quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Virar de página

Dia 31 já está aí. E pensar que um dos meus “Anos Novos” começou em outubro. O outro inicia na sexta-feira. Essa coisa de delimitar datas – ou de ir na maré efusiva da comemoração geral – não é lá muito minha praia. Quero a liberdade de poder (in)definir o que eu bem entender...

2008 passou voando. Acho que a gente entrou na fase dos fast year também, acompanhando tudo que é ligeiro e efêmero neste mundo atual. A contemporaneidade é traiçoeira, é mesquinha, é estúpida. Nos furta o tempo com a impressão de ocupação.

Estamos sempre tão cheio de coisas a fazer. E se não estamos, fingimos estar. Ninguém mais se permite ao “nada”. Pense bem a última vez em que você sentou num banco e, pronto, assim ficou. Não sacou o celular do bolso e ligou para alguém ou pôs-se a mandar mensagens ao léu. Tente rememorar a última vez que contemplou o espaço vazio – ou o espaço cheio com a mente vazia.

Bem, tomei um rumo distinto no texto. Mas essa road trip literária leva sempre a lugares interessantes. Queria dizer que em 2 de janeiro mudo de casa. Começa, então, uma nova fase nesta fase ainda nova da minha trajetória. A cada dia descubro coisas, e o prazer da descoberta é o prazer mais pleno que há.

Diante de tantas opções disponíveis para a virada, não existe um plano traçado. Daqui a pouco acerto o que vou fazer. Neste momento, só quero existir, sem pensar, sem antecipar. E que preguiça de ter de bancar o futuro... me dá o presente e já está excelente. Imprevisível mesmo, bem assim do jeito que ele é.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Recesso na inspiração


Como minha inspiração resolveu tirar uns dias de folga, descansar neste período de recesso, talvez viajar para Cancún, onde aproveita sol e mar... vou utilizar umas belas palavras de Rainer Maria Rilke para lhes presentear a entrada de um novo ano.

Para mim, é bem verdade, o ano começou em outubro. Precisamente, dia 4. A celebração que virá será mero formalismo – um ato simbólico para demarcar as convenções.

***

"Nada está mais longe de tocar numa obra de arte do que a palavras críticas. As coisas não são tão apreensíveis nem tão dizíveis como nos querem fazer crer; quase todos os eventos são inefáveis, desenrolam-se num espaço onde as palavras nunca entram."

"Confie sempre em si próprio e na sua sensibilidade; se estiver enganado, o crescimento natural da sua vida interior conduzi-lo-á lentamente e com o passar do tempo a novos conhecimentos. Deixe que os seus juízos sigam a sua própria evolução silenciosa e impertubável que, como todos os progressos, obedece a uma profunda necessidade interior, não podendo ser imposta nem apressada."

"Alegre-se com o seu crescimento, que não pode ser assistido por ninguém, e seja benevolente para com aqueles que ficam para trás, e mostre-se firme e tranquilo diante deles e não os atormente com suas dúvidas e não os assuste com a sua esperança ou com a sua alegria, que eles não podem compreender."

"Pense no mundo que traz em si e dê a este pensamento o nome que quiser; chame-lhe recordação da infância ou nostalgia do seu futuro, mas tenha atenção ao que nasce em si e conceda-lhe um lugar mais alto do que a tudo o que vê à sua volta. O que acontece dentro de si merece todo o seu amor, trabalhe nisso de algum modo e não perca muito tempo nem alento a tentar esclarecer a sua atitude perante os homens."

domingo, 28 de dezembro de 2008

Feridas do tempo

A parte física não está muito bem. A começar pelos pés. A unha do dedão direito encravou. Isso não é coisa que se diga num blogue... mas encravou, oras. E tenho de relatar a verdade, nada mais que a verdade, toda a pura verdade. Correto?

Pois bem. Dói pouco. Quer dizer, mais incomoda. Só que deixemos a unha pra lá, até porque já gastei linhas demais pra decorrer sobre um problema tão reles. É que a velhice se aproxima – e repetir as coisas é um indício claro. O outro sinal aparece nos joelhos.

As juntas têm sentido o vaivém, o sobe-desce, a maratona na cafeteria. Também, dirá um amigo, estou sempre de all-star... e convenhamos: o calçado não contribui. Sem amortecedor, o impacto nos joelhos é direto. (Consciência eu tenho, eu tenho. Juro que vou me disciplinar e largar o tão querido modelo de tênis.)

Então vamos pras mãos, porque dos joelhos aos ombros tudo está a funcionar perfeitamente. Já meus instrumentos de trabalho andam judiados. Uns esfolados aqui, uns arranhões ali. Meu dedão é que experimentou algo mais profundo: um corte. Nada tão grave assim. Enquanto limpava o lixo, um caco de vidro perdido rasgou a pele.

Sou fraco com sangue. Corrijo: com meu sangue. Descobri isso em 2005, quando o box do banheiro “explodiu” bem em cima de mim. Cortou-me o pé, e ao ver aquele poça vermelha descer o ralo, o mundo começou a apagar. Sim, caros, desmaiei. Ontem também titubeei.

Está certo, isso não contribui em nada para minha fama de machão. Mas como nunca tive uma mesmo – e a fama tende a trair o afamado –, estou tranquilo. Achei que a primeira vez seria única. Descobri que o tempo passa e o nosso corpo desenvolve cada vez mais fraquezas. (Como a minha dificuldade em digerir torresmo. E logo eu, que adoro torresmo!)

Pelo menos a cabeça segue boa. Creio eu. O coração está pleno – e não só no funcionamento fisiológico. Também não há nada a reclamar da alma. Mantém-se leve e receptiva. Meu calcanhar-de-Aquiles tem sido a parte física. Mas dou um jeito nisso... talvez os anos passem mesmo com muita rapidez.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Nomadismo

Pensei nisto agora, cá com os meus botões: tive o Réveillon 2007/08 em Balneário Camboriú, cidade a 80 quilômetros de Florianópolis. Voltei à capital catarinense e tempos depois já pegava a estrada, com dois camaradas, para Buenos Aires.

Fizemos um pit-stop ligeiro em Porto Alegre. Outro no Alegrete, terra do poeta Mario Quintana, para descansar. Terminada a aventura em terras argentinas – com direito a extorsões policiais e chave do carro perdida –, celebrei o Carnaval em Floripa, ao lado de amigos antigos e novos.

Também foi minha despedida da Ilha. Assim findou uma fase de dois anos e meio. Vendi as coisas que havia adquirido, juntei minhas trouxas, meti no Palio vermelho e retornei a Brasília. Tive direito a um fim de semana turístico – e etílico – em São Paulo, visitando um estimado amigo.

Já em Brasília, fiz aquela tradicional viagem a Goiânia, para matar saudades dos parentes. Tentei, ainda, aproveitar uns dias em Floripa, num feriado qualquer, mas perdi o vôo. Paciência. Em outubro parti para Lisboa e, por aqui, estive no Porto, Sintra, Ericeira e Mafra.

No meu consistente propósito de estar sempre em movimento, só agora vejo que 2008 foi um ano abençoado. Abençoadíssimo. Pois tenho certeza de que a próxima temporada reserva outros desejos realizados. (Ou assim espero, afinal é o tempo de se planejar e sonhar)

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Noite feliz


Que ceia maravilhosa! Mesa posta com fartura de comida, bom vinho francês, amigos reunidos, conversa animada, muitas risadas, presentes trocados, canções tocantes e, ao fim da noite, um “gordinho” da turma aparece fantasiado de Papai Noel. Ah, cenas tradicionais da festa de Natal. Parecia até filme!

(Mãe, um recado fundamental: se contente com a descrição acima. Não ultrapasse – eu disse NÃO ULTRAPASSE! – a barreira dos asteriscos.)

