sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Curiosidades lisboetas (6)

- "Tô sim". É como os portugueses atendem ao telefone. O nosso clássico "alô" aos poucos vai sendo substituído por mim pelo "sim?". Preciso me inserir na cultura, ora pois.

- Durante a conversa (ao menos as formais), nunca vai se ouvir do outro lado da linha um "você" ou "senhor". Curioso. Eles tratam sempre pelo nome, como se lidassem com uma terceira pessoa.

- Para desligar, outra expressão diferente: "com licença". Bem educado.

- O nosso coloquial "então" ou o afirmativo "certo" tem um parente na língua portuguesa de Portugal. É o "pronto". Tem nativos que a cada frase utilizam a palavra duas vezes. E ela serve pra tanta coisa que não estou pronto para listá-las aqui.

- Me divirto mesmo é com uma espécie de "é" alternativo (por assim dizer). Quando concordam com o que você diz, soltam um "yá, yá!". É bacana.

- Um amigo patrício matou a charada: "Nós cortamos as vogais na hora de falar". De fato, eles emendam as consoantes (treine em casa e poderá se passar por um legítimo português). O mesmo gajo comentou que entende muito bem o que os brasileiros dizem. Já os africanos, às vezes parecem usar um outro idioma.

Daqui cinco anos

Esta é boa. Em uma das três entrevistas de emprego que fui ontem (arrisquei ser carteiro, florista e atendente de cafeteria), a proprietária do local questionou onde eu me imaginava daqui a cinco anos. Sorri de imediato e elogiei a pergunta – enquanto ela marcava um ponto de interrogação azul no seu papel de anotações.

Oras, se nunca pensei em morar em Lisboa, se metade das coisas que aconteceram nos últimos cinco anos nem mesmo foi sonhada, como tentar antecipar a próxima meia década? Tive de ser sincero, em vez de responder as palavras bonitas que ela certamente gostaria de escutar.

– Veja, sempre fui muito organizado e tentava planejar minha vida com perfeccionismo e exatidão. Mas se alguma coisa saía dos trilhos e não dava certo eu me perdia. Foi por conta disso então, e da minha ansiedade, que me disciplinei a pensar, no máximo, em daqui a três dias – contei.

Ela pareceu entender, mas o ponto de interrogação continuou desenhado. Sabe-se lá o que se passa na cabeça de alguém que julga importante esse tipo de questão numa entrevista de emprego. Tudo bem, como ela é a dona da cafeteria pode perguntar até a cor da minha cueca se achar relevante. Não me importa.

Mas responderia que estava sem (só para ver a expressão dela).

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Lanterninha de cinema?

Respondo a uma estimada amiga do mundo virtual que me perguntou, cá entre os comentários, como andam as coisas em Portugal. De fato, há algumas publicações que tenho deixado de lado os juízos exteriores para me debruçar sobre o meu interior – ou meus interiores, uma vez que são muitos e distintos.

De modo algum isso é ruim ou foge ao conceito deste espaço. O blogue, saibam todos, não tem conceito. Tenho vontade de escrever – quase como um instinto fisiológico –, e isso basta. Se me tirassem a escrita, preferia morrer. “A boa obra de arte nasce da necessidade” (Rainer Maria Rilke).

Veja, cara amiga, não digo que o que escrevo é a boa obra de arte. Apenas que ela brota, sim, da necessidade – e, por isso, se não pode ou deve ser alçada como boa, ao menos que seja vista como honesta e pura.

Ao mesmo tempo, expor meus devaneios mais profundos é falar de Lisboa. De como a cidade proporciona esse passeio dentro de si, quer nas suas ruas e praças antigas, quer em seus cafés e bares agradáveis. O vento gelado que bate no rosto é companhia ideal da solidão serena. O desassossego mundano é menos desassossego e menos mundano diante do belo poente contemplado por um mirante “natural”.

Esta semana estou pra cima e pra baixo à procura de emprego. Na verdade, desde que cheguei replico anúncios e distribuo currículo. A crise mundial me pegou pelo pescoço e, com o euro a quase R$ 3, os planos de sobreviver tantos meses com o dinheiro que guardei teve de ser revisto.

Não há sinal de alerta, tudo caminha com calma e segurança, mas preciso trabalhar. Preenchi cadastros de empresas que promovem “extras”: vão desde garçons para hotéis e restaurantes a demonstradores de perfumaria e de hipermercados. É uma grana boa que entra.

A melhor chance pintou em um cinema próximo à faculdade. A vaga é de lanterninha. Que tal? Investi todas as fichas, mas nada de resposta ainda. Os horários encaixam com o das aulas e o salário é bacana. Sem contar que poderei assistir aos filmes – até que depois de um mês vou saber todas as falas e enjoar dos enredos repetidos.

Mas qual roteiro é sempre original?

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A beleza da (eterna) novidade

A sensação de cada dia descobrir, conhecer e aprender uma coisa nova é indizível. Bem que podíamos lidar assim sempre com a rotina, não importando se estamos em casa ou longe de casa. É, tão-somente, uma questão de postura.

Numa cidade diferente nos permitimos muito mais uma saída para... sair. Uma saída sem propósito, simplesmente com o intuito de passear. Minha briga com Brasília é essa: a falta de espontaneidade de um lugar em que se precisa do carro para ir e vir. O conforto e a comodidade disfarçam o individualismo e a anti-socialização.

