Jordan atuar, que calce molas até! Nada disso parece adaptável ao Fly. O certo é que o cão voador voltou – e não há mais paz na hora da refeição.

sábado, 8 de novembro de 2008

Fé no café

Sábado e domingo passam a ser os dias oficiais do café. Não que eu vá consumir a bebida quente em grande quantidade – apesar de aqui tomar pelo menos uma caneca por dia, com o acréscimo de canela –, mas porque fui chamado para um trabalho temporário numa cafeteria.

Se tudo correr bem, serão dois meses de serviço de balcão e de mesa, entre 14h e 23h. A Cacao Sampaka (http://www.cacaosampaka.com/) é uma rede espanhola e em Lisboa fica no chiquérrimo Centro Comercial das Amoreiras.

Dizem que café e jornalista sempre andam juntos... decidi levar isso mais a sério ainda.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Crônica de um emprego perdido

Se fosse eu inglês, nascido e criado em Camden Town, este texto não existiria. Se estivesse no Brasil, trabalhando em Floripa ou em Brasília, este texto tampouco teria vida. Mas estou em Lisboa e sou um gajo tupinambá à desenfreada procura de trabalho.

Se não fosse por isso, teria facilmente levantado do recrutamento da Starbucks, pedido mil desculpas e me dirigido à segunda entrevista do dia. Se não fosse isso, antes de tudo, não teria concordado em marcar dois encontros com somente uma hora de diferença entre um e outro. Deu no que deu: esta crônica.

É nessas horas de aperto que um ditado popular sempre vem à nossa mente. Muitas vezes mais de um. Lembrei de “o apressado come cru” e “mais vale um pássaro na mão que dois voando”. Pois bem, a agenda da manhã começou às 11h30.

Em meia hora tudo estaria decidido na Starbucks. Isso que pensei. Tempo ideal para pegar o metro na Baixa-Chiado, trocar a linha Azul pela Amarela em Marquês de Pombal, descer no Campo Pequeno, caminhar alguns quarteirões e, pronto, chegar à Chilli Beans. Porém, devia ter contado esse meu itinerário a um dos participantes da dinâmica de grupo.

Aos 42 anos, formado em Artes Cênicas, Paulo tinha a preocupação imensa de ser excluído do processo seletivo por conta da idade. Sem exagerar: ele fez 2.342 indagações sobre o tema e explicou 5.589 vezes o motivo das perguntas. Além do que, tudo era razão para um comentário, uma pausa, um adendo. E eu lá, quase para esganar o protagonista da tragicomédia. Resumo do ato: saí do local às 12h30. Correndo.

Primeira coisa foi ligar para o entrevistador da Chilli Beans, senhor Vasco Nunes. Com esse nome também... bem, esquece. Avisei que atrasaria. Ele perguntou quanto. Disse que chegava em breve. Ele quis exatidão. Repliquei 15 minutos, mesmo sabendo que o prazo era impossível. Nem se tudo andasse bem eu conseguiria.

E não andou. Peguei o metro. Errado. Troquei de vagão. Voltei para onde tinha partido. Aguardei um bocado pelo próximo. Saltei em Marquês. Corri até a linha Amarela. Mais uns cinco eternos minutos de espera. Entro. Passa a estação de Picoas, de Saldanha, eis o Campo Pequeno! O relógio já perto das 13h.

Saí do subterrâneo, olhei para um lado, para o outro e... estava perdido. Havia deixado o mapa em casa e, por mais que lembrasse o nome da ruela (ninguém saberia informar), não tinha idéia para que lado caminhar. Atravessei a rua, decidi seguir em frente. Dei meia-volta, resolvi arriscar para a esquerda. Liguei para o Vasco:

− Peço mil desculpas ao senhor, mas errei a linha do metro e agora estou completamente perdido. Tenho muito interesse na vaga e queria saber se ainda há tempo da entrevista. Aliás, o senhor já almoçou?

− Sim, já almocei. Não há mais o que fazer. Façamos assim: ligo-te outro dia para remarcarmos. Com licença. Adeus.

Duvido que vá ligar. Retornei desolado, a passos curtos e cansado de tanta pressa. Quase pedi uma injeção letal a uma das três estudantes de Medicina que sentaram próximo a mim, no metro. Não, elas eram bonitas demais. Preferi a contemplação. Quem não tem óculos escuro...