***

Que noite maravilhosa! Cheguei em casa depois de um dia árduo de trabalho, abri um bom vinho português, tomei um banho quente ao som de Jack Johnson, Amy Winehouse, Gotan Project, Lauryn Hill, Damien Rice, U2 e Joss Stone e fiz um macarrão ao molho branco com milho. Tudo isso só.

Bem, mesmo se disser que era o que eu queria, que estava munido de um arsenal de chocolates – ganhei da dona do café – e que em nenhum momento me senti mal, com certeza vão me tachar de irresponsável, maluco, infeliz ou coitado. O último é o pior.

E daí se quis passar um Natal solitário? Tava cansado, tava afim, tava... não preciso me justificar! Foi uma noite feliz, e pronto. Aliás, agora tenho o “pacote completo”: a virada de 2000/01 passei sozinho, por livre e espontânea vontade. Quer dizer, tive a companhia de uma pizza queimada e alguns desconhecidos no mIRC (lembram-se do mIRC?).

De qualquer modo, era o que eu precisava. Agora também quis comemorar comigo mesmo o nascimento de Cristo – ou foi a morte? Ressurreição? Algum milagre? Confesso que não sei.

Por exemplo: alguém aqui pode contar que lavou roupa na noite de Natal? Pois eu lavei. E não que despreze presenças e histórias ou glorifique a solidão, apenas trato tudo com calma e naturalidade (né, Caeiro?). Se forem pra sentir pena, nem comentem – sei que é um bocado mal-educado pedir isso, mas...

E saibam que meu Natal foi ótimo. O melhor de 2008! – e não estou a exagerar.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Então é Natal?

O Natal... Ah, o Natal... que época chata! Tumulto nas ruas, cantigas idiotas e aquele vago espírito renovador: tudo um grande pé no saco – que me desculpem pelo termo chulo. Estou ácido – e um bocado divagador. “Então é Natal... lá-lá-lá”.

Acho bonito e engraçadinho as duas miúdas que fizeram uma capela com canções natalinas à porta do café. Estavam desafinadas, é verdade, mas depois desejaram um bom dia e ótimas festas com aquele fulgor infantil. No entanto, em linhas gerais, acho essas letras e melodias irritantes.

Seja em português – entendo tudo –, em inglês ou espanhol – entendo mais ou menos –, em italiano – entendo pouco –, em francês ou alemão – não entendo bulhufas! –, elas soam como uma ode ao nada. Quer dizer, se até fosse ao “nada” ainda seria válido. É uma ode a tudo: solidariedade, amor, felicidade, afeto, respeito, amizade, carinho, blá, blá, blá...

Parecem-me temas negligenciados, olvidados, descartados, escarniçados, polvilhados, vilipendiados ao longo do ano (uau, que vocabulário! Obrigado, pai-dos-burros). Ou só lembrados agora. Do tipo: “tá bem, tá bem, fomos uns parvos nos 355 dias, mas agora vamos evocar as emoções boas e nos comportar de maneira agradável, vai...”.

Sei que não é assim e estou a dramatizar um tantão. Desculpem entrar de sola no assunto. Não é mau humor ou inveja de algo. Não é ingratidão por não ter ganho presente do Papai Noel – e me comportei tão direitinho... Nem ao menos recrimino que cantem, gravem, produzem, toquem, dancem, remixem essas canções triviais. Sou a favor das liberdades de criação e expressão.

Porém, nada me tira a certeza de que podíamos facilmente viver sem o excesso de humanismo excelso. Né, Celso? Então cesso aqui. (Ia citar as aglomerações desumanizadoras por conta das compras e outros recheios natalinos que me embrulham o estômago, mas decidi poupá-los. É meu singelo presente. Senão vocês me acharão um daqueles ativistas anticonsumismo encolerizados... Não carrego bandeiras. Elas pesam e pendem.)

De qualquer modo, bom Natal! Aproveitem a reunião familiar, os amigos e a comilança. Optem por CDs bacanas, por favor. E, depois do 24/25 de dezembro, se encham de esperança – pois um novo ano vem aí... igual ao anterior, mas diferente.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Eu, proparoxítono

Meus dias retomam o curso dos saberes e dos sabores. Eu, tão último em tudo, tão ávido e lúdico, escrevo – existo – na proparoxítona não mais como uma lástima ou uma súplica. Procuro arriscar histórias plásticas e encontros sempre mágicos. Me abrigo nos amigos cósmicos e nos amores épicos.

(A vida propôs-se em uma música clássica.)

domingo, 21 de dezembro de 2008

Medo de envelhecer


Todos temos medo de envelhecer. E lá estava um senhor, no metro, de pele enrugada e escassos fios brancos. Era um sujeito simples, a andar só – e taciturno – no despertar da madrugada de um sábado. A contraponto, jovens riam alto, gozando da liberdade reveladora de personalidades; casais enamoravam-se, embriagados pelas solidões que se enroscam; trabalhadores recolhiam-se ao silêncio, fadigados, interrompidos.

Temos medo de envelhecer. E lá estava o senhor heroicamente envelhecido. Tinha as roupas sóbrias: um casaco negro por cima de uma camisa clara quadriculada, a calça marrom e os sapatos grossos. No rosto, pendia-lhe um óculos antigo, de lentes profundas. Nas mãos, trazia uma boina cinzenta, dobrada, gasta – uma peça sentimental.

Medo de envelhecer. Como carregamos esse fardo, então melhor ignorá-lo. Fingir que não existe. Eu não consigo, e quando observei o senhor na sua conformidade anciã, tive de me enquadrar, várias vezes, a desviar o olhar. Algo naquele homem me hipnotizou: a sua paz irrequieta ou seus fortes traços a apontar uma vida contemplada palmo a palmo. Acima de tudo, marcou-me o isolamento. Deve bater ali um coração sofrido, mas inteiro e maciço.

Envelhecer. É o que me acontece enquanto escrevo o texto – e a vocês, enquanto o lê. Vejo os idosos e o ímpeto é de me projetar. Imagino como eram na minha idade. Imagino como serei na idade deles. A gente constrói histórias. Será o nosso maior tesouro? A gente divide presença. Será o pendor da vitória? O que fica? O que vai? O que transcende?

Ainda tenho um caminho a percorrer. Mas o senhor do metro, um dia, também teve. E como ele o aproveitou?

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Estreita ligação

As torneiras estão secas. Não há água no apartamento desde o início da manhã. Não há água no prédio, na freguesia toda de Penha de França, pelo que pude perceber. E desta vez nem avisaram com antecedência.

Na quarta (ou foi terça?) também desligaram os registros para a manutenção, entre 14h e 20h, mas comunicaram. Tudo bem, o prazo era até 18h, mas afinal estamos em Portugal. Cá, tal qual no Brasil, esse tipo de rigor é pouco – ou nada – seguido.

A ligação do cotidiano lusitano com o tupiniquim é muito, muito maior que à distância imaginamos. Quando falamos da afinidade entre os países caminha-se sempre para o sentido afetivo, dos séculos de relação íntima, de nossa ascendência patrícia, da mesma língua-mãe.

Essas condições, de fato, caracterizam o estreito laço de irmandade. Entretanto, não só elas. A simbiose vai além. Os hábitos e costumes são impressionantemente parecidos, desde a base às altas estruturas.

Nas conversas com amigos portugueses, isso fica cada vez mais claro – para mim e para eles. Na faculdade, por exemplo, os serviços administrativos são iguais aos do Brasil. Ou seja, caminham de modo moroso. Além disso, é normal um professor faltar por “motivo profissional” ou “de força maior”. A ausência é avisada a duas horas do início da aula.