Pois bem, nada restringe de fazermos a nossa parte. Não restringe de darmos de cara com a rua sem idéia do que fazer e para onde ir. Aos poucos, vamos abandonando o sentido de liberdade que está na bagagem quando viajamos. Por que vez ou outra não somos turistas, forasteiros, imigrantes em nossa própria terra?

Tantos poetas falaram em nunca se perder a beleza da novidade. A gente sabe o quanto é difícil colocar essas palavras em prática, mas tente _ sem procurar explicação metafísica ou sofisticada para as coisas. Observe o cotidiano com outros juízos. Ou melhor, com apenas um juízo. Um juízo intimamente seu: o juízo do amor.

"Nenhuma experiência é demasiado insignificante, e mesmo o acontecimento mais miúdo cresce como um destino, e o destino ele próprio é como um grande e fabuloso tecido, em que cada fio foi conduzido e entrelaçado num outro por mão infinitamente delicada, sendo sustido e reforçado por cem fios mais." (Rainer Maria Rilke)

domingo, 26 de outubro de 2008

Solitária solidão

Estar numa cidade diferente é começar uma vida. Lógico que a antiga a gente não apaga – nem quer. Rubem Braga escreveu num texto que já publiquei aqui: “Em minhas andanças, eu quase nunca soube se estava fugindo de alguma coisa ou caçando outra”.

Também pouco sei porque decidi renunciar ao conforto de Brasília ou às conquistas de Floripa por esta aventura em Portugal. Caso ainda não saibam, o mestrado é pretexto. A idéia de ter um título acadêmico nunca me conduziu a viajar para a cidade ao lado, quanto mais estar milhares de quilômetros longe. Somente após ter decidido pelo curso é que cogitei dar aula, por exemplo.

Mas isso é outra coisa. O mestrado de verdade está além da sala, além dos muros pichados da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Meu quadro-negro é o convívio, meus livros são os dias e o meu aprendizado almeja superar o saber intelectual: é cultural, conceitual, emocional, espiritual, surreal...

Além desse hobby por experiência e vivência, sempre me fascinou a solidão. A noção de estar sozinho no mundo, dependendo de si, fazendo seus horários, tendo seus trajetos, buscando seus caminhos, é o que tem de mais próximo à liberdade.

Calma lá, não tenho fobia de ser humano. Nunca irei desprezar uma boa companhia para partilhar momentos – ainda mais os novos. Estar diante do diferente e ter condição de dividir com alguém que se gosta é muito melhor, com certeza. Porém, no caso de não ter, meu mundo continua a girar e num ritmo confortável e natural.

Foi Nietzsche quem escreveu para ficar forte, primeiro tem de criar raízes profundas dentro do nada, aprender a encarar sua mais solitária solidão, e não me sobra mais que concordar. Em silêncio.

sábado, 25 de outubro de 2008

Curiosidades lisboetas (5)

- Sabe o que ainda não vi por aqui? Locadora de vídeo...

- Por falar no assunto, me distraía vendo as produções em cartaz num cinema próximo quando li no canto de um anúncio: “Filme com intervalo”. E a mensagem se repetia em outros. A prática nem é tão surpreendente assim, mas confesso que me pegou desprevinido.

- Dei uma volta, de cerca de uma hora, pela história da capital portuguesa. Apesar de pouco badalado, o Museu da Cidade é uma viagem interessantíssima.

- Esta não é nem um pouco curiosa, nem ao menos se restringe à Lisboa. Visitei o novo e impecável Estádio Alvalade XXI, do Sporting. A estrutura vai muito além do futebol e comporta um minishopping, com restaurantes, bares, supermercado, cinema e lojas do material esportivo e dos patrocinadores.

- A arena foi reformulada em 2003 e está numa região tranqüila. O metrô deixa o torcedor bem no túnel de entrada. O Sporting disputa a UEFA Champions League nesta temporada e encara o Barcelona no dia 26 de novembro. Os bilhetes variam de 30€ a 55€.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Espaço em branco

Oras, eu devia escrever algo neste espaço em branco! Algo legítimo e original. As palavras que se escondem na pacata sexta-feira à noite tinham a obrigação de estar neste quarto. Mas sabe-se lá onde estão (talvez num lugar em que eu deveria estar também).

No entanto, às vezes o melhor mesmo é não comunicar, é não analisar, representar, interpretar. Pode ser aquilo que Alberto Caeiro disse: "Percebemos demais as cousas — eis o erro, a dúvida. O que existe transcende para mim o que julgo que existe."

Pronto. Simples como um espaço em branco.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O povo cordial

Uma senhora subia a rua íngreme numa lentidão de tartaruga. Cerca de um metro e 50 de altura, 70 anos, vestido negro e cabelos branquinhos branquinhos.

Na mão direita um saco plástico, que balançava de um lado a outro. Apressei meu passo e perguntei se a senhora queria ajuda.

- Ah, não precisa não. Aqui só tem pão... só coisas leves. Obrigada.

Sorri.

- Vocês brasileiros são muito (pausa) assim, né? Não conheço o Brasil, mas sei que vocês gostam muito de ajudar.

Sorri de novo, e voltei para casa flutuando.

As coisas findas...

