sábado, 27 de setembro de 2008

Seres e saberes

Eu nem sei bem o que ando por sentir. Às vezes é tão nítido e outras vezes me foge. Há uma espécie de saudade presencial – um túnel de vento no abdome, uma trava retida na garganta.

Deve chamar-se tristeza
Isto que não sei que seja
Que me inquieta sem surpresa
Saudade que não deseja.
Sim, tristeza — mas aquela
Que nasce de conhecer
Que ao longe está uma estrela
E ao perto está não a Ter.
Seja o que for, é o que tenho.
Tudo mais é tudo só.
E eu deixo ir o pó que apanho
De entre as mãos ricas de pó.
(Fernando Pessoa)

Nunca consegui lidar direito com as emoções. As conservo demais ou de menos. Faço grande caso, estardalhaço dentro do peito e tudo parece maior que meu corpo. Sofro pelo desconhecido e por antecedência – mais que pelo presente e pelo imediato.

Em outro momento, sou frio e seco. Nada me demove, nada me prende. E, então, me vejo perdido num caminho desabitado, solitário em meio aos meus devaneios – e carências.

Disfarça, tem gente olhando.
uns olham pro alto,
cometas, luas, galáxias.
Outros olham de banda,
lunetas, luares, sintaxes.
De frente ou de lado,
sempre tem gente olhando
olhando ou sendo olhado
Outros olham pra baixo,
procurando algum vestígio
do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.
Raros olham para dentro,
já que não tem nada.
Apenas um peso imenso,
a alma, esse conto de fada.
(Paulo Leminski)

Talvez seja muita exigência minha. Ou grande ansiedade por querer tudo de uma só vez. As coisas se acertam sem eu, necessariamente, influenciá-las. Tudo tem seu tempo. De ser e de não ser. Preciso aprender a ter calma.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto,
um doce sorriso,
que me lembro ter dado na infância.
Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.
Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.
Porque metade de mim
é abrigo, mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é
platéia e a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor,
e a outra metade também.
(Ferreira Gullar)

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