Lá no café, a aproximação com os colegas e com os clientes fortalece a percepção. Tem quem trabalhe com afinco e quem apenas enrole – com a esperteza de fingir muito bem. Há consumidores com paciência e “jogo de cintura” para esperar e quem carregue o “rei na barriga” e desconsidere problemas. (Isso existe em tudo quanto é parte do mundo, mas as reações cá e lá é que nos aproximam assustadoramente.)

Este passeio por Portugal tem sido fundamental para eu ver coisas que ocupam, em todos nós, o plano da impressão, do puro achismo. É preciso vivenciar para entender. É preciso estar para ser.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Diante do mar...

Amigos, uma confissão: chorei ao ver o mar. Foi um pranto suave e pleno de uma lágrima solitária. Quem estava em volta nem sequer notou. Chorei calado, acompanhado do vento fino e do sol robusto. Chorei não pela saudade arrefecida, mas pelas saudades que virão; não pela distância atemporal, mas pela proximidade secular. Chorei por me tornar enorme diante da imensidão total.

Engraçado, visitei tantos sítios e paisagens belas em Sintra e me apeguei logo ao conhecido: o oceano. Pela primeira vez, porém, vivi a real sensação de estar d’além mar. Me embebi da água salgada do Atlântico pelo seu lado europeu. Descalcei-me do Brasil para pisar a areia portuguesa e despi-me dos casacos pesados para abraçar a leveza da espuma.

O auge foi na Praia Grande, mas percorremos a vila de Sintra, tombada Patrimônio Mundial da Unesco, e os seus arredores. Tudo na companhia de um amigo-morador, exímio conhecedor do local, o que engrandeceu ainda mais o passeio. Tão breve será impossível esquecer o que vi. E nem pretendo.

Diante da poesia formada aos meus olhos, me senti melhor.

Me senti.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Vou a Sintra

Comprei meia grossa, acordei às 7h: vou a Sintra.

Separei a roupa, fui dormir bem cedo: vou a Sintra.

Marquei com os amigos, preparei a mochila: vou a Sintra.

Carreguei a máquina, levantei dinheiro: vou a Sintra.

Planejei roteiros, desisti no meio: vou a Sintra.

Peguei o comboio, foi só o começo: vou a Sintra.

Viajar é o que há...

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Um rio que deflui


Pedem notícias. Notícias minhas d’além mar. Até mesmo quem está deste lado do Atlântico solicita que eu apareça. De fato, é esquisita esta fase que passo. (Será mesmo uma fase? Apenas isso? Sim... afinal, sempre é).

Os dias correm, situações ocorrem, vidas decorrem e pareço estático. Todos estudaram Física e lembram da tal explicação da inércia. O professor citava o exemplo do sujeito, parado, dentro do ônibus a 50 km/h. Tudo lá fora é movimento; aqui dentro é estagnação.

Pedem notícias. Apesar dessa sensação, estou bem. Lisboa ajuda a estarmos bem. É uma cidade com opções maravilhosas de distração. Desde andar na rua – nesta época, sob o vento cada vez mais gelado do inverno que se aproxima – a visitar galerias, espaços, centros comerciais.

Já se foram dois meses e meio e parecem anos. Praguejaram sobre os portugueses – “eles são isso e aquilo”. Que nada. A generalização é burra. E muito injusta. Há pessoas simpáticas e pessoas intragáveis aqui como há em qualquer canto deste vasto planeta. No contato do dia-a-dia, da faculdade e da cafeteria pude observar inúmeros tipos. A gente gosta mesmo é de se fazer vítima.

Tenho treinado a concentração. Os fatos externos devem me abalar cada vez menos. Minhas angústias alimentam-se de problemas originais e autênticos. Aliás, qualquer preceito deve-se partir da autenticidade... é essa a minha busca natural. De que vale o amor se não for amor, e apenas um simulacro?

Um amigo veio dizer que a sinceridade por vezes machuca. E questiono: é por isso que vamos abdicar dela? Nunca. Podemos, quem sabe, esperar o momento certo – e quando saberemos que o meu momento certo é o momento certo do outro? Teorias... na prática, as coisas são mais mundanas.

Eu quero sentir. Sem significar. Desejo me apaixonar a cada 15 minutos – e não somente pelas belas mulheres, mas por paisagens, idéiais, sonhos, emoções, caminhos, lugares, pessoas, vontades, comidas, motivos. E concretizar toda essa paixão, de modo que minha trajetória seja um rio que deflui macio e desagua no mar de serenidade.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Confusão

No meu peito reside uma confusão. São temas e lemas que não têm resposta. Às vezes me fogem, mesmo, as perguntas. O que quero saber? Por que quero saber?

Como dizia o poeta, o maior sofrimento do mundo é nunca ter sofrido. Ainda que haja frustração numa história, melhor vivê-la que omiti-la. Pena que nem sempre consigo essa espontaneidade de ousar, de tentar, de insistir. E logo eu, que escondo uma coragem audaciosa por trás de todo esse fingimento plácido.

A gente fica calejado com o tempo, e talvez esse seja nosso maior erro. O receio nos nivela. A culpa nos reduz. “Só os imbecis têm medo do ridículo”, escreveu Nelson Rodrigues – estou ausente das letras.

O sol voltou a brilhar lá fora, mas minha inspiração continua protegida da chuva. Escondida e taciturna, sem crer no presente. No meu peito reside uma confusão. Uma confusão que, de tempos em tempos, decide se apossar de mim.

sábado, 13 de dezembro de 2008

A crise mundial

Esta crise econômica, amigos, é o que ainda há de mais perturbador neste resto de ano. Sempre que falo dela, lembro do apelo triste de uma amiga.

“todos os dias os jornais noticiam demissões e mais demissões. como essa gente vai sobreviver? isso só irá causar mais violência, roubo, briga e desgraça. comecei a ficar com medo de fazer dívida. tudo anda muito instável. o meu receio é que o mundo entre em depressão econômica. se isso acontecer, teremos muito sofrimento pela frente.”

2008 já começou meio estranho mesmo, pelo menos para mim. Durante seu curso, houve vários altos e baixos. De qualquer modo, a pesar prós e contras, foi um ano esquisito. E como o tempo tem fugido cada vez mais depressa! (Ou é impressão minha?)

Abri meu e-mail e vi a notícia da demissão de 81 funcionários do Correio Braziliense, jornal de maior peso e circulação em Brasília. Da redação foram sacadas 11 pessoas. Não sei de quais postos ou quais funções desempenhavam.

Também li que outros dois diários da capital sofrem para pagar os salários em dia. O Jornal de Brasília só foi depositar os rendimentos ontem, dia 12. E daí, após três anos exclusivamente no mercado, escuto alguns discursos utópicos dentro da academia. Lógico que o espaço de debate é esse, mas me parece sempre um tanto longe da realidade – ou perto demais de um vício crítico, capenga e ranzinza.

Eu apenas procuro paixão nas coisas. Sou assim, um egoísta incorrigível.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

É bom!


É bom caminhar à noite sem rumo e em agradável companhia. Ainda mais vigiado pela lua cheia. O frio trava os músculos, os termômetros marcam 10ºC, a sensação é de menos – inclusive, sente-se o sangue gelado percorrer as veias.

É bom escutar as raparigas dizerem "bocadinho" em meio às suas conversas. Uma delícia auditiva. Observar como se vestem elegantes no inverno, e como são tímidas nos seus disfarces a um olhar contemplativo – fingem não ligar, tão mal atrizes quanto as da novela local.

É bom comer chocolate amargo e ouvir Chet Baker & Art Pepper em Resonant Emotions. Parece nos ensinar que os problemas são apenas acordes mal-tocados. Se a gente descobre uma forma de reordená-los, a confusão transforma-se numa bela melodia – às vezes a trilha sonora de uma época.

É bom receber um sorriso agradecido de um cliente. Mais que uma gorjeta polpuda, anima saber que a correria de um lado pro outro, o intuito de atender com eficiência e a pressão psicológica que desgasta podem ser reconhecidos com simpatia – a gente sorri pouco, com receio de parecermos tolos ou interesseiros.