Nunca entendi direito os três últimos versos do poema Memória, de Drummond. Há pouco tempo, antes de viajar, o enviei a uma amiga com essa observação. “O que o autor quis dizer?”, inquiria numa dúvida suprema – e vã.

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

O poema como um todo é a idéia do amor sincero e justo, que acontece muito além dos contos de fadas e do cinema americano. É o amor cotidiano, e nem por isso menos mágico ou transcendental.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

As linhas finais, porém, me contrariavam de alguma forma...

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

O que, nesta madrugada, diluiu-se. Foi como se decifrasse um enigma quase por instinto, por vocação. Veio entre um sonhar e outro – e quisera eu ter a disciplina de anotar esses meus lapsos de lucidez.

A intenção de Drummond sempre esteve nítida nos versos, eu é que ainda não estava apto a perceber.

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Na carta para minha amiga, cheguei a pressupor uma mudança de ordem para findas e lindas. Soaria melhor, mais agradável, mais otimista. Ah, como se a poesia um dia se importasse com o “melhor”, o “agradável”, o “otimismo”... Que ingenuidade – mais: que arrogância – a minha!

O término do romance carrega consigo a dor do fim, a ferida exposta da ruptura, a mágoa profunda da distância. São essas coisas que ficam e assombram. Muito mais que as lindas histórias vividas.

(E quem disse que se deva dar significado à poesia – ou mesmo à vida?)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Hoje

Hoje jantei pizza com cerveja, finalizei minha carta de intenções sobre a tese do mestrado, dormi até 12h, comi chocolate crocante, aparei a barba e lavei roupa.

Hoje deixei a cama desarrumada, conversei com minha mãe pelo messenger, magooei uma pessoa a fundo, procurei emprego, subi e desci ladeiras, terminei de assistir a um filme do Cameron Crowe e andei de metrô.

Hoje almocei sopa de cebola com macarrão colorido, rabisquei linhas tortas no meu bloquinho, respondi ao e-mail de um amigo antigo, fui à aula de Metodologias da Investigação e tomei banho bem quente.

Hoje disse muita bobagem, fiquei trancado na área de serviço do apartamento, escutei Chet Baker e Miles Davis num álbum fenomenal e vi um dos céus mais lindos da minha vida, ainda que só tenha conseguido mirar parte dele. Possuía quatro ou cinco tons de laranja.

Mas hoje deixou de ser hoje. Vou riscar o dia 22 no calendário.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Mirantes e miragens


Que coisa banal é a vida

Que coisa banal é a vida
A criança brinca com os pombos
O casal de velhinhos descansa no banco
Lá longe, a mulher bonita atravessa a rua
Enquanto o garoto ziguezagueia de bicicleta

De terno e gravata, o executivo é mais rápido que a perna
Outro homem, sem pressa, caminha no infinito
As senhoras gordas fofocam e riem alto
Enquanto o cão distraído cheira a grama bem verde
Que coisa banal é a vida

A estátua cansada observa a rotina
Rugem sirenes, máquinas, o vento
Voam lembranças, pessoas, o medo
Enquanto a mosca insistentemente pede atenção
Mas que banalidade...

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A uma portuguesa indignada

Eu estava num bar do Bairro Alto. Num dos tantos, quero dizer. Tasca do Chico. Sim, uma alcunha bem brasileira no coração pulsante da noite lisboeta. Acho que era um CD da Daniella Mercury que tocava, e eu tomava meu segundo chope – ou melhor, minha segunda imperial.

Quando ela chegou.

Já sabia que o assunto da mesa seria as linhas escritas aqui, e desde a saída de casa eu alimentava frases feitas para me defender. Me defender... oras, nem devia pressupor uma defesa! As idéias eram o meu ponto de vista, a minha impressão. No mínimo tenho de experimentar a liberdade poética – e conceital – na minha função de observador.

Mas queria me explicar. Por uma força nata e incorrigível, esse era o meu intuito. O meu instinto. Sou assim: sempre, e sempre, e sempre a querer me explicar. Foi quando ela chegou, com um sorriso que denunciou estar à espera de minhas esquivas, meus “deixa-disso”, meus “veja-bem”.

Levantei e a abracei de supetão. Retribuí o olhar contente e pedimos mais uma imperial. A revolta instantânea havia sido dissolvida naquele ínterim entre a leitura e o encontro. Ela ainda tentou argumentar algo, eu ainda tentei mostrar o que acreditava... porém tudo estava esclarecido.

Essa coisa de nacionalidade é tão demodè, pensei. A autora dos comentários “bufantes” – uma portuguesa, para quem não captou as entrelinhas – estava frente a frente comigo e decidimos superar a divergência de opinião. Eu a respeitei e aprendi. Ela me entendeu e respeitou. No resto da noite, conversamos sobre diferenças e semelhanças de Brasil e Portugal.

E assim foi...

***

O frio começa a dar as caras na banda de cá do hemisfério. No sábado, o clima pirou. Amanheceu com céu limpo, sol amigável e brisa fresca. À tarde, desabou uma chuva de granizo nunca dantes vista pelos brasileiros que aqui residem há um ano. Impressionante.

Situação acalmada, algumas áreas alagadas, casas avariadas, uma ou outra linha de metrô interrompida, foi a vez de a temperatura despencar. Os termômetros marcaram 15 graus. Talvez menos. Deu para sentir como será o inverno. Muito mais rigoroso que o anterior – é o que profetizam os homens e mulheres do tempo.