A grã-fina de Nelson e os vizinhos barulhentos

As crianças... ah, as crianças são tão lindas no frio. Saí cedo porque sou bem masoquista e quis enfrentar o gélido clima de Lisboa às 8h30. É o horário de os pais largarem os miúdos na escola ou na creche. Todos com roupas bem quentes, das mais clássicas às mais modernas.

Uma menina, perto dos seis anos, desfilava com um sobretudo azul que deixaria a Gisele Bündchen com uma inveja danada. Outra, mais nova, mais loirinha e com um corte superestiloso, tinha a meia-calça (ou segunda pele) em tom vinho. O tênis all-star branco e a saia jeans completavam o visual fashion.

Minha manhã foi mesmo de “garota”. Depois das observações de moda infantil, fui aprender sobre perfumes. Ou melhor, em como trabalhar numa perfumaria. Coisas de quem está desempregado. A palestra de formação – a respeito de marcas e frascos, abordagens e posturas, roupas e modos – foi gerida por uma típica personagem de Nelson Rodrigues.

A senhora, muito chique e requintada, me fez recordar nas três horas de blá-blá-blá a “grã-fina das narinas de cadáver”, que perguntava no Maracanã lotado quem era a bola. Sim, ela tinha um nariz distinto, curioso, de esqueleto. Deve ser sobrinha, filha, neta... algum parentesco com a musa inspiradora de Nelson.

Por falar nele, minha dissertação será sobre a relação de suas crônicas esportivas (ou crónicas desportivas) e a literatura. Já comecei a me debruçar no tema e em breve posso felicitá-los com uns trechos. Aliás, peço serenidade de todos que visitam este espaço: vai ter uma época em que não falarei n'outra coisa que não nesse bendito trabalho. Paciência.

Outro porém de Nelson me veio à tona agora, por conta dos vizinhos de cima. Ele deve bater nela! Ora, não se espantem. Como escreveu o Anjo Pornográfico, «toda mulher gosta de apanhar, o homem é que não gosta de bater». Ou então os resmungos abafados, os gemidos incontidos, os gritinhos agudos são porque o gajo larga a tampa do vaso sanitário levantada, deixa cerveja cair no sofá, reclama da sogra... Tudo isso sempre à noite, em torno de 22h.

Estranho, né?

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Um mês

Quase aos 45 do segundo tempo, lembrei que completo um mês de vida portuguesa hoje. Exatamente: hoje. E irei comemorar? Se abrir uma garrafa d’água e comer um pão com geléia (de frutos silvestres, uma delícia) é uma celebração, então cá estou.

Passou rápido ou devagar? Passou. Vivi muitas coisas nestes 30 dias e aprendi várias lições. Foi interessante colecionar diferenças sutis entre culturas tão próximas e, ao mesmo tempo, tão distantes. Lisboa é uma cidade fenomenal, com seu clima ótimo – não falo apenas da meteorologia – e tudo perto e fácil.

Quando vim não sabia o que iria encontrar. Lembro perfeitamente da sensação de andar nas ruas pela primeira vez, quando deixei as malas no albergue em plena manhã de um sábado vazio e fui caminhar sem rumo. Era misto de euforia e novidade. Estava em Portugal, na Europa, perto de países que, 10 horas atrás, estavam a léguas de distância.

O que irei me deparar daqui pra frente pouco importa. Foi um mês e tanto. E como está num texto que dizem ser do Pessoa (mas duvido): “Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo...”.

Curiosidades lisboetas (7)

- Se não foi a primeira coisa a me instigar a curiosidade, deve ter sido a segunda. A terceira, no máximo. As placas de automóveis têm uns números à direita que eu sabia ter a ver com data de algo. Mas meu parco raciocínio lógico nem foi capaz de perceber: é o ano e mês de fabricação do automóvel.

- Tem gente que soma os dígitos da placa, tem gente que procura coincidências. Meu hobby entre os veículos de Lisboa, com essa informação superútil, é analisar o estado de conservação. Carro velho é até normal (mais que eu supunha), mas eles quase sempre estão bem cuidados.