É bom ler o e-mail da irmã, o recado no messenger da mãe, o comentário no blogue do pai. Mesmo que a vontade de abraçá-los seja enorme, sei que esse escasso contato à distância nos aproxima muito – quem sabe mais que se estivéssemos a alguns metros agora.

É bom voltar a cozinhar. Almoçar arroz e feijão com frango – e depois lavar a louça em água quente.

É bom ter meus livros de novo comigo. Até porque posso sublinhar trechos, dobrar cantos de páginas, fazer anotações – sem contar que as dedicatórias são memoráveis.

É bom planejar viagens para a próxima semana e para fevereiro. Ser perguntado para onde vou após o mestrado e dizer "não sei" – ou responder "Buenos Aires!", para surpresa do interlocutor.

É bom sentir. É bom se curar. É bom aprender. É bom se alongar logo cedo. É bom assistir futebol. É bom ajudar. É bom ser ajudado. É bom escrever.

É bom crer que amanhã será melhor que hoje.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

30 curtas

1. Saiba – e não esqueça antes dos 90 – que a sua vida é você e mais você.

2. Os riscos existem para trazer medo e desejo em cada passo que damos. Sem eles, as escolhas seriam meras formalidades.

3. As nossas maiores frustrações nascem de nossas maiores expectativas. Está aí: depositar nas coisas e pessoas anseios que elas não podem, não querem ou não conseguem suprir. Faça seu tempo, seu vento e sua trajetória. Não dependa, não espere. Também não se ofenda, nem se desespere.

4. Minha vida é uma maré cheia, que lambe a areia levemente e absorve toda a sujeira de volta pro mar.

5. A solidão é uma emboscada.

6. Viemos ao mundo e o deixamos exatamente do mesmo jeito.

7. Minha vida é um misto de passado e futuro. Nunca vivo o presente.

8. A alma é aquilo entre você e o outro.

9. O adeus é transcendental.

10. O peso que meu pensamento tem pro mundo, eu levarei pro túmulo.

11. Escrever é expelir palavras. A tarefa de organizá-las e dar um sentido é do leitor.

12. Antes o desvario dos sonhos à aridez da realidade.

13. A gente passa a ser sincero quando entende que a vida é uma só.

14. Ser fiel ao outro é, antes de tudo, uma fidelização ao próprio eu.

15. É por estarmos cercados de culpa que acabamos iguais.

16. Amar é eternizar a vida; é a morte.

17. A solidão é o maior dos ensinamentos. Se nos permitissem o isolamento, não haveria conflito e destruição; só arte.

18. Eu só quero ser sincero na minha tristeza. Porque a melancolia é muito mais heróica que a alegria – esta ninfa promíscua.

19. Uma vez estive triste e me repreenderam. A tristeza, esse sentimento pacífico, se transformou em raiva.

20. Mentira! A felicidade é inventada!

21. Encarar a adversidade de frente pode até não resolvê-la, mas com certeza a dissolve.

22. Há tantos males no mundo que sofrer com os próprios é encarado como sacrilégio.

23. “E eles viveram felizes para sempre.” O livro então acaba e morrem as personagens.

24. O sofrimento é a sorte de poder andar pelo caminho mais longo.

25. As convicções são de natureza efêmera.

26. Utilidade e futilidade estão separadas por uma letra.

27. Quanto mais penso no futuro, menos me vejo nele.

28. O amor é a bendita – e única – forma de imortalidade.

29. A derrocada do tempo ocorre quando dois corpos se entrelaçam de modo perfeito.

30. Só tem medo da morte quem teme a vida.

domingo, 7 de dezembro de 2008

... do futuro

Caminhava pelas ruas, debaixo da chuva titubeante, apressado sem saber porquê, com a visão retida a adiante, a ignorar vidas e mortes, sonhos e desalentos, que todos têm sorte, e também retêm sofrimentos, tentando entender em vez de existir, tomado por melindres, ausente de sentir... quando me bateu uma intensa saudade, como se um tapa metafísico explodisse em minha face. Um senhor murro. Era saudade do futuro.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Sobre Natal, Réveillon e poesia

Época de união e solidariedade. É assim quando nos aproximamos do 25 de dezembro. Me perguntam onde vou passar o Natal e respondo: “Juro que não sei”. Pode ser em qualquer lugar ou em lugar nenhum. Não é revolta pela data, rebeldia pela exploração do mercado. Ah, passei dessa fase – a gente se torna menos azedo ao longo dos anos.

A dúvida é porque nem pensei mesmo que em 2008 teria estas coisas. Desembarquei no Velho Mundo achando que um Novo Ano já havia inciado. Mas tempos depois ouvi as pessoas falarem de réveillons em Roma, Paris, Madrid, Londres, Vladivostok. E se viravam a mim para saber onde comemoraria a passagem. Err... Lisboa? Pode ser?

Por alguns minutos houve a possibilidade de confraternizar o Natal no Porto. Por alguns dias houve a possibilidade de festejar a virada em Sevilla. Porém vai ser por aqui mesmo, sem a perda do fator “novidade”. Tenho de viver a cidade em sua totalidade. Que venha 2009!

***

Andei distante da poesia. Não propriamente por desgaste ou asco. Já disse – e se não disse, digo agora – que os versos são minha religião. Ou melhor, minha fé. Hoje relia poemas que escrevi e me reconectei com “eus” anteriores. Aliás, que se escondem e reaparecem.

Em abril inaugurei um blogue de rabiscos poéticos, e a intenção era mantê-lo incógnito. Para uma ou outra pessoa eu indicava o endereço. Para os desconhecidos, o cartão de visitas era mais distribuído.

Ou seja, não o queria divulgar de boca cheia – mas também nunca rejeitei o filho. Hoje acordei com vontade de gritar poemas ao mundo e a força que me impele a dividi-los com todos é enorme: Inutensílio do Mundo. Não que sejam bons versos, mas são feitos com autenticidade.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Porto, a Londres lusitana


“Acho que houve um engano, senhor. Comprei o bilhete pro Porto e vim parar em Londres.” Mas ele respondeu em português e percebi que estava tudo okay – ou melhor, ôquei. Apesar da chuva fina, da neblina insistente e de todo o clima bucólico típico da capital inglesa, desembarcara mesmo no Porto. Para ser mais específico, na Praça da Batalha.

O local tem uma imponente estátua de Dom Pedro V e, ao redor, o Teatro Nacional São João e o abandonado Cine Águia. Os dois edifícios são parecidos: antigos e magistrais. A cidade está toda decorada para as festas de Natal, entretanto confesso que os pingos doces atrapalharam uma melhor contemplação.

Porto é simpático em sua enorme pequenez. Me pareceu uma minimetrópole – e foi isso mesmo que confirmou um carioca que conheci no metro. O botafoguense morou entre fevereiro de 2007 e deste ano na freguesia de Campanhã, próximo ao Estádio do Dragão. O escasso tempo e, mais uma vez, a intimidante chuva não me deixaram visitar a arena do FC Porto.

Fiz um bate-volta para levar os documentos de um amigo – Rui, ilustre visitante deste espaço – que solicita a equivalência do diploma de Medicina na Universidade do Porto. Em meio ao calhamaço de papéis, faltou o atual Programa de Pós-Graduações e Mestrados da UnB. Um detalhe que valeu a recusa do recebimento do pedido.

Essa burocracia vai se tornando parte do cotidiano. Ontem fui renovar meu visto de estudo/residência no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), mas também não pude. Devo voltar a 30 de dezembro com o contrato original de arrendamento do apartamento onde moro. “Só” tinha a cópia. Paciência. Melhor dançar conforme a música que ser expulso do baile.