Continuo a apostar no meu estágio em Floripa para não congelar.

sábado, 18 de outubro de 2008

Curiosidades lisboetas (4)

- Tive uma experiência transcendental no banheiro de um restaurante italiano. Não sei se a prática é normal em outros estabelecimentos de Chiado, zona prestigiada da noite lisboeta. Tranqüilamente fui ao toilete e... bem, deparei com um espelhinho logo acima do mictório. Primeira vez que fiz xixi sob aquela nova perspectiva. Interessante.

- Nas ruas, a moda dos gajos é usar o cabelo igual ao do ídolo Cristiano Ronaldo. É uma espécie de “falso moicano”. A tendência não é recente e o próprio metrossexual inglês David Beckham já usou e abusou do estilo (hoje dizem que a neurose do marido da Victoria é com a calvície). Mas o atacante português do Manchester United tem moral por aqui.

- Programa uma viagem para Lisboa e quer ter idéia de preço? Lá vai: matéria de serviço. Táxi é barato. Uma corrida sai, em média, por menos de € 10. A passagem de ônibus é € 1,40. No metrô pode-se comprar um cartão por € 7, carregar com € 18 e andar à vontade durante um mês.

- O cafezinho sai por algo em torno a € 0,50, enquanto é possível comprar um Periquita tinto no mercado a € 3,99. (Sem comentários!). O suco de laranja de um litro eu não cheguei a pagar € 1. O pão de forma é € 0,68, o chocolate de 100 gramas é € 0,36, a lata de atum é algo próximo a € 0,50.

- Um prato em um restaurante bacana vai de € 7 a € 18. Come-se muito bem. Um casaco legal custa cerca de € 25. Sapato bom é possível encontrar a € 15. Para as mulheres, uma blusa de lã é uns € 18. Laptop tem de diferentes marcas e valores: € 299 a mais de € 2 mil.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Bravo! Bravo!

A vida cultural de Lisboa é um troço empolgante. Para quem saiu de Brasília e viveu em Floripa, é preciso tomar cuidado para não ter uma overdose de shows, espetáculos, apresentações, mostras, exposições, festivais... O “cuidado”, lógico, está no quesito financeiro – apesar de os ingressos serem bem em conta – e não intelectual.

Existem vários bons teatros/cinemas. Conheci o São Jorge, na rua da Liberdade. O local é imenso e maravilhoso. Assisti ao documentário brasileiro O Mistério do Samba, sobre a Velha Guarda da Portela e paguei somente € 3,50. Depois ainda teve uma festa verde-amarela para marcar a abertura do evento, o Doclisboa (Festival Internacional de Cinema Documental).

Tenho tíquete para outra película, a ser apresentada no domingo: Quando o Carnaval Chegar, de Cacá Diegues. O filme de ficção foi produzido em 1972, mas com o passar do tempo se transformou em documento histórico. Eis parte da sinopse: “Chico Buarque, Maria Bethânia e Nara Leão são Paulo, Mimi e Rosa – um grupo de artistas sem notoriedade que canta para ganhar a vida e atravessa o Brasil num ônibus”.

Na segunda-feira a chance de aparecer na sala 3 do São Jorge é grande. Agora para assistir a um documentário de 120 minutos, gravado em 1989, sobre o fabuloso Chet Baker. O título é Let´s Get Lost: “Quando Bruce Weber (o célebre fotógrafo de moda), conseguiu chegar perto do seu ídolo Chet Baker, um dos mais geniais trompetistas da história do jazz, a vida do músico era já um mundo em queda marcado pelo alcoolismo e pela dependência às drogas”.

***

Na semana que vem também vou conferir um simpósio sobre Fernando Pessoa, organizado na própria faculdade. Já imaginam a minha ansiedade... Como disse o professor que tive aula hoje (quase que “plagiando” as palavras de uma grande amiga), é preciso ter paixão pelas coisas que fazemos para que possamos render bem, afinal é a única coisa válida da vida.

Ou como ela me falou quando parti: “Ame sem hora, sem cor, sem preço e sem prazo. O que vale é amar sempre com intensidade e leveza. O amor alimenta a alma e a alma alimenta a vida”. Pronto. E precisamos mais?

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A gente tem tudo na mão

“A gente tem tudo na mão”, ela disse com sua voz tranqüila. Sabedoria: essa sempre foi uma das virtudes que o conquistara – e reconquistava. Na adversidade, Manu conseguia não se alterar e mantinha o mesmo timbre.

Ele já havia a visto brava, é verdade, mas com outra pessoa, numa dessas injustiças cotidianas que tendem a nos tirar do sério. Ela era enfática e severa quando queria ser, o que estampava uma personalidade e tanto.

Até hoje, porém, Manu tinha permanecido serena nas duas ou três discussões que haviam tido. Se é que podia chamar aqueles entendimentos de discussão. A moça não era do tipo de perder a paciência diante de embates emocionais.

Assim que a inesperada frase ressoou por duas vezes na cabeça dele – ou seria ela a ter repetido as doces palavras? – todas as inquietações abrandaram. As múltiplas vozes em sua mente silenciaram e ele sentiu afrouxar o aperto no peito. Bem ao seu jeito, respondeu absorto: “É, a gente tem tudo na mão...”.