- Vocês são inteligentes e cultos, então já devem saber quais são os nomes portugueses para ônibus, trem, metrô e bonde. Mas não custa repetir. Respectivamente: autocarro, comboio, metro (de metropolitano) e eléctrico.

- No último post do Curiosidades, esqueci de uma gíria de origem africana que circula entre os jovens patrícios: “bué”. Significa “muito” e juro que estou me esforçando para incorporá-la ao meu vocabulário. Então se eu falar ou escrever “bué fixe”, “bué giro” ou “bué” qualquer coisa, não me repreendam. Ficarei bué grato.

domingo, 2 de novembro de 2008

Morte ainda sem ser

Por conta dessas minhas andanças – que nem são tantas assim –, uma das missões impossíveis que tenho ainda em vida é reunir todas as pessoas que amo e curto estar junto. A lista é modesta, mas verdadeira: tem gente em Brasília, Florianópolis, Goiânia, Porto Alegre, São Paulo e até Roma. Agora passa a receber novos adeptos no Velho Continente.

Os pequenos “adeuses” que distribuo ao longo desse vai-e-vem irredutível me recompensa com grandes “olás”. É igual a coração de mãe, oras: sempre tem lugar para mais um. Queria eu fretar um vôo da TAP e trazer todos para um fim de ano, um feriado prolongado, um dia bem aproveitado.

Se calhar, vou forjar meu velório. É uma excelente idéia, apesar da ironia em só conseguirmos juntar aqueles que gostamos após a morte. O risco que corro nesse plano mórbido é não aparecer ninguém.

***

Vou me sentir no Show da Xuxa, mas quero mandar um beijo para meus antigos colegas de Caixa Econômica. Não faço campanha política nem estou a prevenir um provável velório vazio, é que falei com a Cynthia na sexta e prometi esse “alô”.

Leitores assíduos do blogue, fiquei sabendo que é o Túlio quem noticia quando tem um post novo. Obrigado, meu caro. Este mês transfiro a grana da comissão mais cedo. Quanto ao Fábio, por favor, sem piadinhas para me substituir. Seu tipo de humor é outro. E Jesus, obrigado pelos e-mails carinhosos.

Prezada Cy, cuida da turma. Valeu por atender um sujeito que prefere “não se identificar”. (Sissa, sabia que você era apaixonada por mim, mas não imaginava que sonharia comigo.)

sábado, 1 de novembro de 2008

Sobre o Voip, a faculdade e cerveja

Descobri o Voip e resolvi ligar para um bando de pessoas. Fiquei restrito à família e alguns grandes amigos de Brasília. Foi divertido ouvir a surpresa deles em receber uma chamada do outro lado do Atlântico. A tal tecnologia é mesmo uma coisa moderna.

Meu pai – participante assíduo do blogue e figura já prestes a ter um fã-clube, por conta de seus comentários sempre espirituosos – veio me indagar sobre a faculdade. “Como é? E as aulas?”. Fiz mea-culpa, afinal são tantos assuntos novos que o cotidiano acaba por ser negligenciado.

Para não limitar a dúvida tão-somente ao meu velho, que é professor universitário, a Janaína (colega de graduação no Ceub) já pediu, há tempos, fotos do campus. Puxa vida pessoal, tenho vergonha de sacar a máquina entre pombos e gente e agir como um turista japonês acadêmico. Vou ficar devendo os registros, mas acreditem na minha breve descrição.

A Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa é igual a qualquer uma brasileira. Sem pôr nem tirar. Os muros são pichados, as salas mal-acabadas, os estudantes “espaçosos” – ainda mais na Comunicação –, as fotocópias lotadas, a biblioteca aquém, o CA bagunçado e uns bichanos circulam no local. A diferença fundamental é que vendem cerveja na cantina. E isso é uma dádiva!

Duas situações banais para ilustrar: na quinta a aula terminou mais cedo porque a luz acabou. Apenas a luz do campus. Ficamos no escuro – o que até não foi tão ruim. No dia seguinte, chega a informação de que estávamos dispensados: o professor faltaria. Antecipei o fim de semana. Ou seja, qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência.

Mas como sou partidário da frase «quem faz o curso é o aluno», costumo ir todo dia à faculdade. Sento num banco do pátio, saco um livro da mochila, abro minha cerveja e passo horas e horas a estudar...