Engraçado que a rápida viagem me deu uma saudade de Lisboa...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Esperas

Esperar. Está aí o princípio de muitas ofertas da vida. A gente tem de exercitar a paciência, seja num romance, na carreira ou na travessia da rua.

Mas vamos cutucar essa psicologia de botequim – ou de blogue mesmo. Qual é a linha que divide a serenidade do conformismo? Quando termina a parcimônia e inicia a acomodação? Existe barreira entre a paciência e a desolação (ou desilusão)?

“Quem espera sempre alcança”, ensina o provérbio. E, ao mesmo tempo, escutamos dizer que “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Oras, a qual deles seguir? A esperança é a última que morre ou é a primeira que mata?

Eu fico mesmo com o instinto, com essa voz interior, o saber da alma – mais sensato que qualquer ensimanento de fora. Afinal, os ditados são meras casualidades para tudo o que quisermos legitimar.

Ps.: Decidi escrever sobre o tema após assistir ao filme A Casa do Lago. Tem outra película que trata também da paciência no amor: Diário de uma Paixão, um dos preferidos de minha irmã. Na literatura, sou fascinado pelo mito da Odisséia, que conta a saga de Ulisses e Penélope.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A vida que me lambe o rosto

Como há coisas que nem Freud explica, vou me eximir de tentar. Apenas divagarei, devagar e sempre – que é o tempo do papel. De modo grosseiro, posso rotular de masoquismo essa perturbação que me aflige desde os... deixa eu ver... 16, 17 anos.

No entanto, como vocês são pessoas finas e estudadas, esqueçam a definição mal-ajambrada. Recorro a algo mais lúdico, literário, poético. Recorro a Rainer Maria Rilke:


“Sabemos pouco, mas que temos de nos ater à dificuldade é uma certeza que nunca nos abandonará; (...) que uma coisa seja difícil deverá ser mais uma razão para a fazer.”


Dito isso, tirem as mães de frente ao computador. Ou basta tirar a minha, que deve ser, aliás, a única mãe a ler este blogue (Ci, não te excluí). Troquei o conforto de casa, os mimos do lar, a tranqüilidade domiciliar, pelos apuros da rua. Coisa boa. Afinal, foi assim em 2005 – e superei, amadureci, sobrevivi. Não há modo mais autêntico de sentir a vida lamber-te o rosto.

Parece loucura, eu sei. Para os que se surpreendem com a minha coragem (por favor, não há nada de corajoso nisto!), digo que trocar a família pelas aventuras é um estímulo implacável. Meus pais me criaram para o mundo, e percebo o orgulho deles em me ver longe. Aperto? Saudades? Receios? Lógico. Porém morar em um quartinho, andar de autocarro e metro, equilibrar as contas do mercado, trabalhar oito horas a servir mesas, caminhar debaixo de chuva e voltar para casa ensopado e cansado à meia-noite... tudo isso fadiga, mas é real.

Não sei explicar o porquê, já falei. Nem Freud. Quando estive em Florianópolis também houve renúncias, complicações, desgastes (físico, mental e emocional), altos e baixos, momentos ruins. Situações que me ensinaram a continuar aprendendo. E com naturalidade e calma, se me permite o Fernando Pessoa. Às vezes me pego a rir sozinho das condições a que me submeto. Uma risada até um pouco macabra.

Só que as riquezas que a gente leva em nosso roteiro são as nossas histórias, e tento colecionar diversas com as quais me reconheça – e acalme uma alma inquieta por excelência. Há uma frase de juventude que nem sei quem é o autor, mas vire e mexe ressurge: “Busco o impossível, já que o possível pode esperar”.

Para fechar, mãe (sei que prosseguiste no texto), mostro uma passagem em vídeo do livro Mar Sem Fim, do Amyr Klink. Tem tempo que quero compartilhar estas palavras. Chegou o dia.

sábado, 29 de novembro de 2008

Até já...


Foi numa noite de maio, creio eu, que mandei mensagens de celular para o Matheus e o Paulista. Tinha sido arrebatado pelo sentimento de morar em Floripa de vez, assim que voltasse ao Brasil. Nem havia saído do país tropical, mas sabia que a vinda a Portugal ia se concretizar. Estipulava, com eles, que em cinco anos a gente se encontrava na Ilha da Magia.

Essa vontade permanece. Às vezes forte, às vezes a afogo em racionalidades profissionais. Do tipo: o mercado de Santa Catarina paga mal, existe pouca valorização interna e externa e o potencial de crescimento é pequeno. E daí? – penso na contramão de tudo isso. E daí, se o que importa, mesmo, é a paixão... e sou apaixonado pela cidade.

Costumam me perguntar o que vou fazer quando acabar o mestrado. Lembram-se do: “o que você vai ser quando crescer?” ou “qual curso vai escolher no vestibular?”. Pois bem, a resposta é tão incógnita para a interpelação atual quanto foi para as questões pretéritas. E temos de saber alguma coisa? Tenho certeza que não.

Planos eu tenho. E comecei a escrever este texto para dizer que, ontem, a sensação de que vou para Floripa após minha temporada européia veio com toda a força. Eu e a capital catarinense nos entendemos. Tem muita história em torno de suas praias, ensolaradas ou sob um vento frio apaziguador, cheias ou desertas, aos fins de semana ou em plena segunda-feira.

Minhas lembranças vagam pelos breus da alma por ser aniversário de um querido amigo (já citado aqui: Matheus). Temos um acordo. E meu melhor modo de desejar felicidades e parabéns, é dizer-lhe que pretendo cumpri-lo. Até já...

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Efeito dominó

Todo dia de aula (e são três vezes por semana), passo pelo Estádio do Alvalade, casa do Sporting. Na quarta-feira o clima era de luto nas redondezas. Encontrei com vários torcedores do time português no metro. O «verde e branco» saía de uma humilhação diante do Barcelona: 5 a 2.

O mesmo placar do recente triunfo brasileiro sobre Portugal. Cristiano Ronaldo, aliás, é venerado na terra de Cabral. Estampa várias campanhas publicitárias – contra apenas uma do mito Eusébio. O médio-avançado do Manchester United é ainda mais deus na Ilha da Madeira, onde nasceu.

Pois os Tugas levaram de cinco do Brasil, o Sporting tomou cinco do Barça e só faltava o Benfica. Passado condicional. Ontem, em Atenas, o clube mais popular de Lisboa foi arrasado pelo Olympiakos: 5 a 1. A capa do diário A Bola já diz tudo...

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

"Você disse que morreria por mim"

Revirava sentimentos e redescobria textos quando deparei com algo que escrevi em junho deste ano, para o Dois em Xeque. As inquietações de agora, que eu tento me libertar pelas palavras – ou apenas as faço adormecer? – já foram contempladas por mim nessa época.

"Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver." (Alberto Caeiro)

***


A voz rouca de Lauryn Hill. O grito áspero da dor de um amor que não deu certo. Ex-Factor é o nome da música. Mas no início tudo ainda é desolação branda, um abatimento sereno: "It could all be so simple, but you'd rather make it hard" (Podia ser tudo simples, mas você prefere dificultar).

Sim, preferimos tornar mais complicado, transformar a relação em um jogo leviano e mesquinho – "a silly game". Amar se aprende amando, ensinou Drummond, só que parece que não temos tempo e vontade para colecionar esse tipo de conhecimento. Há coisas mais importantes, certo?

Por conta de dispêndios – e frustrações – materiais, familiares, profissionais, sociais... seja lá quais forem, desconta-se a expectativa de "redenção" na pessoa que escolhemos ter ao lado. "If I lack love, then I have nothing at all/I can give away everything I possess" (Se me falta amor, então não terei nada/Posso jogar fora tudo que possuo). É outra música dela. Chama Tell Him e fala do amor paciente, altruísta, crível, maduro. "Love is not boastful and love is not loud" (Amor não é orgulhoso nem barulhento).