Gostara de escutar aquilo. Ainda mais como fora dito – com uma honestidade irredutível e uma beleza sonora. Estava implícito que Manu o amava. Estava implícito que Manu guardaria com carinho as histórias vividas. Estava implícito que dependia dele para que continuassem a existir como casal.

Sentenciou para si, em privado silêncio, que não iria estragar tudo, que jamais a deixaria escapar. Não ela. Não Manu.

Os dias seqüentes rolaram como já estava escrito que seriam. Se separaram. Cada um seguiu seu caminho. Por conta do emprego, ele foi transferido de cidade. Ela começava a reescrever a vida após tantas mudanças abruptas. Mas a afirmação aparentemente simples de Manu conservava o principal combustível da humanidade: a esperança.

Os dois, afinal, tinham nas mãos a chance de serem felizes.
Bastava acreditar, e um dia conseguiriam.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Curiosidades lisboetas (3)

- Povo ruim de baliza esse português. Em quase todo lugar eles precisam estacionar assim e ainda não aprenderam. É comum ver duas rodas em cima da calçada (e me disseram que os franceses são ainda piores!);

- A comunidade brasileira na capital lusitana é imensa. Fui procurar um local para ver o jogo Brasil x Venezuela e a indicação foi que um restaurante típico daqui transmitiria. Chegando lá, nada. O jeito foi recorrer a um bar que almocei certa vez, o qual o dono é gaúcho;

- O detalhe do lugar é que na parte de cima funcionam o café e o restaurante enquanto no piso inferior rola a "festa": uma mesa de sinuca, uma de totó e um karaokê são os cartões de visita. Pior que aguentar a gritaria dos jogos é suportar a música sertaneja em gogós desafinados;

- Ao despejar as compras no caixa do mercado o atendente pergunta quantas sacolas pretende usar. Ora, mas que "murrinhagem"! Paga-se pelo saco (€ 0,02) na tentativa de diminuir o desperdício e criar um senso de responsabilidade ambiental nas pessoas. A natureza agradece.

- Pensam que por aqui não existem flanelinhas? Nas ruas de Lisboa é comum vê-los orientando onde estacionar. Nem se compara à quantidade existente no Brasil, é verdade. Porém a "qualidade" é de Primeiro Mundo. Entre um e outro cliente, os guardadores portugueses selecionam os fados preferidos em seus ipods;

- Vi a primeira irregularidade no trânsito a ser combatida. Parou em lugar errado lá vem o policial trancar a roda do veículo e lacrá-lo. É isso mesmo: além de não permitir a saída do automóvel, o oficial ainda trata de colocar uma bela fita amarela enfeitando-o. Algumas pessoas preferem abandonar o carro no local a pagar a multa...

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Sobre a comida, o idioma e as mulheres

Duas coisas, especificamente, têm atiçado a curiosidade das pessoas que encontro no ambiente virtual: o idioma e as mulheres. Aproveitando o ensejo, vou falar da comida também.

Não que vocês tenham curiosidade ou que isso lhes interesse. Acredito que pouco importa saber o que almocei ontem ou vou lanchar em breve. Mas vá lá... é um assunto que tem me fornecido observações bacanas.

O bacalhau é realmente uma delícia. Tive o prazer de experimentá-lo em lugares distintos, o que dá uma credibilidade ao veredicto. Os quitutes salgados e doces também são formidáveis. As confeitarias são um espetáculo a parte, tanto pro paladar quanto pros olhos. Mas meu "porto seguro" mesmo é a comida do refeitório da faculdade.

Alguns devem estar com aquele pré-conceito usual. Pois o rango é uma maravilha e super em conta. Anotem: por € 2,15 você tem direito ao prato do dia. E ele nunca está só. Já almocei peixe, bife ao molho madeira e carne de porco. Sempre com arroz, outro acompanhamento e salada. Pensam que é isso? Na bandeja pode se acomodar ainda uma sopa, pão, fruta (que sempre pego e deixo pra comer depois), refresco e sobremesa.

Ufa, haja apetite pro banquete! É bom pra dona Sandra saber que não passo fome. Quer dizer, enquanto ainda tenho dinheiro...

***

A língua portuguesa é de fácil compreensão. Com o tempo, o ouvido fica mais e mais treinado, e nem precisa fazer esforço para captar a mensagem. Daqui a pouco, incorpo o "pá" no meu vocabulário.

Já estou a abolir o gerúndio e tentando (ops!) substituir algumas palavras do brasilês. Não é perder as raízes, apenas me incorporar ao dia-a-dia deles, ora pois. Ainda escorrego muito no "aqui", que por acá não tem espaço, e outros termos parecem um tanto perdidos no meio das minhas frases. Camisola, em vez de camiseta, é dificílimo. Cueca para roupa íntima feminina, nem pensar. Mas tudo é questão de prática.

Quanto às raparigas, admito que há certa dificuldade em encontrar uma bonita. Hoje foi um dia bom, diferente dos anteriores: vi várias na faculdade e na rua. Elas são muito charmosas e têm estilo, mas falta aquela beleza natural a que somos acostumados - mal-acostumados?

