quinta-feira, 23 de outubro de 2008

As coisas findas...

Nunca entendi direito os três últimos versos do poema Memória, de Drummond. Há pouco tempo, antes de viajar, o enviei a uma amiga com essa observação. “O que o autor quis dizer?”, inquiria numa dúvida suprema – e vã.

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

O poema como um todo é a idéia do amor sincero e justo, que acontece muito além dos contos de fadas e do cinema americano. É o amor cotidiano, e nem por isso menos mágico ou transcendental.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

As linhas finais, porém, me contrariavam de alguma forma...

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

O que, nesta madrugada, diluiu-se. Foi como se decifrasse um enigma quase por instinto, por vocação. Veio entre um sonhar e outro – e quisera eu ter a disciplina de anotar esses meus lapsos de lucidez.

A intenção de Drummond sempre esteve nítida nos versos, eu é que ainda não estava apto a perceber.

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Na carta para minha amiga, cheguei a pressupor uma mudança de ordem para findas e lindas. Soaria melhor, mais agradável, mais otimista. Ah, como se a poesia um dia se importasse com o “melhor”, o “agradável”, o “otimismo”... Que ingenuidade – mais: que arrogância – a minha!

O término do romance carrega consigo a dor do fim, a ferida exposta da ruptura, a mágoa profunda da distância. São essas coisas que ficam e assombram. Muito mais que as lindas histórias vividas.

(E quem disse que se deva dar significado à poesia – ou mesmo à vida?)

4 comentários:

Anônimo disse...

obrigada por postar e solucionar a minha dúvida tbm.

Anônimo disse...

Obrigada por solucionar a minha inquietude. Só ouso discordar qdo dizes que não há que se buscar o sentido...esse é afinal o nosso único sentido rs

Anônimo disse...

Obrigado também. Sou estudante de português e nossa, graças a deus encontrei hoje seu link. Obrigado.

Anônimo disse...

Belíssima análise! Poesia se sente,se vive.