Não sei a fórmula da união perfeita. E se descobrisse, desconfiaria de imediato. O perfeito nunca vai existir. Enquanto perdemos anos nessa busca, o que realmente importa vai embora despercebidamente: a autenticidade. O amor, e qualquer movimento que nos faz sair do lugar, precisa de autenticidade.

Volto a Lauryn. Ela suplica essa autenticidade nos versos finais de Ex-Factor. "Care for me, care for me/I know you care for me/There for me, there for me/Said you'd be there for me/Cry for me, cry for me/You said you'd die for me/Give to me, give to me/Why don't you live for me?" (Se importe comigo/Eu sei que você se importa/Lá por mim/Disse que sempre estaria lá por mim/Chore por mim/Você disse que morreria por mim/Dê pra mim/Por que você não vive por mim?)

A força com que enfatiza, roucamente, "You said you'd die for me" é de arrepiar. Acreditamos que morreremos pelo amor. Antes, porém, o matamos. Me faz lembrar Nelson Rodrigues e sua dramaticidade funesta: "Quem nunca desejou morrer com o ser amado nunca amou, nem sabe o que é amar".

Somos Romeus, eternamente atrás de nossa Julieta.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Deixe-me viver


O dia se arrasta, lânguido e pernicioso. Tem mais que 24 horas. Horas que teimam em não passar. Mas ao fim, parece que foi outro que as viveu. Me sinto como se estivesse fora do meu corpo, a observar tudo que faço.

Não é uma experiência transcendental, algo do além. Nada disso. O automatismo que me puxa pelo pé é diferente – ajo mecanicamente sem agir, sou o mesmo sem o ser. Talvez a falta de trabalho produza essas memórias oníricas. A falta de me sentir útil, a falta de um lar, a falta de um romance... carências que se misturam a outras carências.

Queria lapidar frases que me explicassem, e só alcanço a inconclusão.

Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza. (Gabriel García Márquez)

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Pátria que me pariu


A temporada em Portugal tem me ensinado muito sobre o Brasil. Não é por conta da ligação afetiva, das raízes históricas e esse blá-blá-blá todo que a gente fala e escuta – e nem precisa pisar cá para compreender.

O que Portugal ensina é o que eu poderia encontrar aí mesmo em território tupinambá, seja no Enecom (Encontro Nacional dos Estudantes da Comunicação), no carnaval de Salvador ou em Copacabana: a diversidade de conterrâneos. Já conheci gente de tudo quanto é canto do país, de Fortaleza a Porto Alegre (versão diminuta do Oiapoque ao Chuí).

Para começar, o casal que me “adotou” – Daniel e Soraya – é pernambucano. No mesmo apartamento, moram a gaúcha Juliana e a mineira Camila. O quarteto arrematou as amizades do Duda, fiel representante de Curitiba, e do Vitor, natural de Piracicaba.

Ainda do interior paulista, há outra Juliana, de Ribeirão Preto. A Rebeca, colega de curso e de casa, veio do sítio mais “próximo” daqui: Fortaleza. O Ismael, brasileiro que também divide a moradia, nasceu em Governador Valadares, cresceu em Vitória e estava em Brasília. Já a Luzia deixou o sufocante calor de Cuiabá pelo clima aprazível de Lisboa.

A Thaís e o Rafael, ambos cariocas, eu conheci rápido – em entrevistas de emprego. O Marcelo, terceiro mineiro da parada, assiste à aula de sexta. Atendi a uns brasileiros no café – famílias, casais, solitários viajantes –, e todos eles, posso afirmar, vinham de lugares distintos.

Bom saber que meu objetivo de absorver ao máximo o ambiente cultural português e europeu ganha uma nova e instigante dimensão. Milhares de quilômetros longe do Brasil, aprendo mais sobre a pátria que me pariu.

***

O que tem de chinês aqui não está no gibi. E de indiano também. Às vezes, parece que quem fala português é minoria.

domingo, 23 de novembro de 2008

Ímã de garotas (ou íman de raparigas)

Se tem um dom que não se aprende na escola, que não está nas cartilhas, que não se ensina no Telecurso 2000, esse dom é o da atração. E podem as mulheres se pintarem, os homens malharem, que não há – tudo é placebo, pílula de farinha.

Vou apelar a como os franceses descrevem: je ne sais quois (um não sei o quê). Desculpe lá – agora como dizem os portugueses –, mas notei que possuo esse poder. E foi num simples intervalo de trabalho, enquanto observava despretensioso o vaivém de pessoas no shopping.

Ganhei um tchauzinho e um sorriso. Assim, só na troca de olhar. Sou mesmo um íma de garotas! Garotas que ainda usam fraldas. Porque os “cortejos” femininos foram enviados por pequenas coisinhas que não atingem os três anos de idade.

Esse é o meu genessequá. Gero um fascínio indecifrável nas crianças. Até hoje não sei se é por conta da minha cara de bobo ou de guri. As meninas fixaram os olhinhos em mim e chega fiquei sem graça – os pais as chamavam e nada. Umas lindas.

A que me deu tchau parece ter começado a andar há pouco tempo. Ia aos tropicões pelo caminho. Da outra, recebi uma risada gostosa. Sem que eu sorrisse antes. Foi assim de graça, espontânea e verdadeira.

Essas situações já fazem valer o meu dia.

***

Nunca escondi que o mestrado em Jornalismo é pretexto para eu estar em Portugal. Mas acho que essa “doutrina” tem indo longe demais. De algum modo, a cúpula da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Nova descobriu tudo e resolveu boicotar minha turma.

Nesta semana, tivemos apenas uma aula. Na quarta, a professora Cristina Ponte foi roubada – no próprio campus! – e cancelou o seminário. Na quinta, a professora Graça Simões alegou um contratempo profissional e dispensou os alunos. Só mesmo o professor Adriano Duarte é que assumiu a (contra)postura de lecionar.

Tudo bem que sempre defendi a “doutrina” com veemência xiita, porém não imaginei que fosse ter represália da universidade. Que coisa!

sábado, 22 de novembro de 2008

A humanidade em Douradores

Às vezes há tanto para se dizer, que não cabe em um texto – muito menos na minha cabeça. Mas fica maçante se virar um relatório e a determinação é poupar os leitores. Vou tentar ser objetivo sem ser superficial. A experiência jornalística há de contribuir nessa tarefa.

Já escrevi a umas páginas atrás sobre as aulas das sextas-feiras. São as melhores, as mais instigantes, provocativas. O nome oficial da cadeira não lembro, porém pouco importa. Procurem pelo nome do professor e verão que o gajo é valorizado: Adriano Duarte Rodrigues.

Pois estou a desviar do foco. Mencionei a aula de sexta para dizer que normalmente depois dela, ainda com o cérebro a mil, vamos ao Chapitô – uma escola circense-bar-restaurante. O lugar é fenomenal, com uma vista magnífica para o Tejo e para a Praça do Comércio. Aliás, a iluminação de Natal enfeita Lisboa de modo singelo e divino.

Assisti ao meu primeiro fado. Um espetáculo lindo. Durante as canções, todos param e escutam com respeito. É falta de educação conversar ou transitar em frente aos músicos.

Antes disso, por acaso, estive na famosa Rua dos Douradores, no Chiado, sítio que ficou marcado em muitos fragmentos de Fernando Pessoa em O Livro do Desassossego. Me deparei com uma placa bem grande "Antiga Casa Pessoa".

Vejo-me no quarto andar alto da Rua dos Douradores, assisto-me com sono; olho, sobre o papel meio escrito, a vida vã sem beleza e o cigarro barato que a expender estendo sobre o mata-borrão velho. Aqui eu, neste quarto andar, a interpelar a vida!, a dizer o que as almas sentem!, a fazer prosa como os gênios e os célebres! Aqui, eu, assim!...