O que soube de Portugal é pra tomar cuidado com as "cheinhas". Sim, as mulheres rechonchudas. A teoria de um amigo é que elas mandam nos Joaquins e Manuéis. Se me envolver com uma, fiquem atentos para data do casório. É tiro e queda, homem nenhum escapa. Serei, então, daqueles maridos submissos - um típico personagem rodriguiano.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Curiosidades lisboetas (2)

- O europeu tem uma maneira própria de se vestir. No frio, então, eles escancaram o armário e promovem combinações que às vezes dão certo, outras não. Engraçado que o frio nem chegou direito e já ocorre o desfile na rua. Enquanto isso, um brasileiro passeia de all-star, bermuda e camiseta;

- Falar em all-star, ele é valorizado aqui. Um par custa, no mínimo, € 60. Ou seja, dá pra comprar quase três no Brasil;

- Caros também são as havaianas e o protetor solar. Em compensação, na Zara, Springfield e outras boas lojas é possível encontrar excelentes roupas por um preço muito camarada;

- Dois grandes shoppings em Lisboa valorizam o tema "navegação". O Vasco da Gama está no Parque das Nações, local construído para Expo-98. O Colombo fica ao lado do Estádio da Luz, casa do Benfica;

- Fui a um no sábado e a outro no domingo. Tenho somente uma palavra para descrevê-los: globalização;

- Ainda no ramo de compras, não me deparei com nenhuma grande rede de supermercado. Visitei duas "conveniências" de quadra: o Pingo Doce e o Bonjour. Em ambos, existe uma valorização bacana da marca própria. Ao contrário do Brasil, os produtos são baratos e de primeira qualidade;

- Pois nesses minimercados aprendi que nunca se pede presunto no balcão, senão vão achar que se pretende levar pra casa um cadáver. Melhor solicitar 200 gramas de fiambre;

- E que medo de virar presunto dá ao comprar a água Penacova.

Estão todos comigo

Num dos primeiros dias em Lisboa - ainda um pouco desadaptado e um tanto ansioso -, olhei ao meu redor e senti um orgulho danado do Brasil. Tenho raros acessos patrióticos como esse. Pra ser sincero, não os tenho. O amor e a satisfação de ter nascido em solo tupiniquim superam qualquer necessidade de demonstrar o sentimento.

Mas, enfim, falava do ímpeto nostálgico a que fui vítima. E, ao mesmo tempo, foi um estado de espírito tão tranqüilizante e revelador. Estar num outro país, a milhares de quilômetros de casa, mostrou - por mais clichê que seja - o quanto valorizo o lugar onde vivi meu quarto de século.

Se pudesse trazer aqueles a quem amo, a quem prezo a companhia, a quem gosto de estar, eu seria feliz e pleno no local que fosse. Me carregue pra Sibéria com minha família e terei tudo que necessito. Arrume uma temporada no Afeganistão com meus amigos e vou tirar de letra. Que vá pra Cocalzinho de Goiás com minha amada e será maravilhoso.

Pois aqui, às vezes sou arrebatado pela vontade de dividir espaços e momentos com as pessoas que estão longe: castelos e igrejas com a Di, estádios com meu pai, atalhos e ruelas com minha mãe, cervejas e papos sobre mulheres com o Matheus, restaurantes e hábitos com o Paulista, sinucas com o Felipe, livros e música com o Diogo, fofocas com a Jana e a Taty, piadas com a Cynthia e o Fábio, passeios nos parques com a Karine, almoços divertidos com a Ci e a Boo, conversas malucas com o Gruba, cafés e poesia com a Dani...

No imaginário, estão todos comigo.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Sobre a adaptação e a vida acadêmica

Dizem que não somos ninguém por estas terras e assim passamos a valorizar mais as nossas raízes. Verdade que me sinto um estranho muitas vezes, mas isso não me incomoda. É bom ser diferente e sentir-se quase como um observador da rotina alheia.


As novidades que se constroem para mim, dia após dia, são a força para se integrar à cultura deles a meu modo. Não quero ser parte do todo, nem ao menos representar minorias. Gosto e quero ser apenas eu – sem estereótipos, rótulos ou convenções. Assim que nos façamos: seres humanos, e nada mais.


***


Estava temeroso quanto às aulas. Me formei há três anos e, apesar de não ser muito tempo, é o tipo de situação que nos sentimos enferrujados. O fato de reiniciar tudo num país estranho e num continente com tradições científica e acadêmica também trouxe um "friozinho" extra.


Contudo, as coisas são bem parecidas com o Brasil. Universidade pública não muda de um lugar para outro. Aqui existem os mesmo problemas estruturais e administrativos. O espaço da Faculdade Ciências Sociais e Humanas (FCSH) é ótimo. O campus tem quatro prédios, duas lanchonetes, um refeitório, biblioteca e livraria.


Pensei estar livre das fotocópias. Descobri que o procedimento é universal: professor deixa o texto lá e os alunos fazem fila para tirar xerox. Custa cerca de 5 centavos (ou cêntimos) a folha. A má notícia – para mim – é que grande parte do material é em inglês.


Esquisito voltar ao convívio intelectual. Admito que tenho um pouco de preguiça desses discursos engajados e essas problemáticas subjetivas/teóricas. Nos últimos tempos, estive mais próximo da sensibilidade que da racionalidade.