E, se o escritório da Rua dos Douradores representa para mim a vida, este meu segundo andar, onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte. Sim, a Arte, que mora na mesma rua que a Vida, porém num lugar diferente, a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver, que é tão monótona como a mesma vida, mas só em lugar diferente. Sim, esta Rua dos Douradores compreende para mim todo o sentido das coisas, a solução de todos os enigmas, salvo o existirem enigmas, que é o que não pode ter solução.

Quantos Césares fui, aqui mesmo, na Rua dos Douradores. E os Césares que fui vivem ainda na minha imaginação; mas os Césares que foram estão mortos, e a Rua dos Douradores, isto é, a Realidade, não os pode conhecer.

Serei sempre da Rua dos Douradores, como a humanidade inteira.

(Tinha mais coisas para lhes passar e as passagens relidas do poeta português inebriaram minha mente. Deixa para outro dia. Temos tempo.)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Obrigado, pai


Desculpe expor assim o que era para ser um agradecimento privado. A verdade é que o blogue tem me consumido. Consumido meus sonhos e os tornado num só: de um dia ter isto publicado em capa dura, ilustrada, com orelha, perfil e prefácio. Prefácio que talvez contenha as suas palavras.

Desculpe escancarar algo nosso, mas um e-mail seria insuficiente para dizer obrigado pelo presente antecipado de Natal. Até porque há outras dádivas, muitas outras, que nunca tive oportunidade real – e coragem visceral – de agradecer.

Como o gosto pelas letras. Herdei de ti a paixão por romances, poesia e jornalismo, além da aptidão pela escrita. Irônico que pouco soube desse seu enlace com a literatura e me surpreende cada citação, memória e conhecimento que apresentas. O que está diante dos nossos olhos normalmente é o mais difícil de se enxergar.

Meus amigos sempre tiveram liberdade contigo. Obrigado por esse espírito leve. Te sacaneavam e curtiam, como se fosse pai deles também. E eu me sentia orgulhoso, porém confuso, quando elogiavam a sua sabedoria. Acho que de tão parecidos, elaboramos uma distância entre nós.

Porém foi você quem me encaminhou a Nelson Rodrigues, lá nos meus 12, 13 anos. Talvez nem saiba disso, e eu mal compreendia àquela altura o impacto que o Anjo Pornográfico causaria na minha trajetória. Escrevi sobre o fato há alguns meses:

O primeiro livro do Nelson Rodrigues que tive nas mãos era uma coletânea de crônicas esportivas, chamado Fla-Flu: E as multidões despertaram. Esse livrão de capa preta, vermelha, verde e branca tem uma história bacana, do imaginário infantil. [...] cheguei a acreditar que o Fla-Flu era um exemplar único e exclusivamente meu, que eu dispunha de uma raridade na estante.

Ele estava no escritório do meu pai. Um dia o velho chegou com o presente, dizendo que tinha o encontrado entre umas petições. As fotos antigas e os recortes de jornal do início do século 20 davam um caráter pré-histórico àquelas páginas.


Sentei e folheei o livro como quem é apresentado a uma nova vida. Desde então, passei a guardar o tesouro, escondendo dos outros que o possuía, achando que Nelson o escrevera excepcionalmente para meu pai.

Lógico que depois a ficha caiu e a fantasia ruiu. Até hoje, só sei de uma pessoa que tem a obra e, de certo modo, ainda prefiro pensar como quando eu era criança.


Admiro muito essa admiração que as pessoas têm por ti, seja parente, amigo, colega ou aluno. És amado por onde passa pois não distingue ninguém e está sempre a cativar com uma piada, um causo contado, um sorriso. As manifestações são honestas justamente porque você transborda honestidade.

Obrigado por me ensinar a ser assim também: puro. Lembra quando a pediatra falou que eu era “todo engraçadinho” por conta das brincadeiras durante a consulta? Respondi que ela devia conhecer você, pai. Hoje, quase duas décadas depois, replico a mesma frase para qualquer qualidade que me adjetivem. Sou, várias vezes, espelho espelho seu.

Foi você que me fez um apaixonado por futebol, e ficava à beira do gramado a gritar o que eu devia e não devia fazer como jogador. Me enlouquecia. Mas era um companheiro de táticas, de técnica e de quando as coisas saíam do lugar. Nunca esqueci do jogo em que invadiu o campo para me proteger de uma briga que provoquei.

Ainda pequeno, eu e a Di íamos ao seu escritório passar a tarde, recordas? Era esquisito ver o homem de bigode sério, engravatado, compenetrado – diferente do pai brincalhão, que jogava bola e dava corda no mini-bugue. Lá, conhecíamos outro você. Peguei cacoetes e trejeitos seus – inclusive o da seriedade no trabalho –, e às vezes me deparo com eles, assustado pelas nossas semelhanças.

Peguei também o ímpeto de viajar. Quando resolvi sair de casa, aos 22, noivo e para uma cidade nova, desconhecia as suas objeções. Não sei nem se eram bem objeções, ou medo. No entanto, você sempre me apoiou, mesmo ressabiado. Vendi o carro que havia me dado e parti.

Assim que decidi retornar, fui acolhido na sua casa de braços abertos. E acolheu desde o princípio o meu intuito de sumir de novo no mundo, nesta aventura d’além mar. Sem você não estaria onde estou, cumprindo mais um desejo de minhas inquietudes.

Por isso quero agradecer muito além do presente antecipado de Natal. Muito além de todas as bolas, carrinhos, camisas de futebol, livros, passeios, jantares que me deu. O que recebi de ti ao longo da minha história, e ainda recebo – basta lerem os deliciosos comentários neste espaço –, são os (e)ternos ensinamentos para a vida.

Mais que tudo: obrigado, pai.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Já fui mais alegre

Já fui mais alegre. Hoje, sorrio menos. A maioria das vezes sozinho, lembrando do passado. Sorrir faz bem, dizem. Assim como ser leve. Coisa que foge um pouco ao meu jeito. Sou crítico e perfeccionista, e me cobro muito por isso. Organizado ao extremo – no plano externo. Porque aqui dentro é uma bagunça. Tanto de sentimentos quanto de pensamentos. Amo esportes. Vibro e me emociono com eles. Em Copa do Mundo, Olimpíada e Pan-Americano a empolgação é maior.

Tenho medo da morte. Sou cético e isso me machuca. Não acredito em nada, só no nada. E procuro sentido, para não fazer da minha vida um vazio. Mais que da morte, tenho medo do vazio da vida. Quero fazer tudo ao mesmo tempo e minha ansiedade e impaciência atuam contra mim. E me ajudam a ser desajeitado nas relações sociais. Sou reservado e ruim com as palavras faladas. Escondo isso. Me considero bom nas palavras escritas. Só que em vez de abrir, acaba por me fechar portas.

Adoro pipoca e chá mate gelado. Tem pouca coisa que odeio comer. Experimento de tudo, para ter condição de dizer se aprovo ou não. E mesmo rodeado de pessoas, às vezes me sinto sozinho e desamparado. Reflexo da atualidade. Meus medos giram em torno da palavra errar – outro reflexo da atualidade. Já disse: sou crítico e perfeccionista. Odeio ser chamado a atenção, fazer papel de otário, magoar as pessoas. Há situações em que minto pelo bem dos outros. Devia pensar mais em mim. Mas me acho egoísta por pensar assim. Devia mesmo pensar mais em mim.