Ontem mesmo, enquanto a professora Graça Simões divagava sobre ciberespaço, mídia e interação, minha atenção se dedicava ao belo céu alaranjado onde o sol vagarosamente se deitava. Sou mais a poesia à academia.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Curiosidades lisboetas (1)

- Tudo na capital portuguesa é pastel: do salgado ao empanado. Pastel mesmo, igual ao nosso, eu até agora nem senti o cheiro;

- Posto de gasolina não tem frentista. É o sistema pay´n go, importado dos EUA. O cliente paga antes e põe a mão na massa para encher o tanque;

- Quando em Belém, rolava um dia de vacinação. Era domingo e os parques estavam lotados. Duro foi ter de ouvir Chiquititas na versão lusitana;

- O trânsito é rápido, mas educado. Pisou a faixa eles param – sim, em Brasília também assim. Impressionante que o respeito é estendido para o meio da rua. Normal ver os carros darem passagem aos idosos;

- Estacionamento, porém, é disputadíssimo. Por isso, a calçada é invadida sem nem pestanejar. E quem disse que existem guardas multando?

- Falar nisso, você pode estar no clarão do dia, andando calmamente, quando o sujeito na sua frente encosta na parede, saca o "gajo" dele e mija ali mesmo, dando de ombros ao pudor;

- Perguntei ao vigia de uma exposição como chegar ao estádio do Belenenses e isso deu papo para mais de 15 minutos. Entre explicações de localização de outras arenas em Lisboa, ele aproveitou para me "doutrinar": disse que todo flamenguista vira torcedor do Benfica;

- Chuva é sinal de perigo nas calçadas! Parece que se caminha em sabão. Aquela pedra fica tão lisa que andar rápido pode ter trazer um tombo no meio da passarela;

- O atendimento ao público é estranho. As respostas soam como favores. Um sorriso e uma saudação simpática até conseguem desmontá-los, mas na regra o mau-humor prevalece;

- Pasmem: café no balcão é um preço, na mesa é outro e na esplanada mais caro. Vai entender;

- Leite Ninho por aqui é Nido. Sorvete Kibon é Olá. Agora, se quiser um suco de abacaxi, a fruta se chama ananás por estas bandas;

- Erro pior é dizer que pretendes fazer um bico (no sentido de trabalho) ou então que comeu um bobó. Ambos significam sexo oral;

- Não sei se é regra, mas onde fui eram assim: o interruptor dos banheiros ficavam do lado de fora. Ou seja, acendia-se a luz pelo quarto ou corredor;

- Tão usual quanto os alunos tomarem cerveja na faculdade durante o almoço – são vendidas nas lanchonetes! – é oferecer "marijuana" na Rua Augusta, próximo à Praça do Comércio. Era por lá que as grandes navegações partiam e chegavam. Está explicado.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Pro alto e sempre!

Me situo num bairro predominantemente composto por imigrantes. Brasileiro, então, tem aos montes em Penha de França – uma localidade ao alto do morro. Os portugueses sentem um medo enorme de nós. Por conta de alguns picaretas, eles preferem ficar com os dois pés atrás para todo mundo que nasceu no país tropical.

A minha senhoria, Inácia, é uma mulher simples e aparentemente tranqüila, sem essa neurose. Já a cinqüentona Paula, amiga da proprietária e residente no apartamento há anos, além de solitária, é desconfiada. Chegou um rapaz de Governador Valadares (MG) por aqui e ela veio logo me perguntar como eram as pessoas dessa região.

Sem meias palavras, não escondeu que tem temor dos brasileiros. Às vezes acho que também teria. Não os culpo. Gente oportunista existe em tudo quanto é lugar – mas nós somos malandros ambiciosos. Ao menos minha cara de bonzinho tem sido útil. E não há nada que um "por favor" e um "obrigado" não resolvam...

***

Lisboa amanheceu molhada. Mesmo sem chapéu-de-chuva tive de sair para resolver algumas pendências na rua. Por enquanto, todos os meus trajetos são a pé. Estou acostumado com grandes distâncias e andar 10, 15, 30 minutos entre prédios e pessoas é muito agradável.

Tirei o cartão do metrô, defini meu número de contribuinte e fui almoçar com a Soraya e a Juliana. As duas são ótimas – a primeira pernambucana, esposa do Daniel, e a outra gaúcha. Devo tanto a eles – no grupo que encontrei aqui ainda tem a Camila (mineira) e o Duda (curitibano, há quatro anos em Portugal) – que chego a ficar sem jeito.

Nesta quarta começam as minhas aulas. Admito que o frio na barriga só tem aumentado. Não tenho idéia do que me espera, e o fato de estar há tanto tempo longe do universo acadêmico gera uma ansiedade.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Tumba de Pessoa

As coisas estão em ordem na nova terra. Minha senhoria – a dona do apartamento – é de uma simpatia e tanto. Voltei agora pouco de sua morada, onde fui pegar um comprovante de residência para agilizar uns papéis por acá.

Na casa há um monte de fotos. Seus filhos e netos estão em tudo quanto é parte. Não sei bem quantos são, mas ela tem um orgulho danado do clã. O marido, Alberto, deve ser seu segundo casamento. O sósia de Hebert Vianna é mais novo que Inácia, e também um português carismático que encontrei – dizem as más línguas que isso é raro.

Ontem fui a Belém, comer uns pastéis típicos da região. Dá uns 30 minutos de ônibus. Acordei às 10h, dei um jeito no quarto (mala feita é desestimulante para começar o dia) e me mandei de autocarro. Tem de pegar um na parada de Saldanha. É o número 727 e custa 1,40 euros. Desci bem na frente de um movimentado restaurante, entrei e pedi dois pastéis: 1 euro cada. Comi no balcão mesmo. O passeio só começava.

Visitei o Mosteiro dos Jerónimos em seguida. Não esperava nada e me deparei com o túmulo do Fernando Pessoa. Arrepiei dos pés à cabeça e meus olhos encheram de lágrimas. Foi indescritível, como se estivesse cara a cara com o poeta. Nunca terei experiência igual.

O decorrer do dia foi excelente. A não ser por minha máquina fotográfica, que fez o favor de descarregar a bateria. Vi uma exposição de arqueologia, visitei a Torre de Belém e o Museu das Coches (carruagens antiguíssimas), presenciei um casamento pomposo numa catedral magnânima, pisei o gramado do Estádio do Restelo – domínio do Belenenses –, me sentei diante do Tejo e peguei, de fato, minha primeira bicha em Portugal (para quem ainda não sabe, é fila).

Outras tantas curiosidades eu exponho com o tempo. E são muitas!

Hoje conheci a faculdade e descobri os horários das aulas. Também aproveitei e comprei um telemóvel pré-pago (a 20 euros, com 5 euros de bônus em ligações). O idioma tem sido fácil de lidar. Quero ver no dia-a-dia acadêmico. Aliás, a comida da universidade é ótima. Almocei bacalhau e salada. Caprichei no azeite.

Em breve devo adquirir um computador portátil. Por enquanto minhas preocupações são com emprego, abertura de uma conta bancária e fazer meu cartão passe-livre do metro (sim, sem acento mesmo, pois vem de metropolitano). Como diria uma das frases que li em algum museu que estive: "Nada educa mais como viajar".

domingo, 5 de outubro de 2008

Lar, novo lar

A sorte tem me acompanhado desde a chegada em Lisboa. Arrumei um novo lar rápido. E não é qualquer lugar: tenho minha própria casa de banho (como são chamados os banheiros por aqui). Isso é quase impossível de acontecer.

Normalmente, um grupo de três, quatro pessoas divide dois banheiros na casa. É uma das coisas que eu tinha mais receio – não costumo ser fresco, mas esse tipo de "compartilhamento" é um tanto antihigiênico, não concordam?

Pois bem, tirando o quarto, minha passagem pela alfândega foi tranquila, assim como o taxista não deu voltas e outras pequenas coisinhas deram certo. Tomara que continue por assim. Na segunda-feira (também conhecida como amanhã) vou à universidade para saber das minhas aulas. Com isso definido, minha corrida é para arranjar emprego e comprar um celular e um computador portátil.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

É hoje

No começo era: "Só em outubro". Depois passou a ser: "Dia 3 de outubro". E foi mudando: "Daqui um mês", "Em duas semanas", "Na semana que vem". Conforme corria o tempo, os discursos ganhavam novas versões: "Na sexta", "Depois de amanhã", "Amanhã".

Agora, pra pergunta de quando viajo, respondo: "É hoje".

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Listas

Meu último ano foi de listas. Na tentativa de me organizar – e não esquecer nada a fazer –, bolava pequenos guias práticos de tarefas. Caso contrário, a chance de pirar era imensa.

Já tenho um pé na loucura. Alguns vão se engraçar, tenho certeza: "Um pé não... a perna inteira!". Tudo bem, vai. Não sou dos sujeitos mais normais. Porém, o mal de eu fazer uma lista é que ela se torna um carma pra mim, e não um auxílio.

1)
Ando com ela pra cima e pra baixo, e a olho a todo momento;
2) Em pouco tempo, a coitada está toda riscada e amarrotada;
3) Tenho o hábito de dobrar tudo quanto é papel e colocar no bolso – simples de a lista sumir;
4) Logo, uma nova lista é feita. Encontro a outra e fico com duas relações;
5) Ando com as duas pra cima e pra baixo, e as olhos compulsivamente;
6) Começo a ficar agoniado que ainda existem itens a eliminar;
7) Antes mesmo de "zerar" os encargos, encho o saco e a jogo fora.

Pensando bem, esse negócio de lista mais complica que ajuda. Melhor escrever isso em algum lugar para me recordar da próxima vez.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Obrigado

Eu, que tanto me apresentei e tanto me despedi em empregos – foram sete em seis anos –, hoje vivi mais um adeus. É difícil explicar como em um semestre tudo se encaixou perfeitamente. Ir à Caixa não era um trabalho, não era penoso, não era cansativo: era satisfatório, alegre, animado.

Pensar que quase parei em outro lugar. Também foi assim com o Diário Catarinense. Fiz entrevista no concorrente, mas fui preterido. Acabei colecionando amigos e histórias maravilhosas – e inesquecíveis – no DC. Agora, deixo a assessoria de imprensa da Caixa com a certeza de que existe destino.

Mario Quintana tem uma frase formidável, entre tantas: “às vezes a gente pensa que está dizendo bobagem e está fazendo poesia”. Ao longo desses meses, dissemos várias besteiras, rimos muito e nos divertimos sempre. Enquanto isso, eram criados laços inquebráveis de afinidade e de carinho. Fazíamos nossa poesia diária – e eterna.

Obrigado. Choro em silêncio por um tempo que se foi.