Sou fanático por futebol. Vejo, nesse jogo de regras simples, muitas explicações para nossos dramas e tragédias reais. Pena que tudo se tornou mais negócio e menos brincadeira. Quando criança, tinha temor que o futebol acabasse, que as pessoas parassem de jogá-lo – ou que os homens fossem trocados por robôs. Também não gostava de pizza e de queijo. Sou um sujeito muito mais fechado hoje que aos 8 anos de idade. Acho que meus problemas não devem aborrecer os outros. Mas absorvo os problemas dos outros. Ouço música para me acalmar e para me agitar. Tomo banho à meia-luz quando quero clarear as idéias. E dá certo. Demoro a pegar no sono. Acordo cedo e disposto. Vejo pouca TV – não tenho paciência.

Acho que nasci na época errada, e se tivesse em outra época, acharia a mesma coisa. Queria ser jogador de futebol e sou jornalista. Quando faço esporte, esqueço do mundo. Tenho vontade de sumir. Mas quem não tem? E também tenho vontade de ter filhos e criá-los como o melhor pai possível. Receio falhar, é verdade. Bebo para me ajudar a ser espontâneo. Também não acho isso legal. Dirigir me tranqüiliza, assim como lavar louça e caminhar. Gosto do mar. Sou desprendido de bens materiais e choro com filmes e ao ver outra pessoa chorar.

Não entendo a intolerância e o preconceito e acho que as pessoas perdem muito tempo com preocupações mesquinhas. Também não entendo como existe tanta gente com a mente fechada. Procuro sempre compreender o outro lado. E é um exercício difícil, mas necessário. Adoro canjica e isso lembra a minha madrinha. Cural e biscoito de queijo também. Amo meus pais e minha irmã, embora fale isso tão pouco a eles – e deveria falar mais. Às vezes fico confuso com a dimensão do meu pensamento, e nem consigo explicá-lo. Apenas sei, sem saber o que sei e como sei. É doloroso conviver com ele. Machuca, acelera os batimentos e chega a pirar.

Tenho saudades de várias coisas – inclusive do futuro. Acho que sou velho e vivi pouco. Me cobro mais sabedoria. Me cobro menos entendimento. Gosto do número 13 e de ler Fernando Pessoa e Nelson Rodrigues. De comer com colher e beber em caneca. Queria saber o motivo de estarmos aqui. Parece meio vago. Certa vez, disseram: o que importa é a presença. As histórias também. Quando vejo uma criança, sorrio. Fui aprendendo a ser calmo e natural com o tempo. No entanto, já fui mais alegre.

[Texto de junho de 2007]

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

%$#%&$ internet!

Não pensem que o trabalho venceu a batalha e me fez de refém durante o fim de semana. Produzi tal qual nos tempos do ócio, o longínquo e áureo período de ficar de pernas pra cima. Foi a dona internet, essa mesma, que resolveu folgar no sábado e no domingo, ora pois! Passei os dois dias a brigar com a conexão banda larga da Zon TV – ou seja lá como chama.

Tudo bem que o serviço se mostrou capenga em um mês de uso, mas agora ele superou o recorde olímpico de ineficiência. E continua mais pra lá que pra cá... Verdadeiramente aconselho aos visitantes do blogue entrarem na justiça por danos morais à não-publicação dos textos. Nem é tanto pelo conteúdo; pensem no dinheiro – e lembrem-se de mim.

Escrevi algumas coisas que a validade expirou. Deixa guardado. Uma noite reativo as idéias.

***

Depois desse rodeio, vou falar do horário de descanso na cafeteria. Descobri a melhor maneira de usar a pausa obrigatória e merecida. A primeira metade da hora faço a refeição na própria loja.

A gente tem direito a tudo: da pastelaria variada aos sanduíches e torradas; do espresso ao chocolate quente e capuccino. De barriga cheia, vou à livaria Bertrand, escolho um bom livro e relaxo numa confortável poltrona preta. Como Quintana sugeriu: o chá é mais espiritual e o café, mais intelectual.

***

No domingo diversifiquei. Dei uma volta no Centro Comercial das Amoreiras e sentei em um banco fashion do passaredo, verde e amarelo, ondular e incômodo. Sentei perto de um senhor que dormia feito neném.

Enquanto ele sonhava de olhos fechados, eu o imitava desperto. Mas nem era bem um sonho que tinha – foi mais um devaneio. Fiquei a observar os casais que passeavam e uma convicção me abateu, feito pedra de estilingue num cambaxirra: é preciso muita afinidade, muita empatia, muita sintonia e muito conforto para querer a vida ao lado de alguém.

Casados, namorados, pretendentes iam e vinham nos corredores cleans do shopping, e vi pouco – ou quase nada – de amor. De amor como o evocam: singelo e espontâneo. Tinha paixão dos recém-ligados, carinho do companheirismo, responsabilidades de família. Mas minha análise é leviana e distante – ou então o amor é apenas tudo isso.

O que me derrubou foi pensar no meu caos. Digo, caso. E emergiu aquele misto de certeza e medo, esperança e inquietação, vontade e dúvida. A gente simplesmente sente, desde o início, que pode passar o resto da nossa trajetória com outra pessoa ou o laço na saúde e na doença é firmado dia após dia, após dia, após dia?

Eu já tenho a minha resposta. O senhor a cochilar no banco também.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Sobre termômetro e paixões (ou frio e quente)


Agora sim começamos a falar de proximidade do inverno! Pela primeira vez nestes 40 e poucos dias, a temperatura cá ficou em um dígito. Suportei bravamente – com uma camiseta, dois casacos e cachecol – os 8° da rua. Tende a cair ainda mais...

***

Sempre fui homem de paixões reprimidas – ou escondidas, se preferirem. Ao mesmo tempo que a covardia me impede de anunciá-las, a poesia as canaliza. Drummond afirmou que o único amor possível é o impossível. Oscar Wilde defendeu que o mistério do amor é superior ao mistério da morte. Pessoa escreveu que amar é não pensar, e não pensar é a verdadeira inocência. Já Rainer Maria Rilke apontou o seguinte caminho:

Amar não tem de início nada a ver com abrir-se, entregar-se e unir-se a uma outra pessoa, é antes uma ocasião sublime concedida ao indivíduo para que ele possa amadurecer, tornar-se qualquer coisa dentro de si, tornar-se mundo, tornar-se mundo para si em nome de um outro, é um imperativo grande e imodesto que faz dele um eleito e o chama para a distância.


***

Lisboa é cidade de mulheres agradáveis e bonitas, mas bué difíceis. Se a paquera já costuma ser um jogo de quebra-cabeça, por aqui existem mais peças que o usual. Tudo começa pelo olhar – e é onde termina também.

Raramente elas retribuem o flerte. Não é porque não gostaram de serem apreciadas; é por conta de uma certa “culpa católica”. O prazer da carne é um desejo pecaminoso. Às vezes a situação chega a ser divertida: ao cruzar com uma bela mulher, olho bem fundo nos seus olhos. Ela nota e disfarça. Fico à espera de um sinal – uma virada de rosto ou algo assim –, mas não o recebo. Ainda assim, dá para perceber o impacto.

Uns amigos relataram o costume local dos “10 cafés” (óbvio que há exagero no roteiro). Dizem que para arrematar uma portuguesa é necessário paciência de Jó – traduzida nas intermináveis 10 saídas. Bom, isso para se ganhar um beijo...

Desconfio que o verbo ficar não seja tão conjugado cá quanto no Brasil. Será isso uma valorização feminina ou influência da Igreja e dos valores tradicionais/conservadores? O certo é que os “zucas” (da abreviação de “brazucas”) não têm lá uma fama muito boa nesta terra. Pior ainda são as mulheres tupiniquins – os adjetivos vão de fáceis a putas.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Vontade e desordem

Essa noite estive febril e delirei: o blogue virava livro.


Escrevo sem ordem, sem pretensão, sem conseqüência. Escrevo com causa – mas ainda não sei se por uma. Às vezes sou tomado por um mundo de utopia, um mundo de fantasias inconsistentes.

Não sei para quem escrevo ou com que finalidade, mas me sinto tranqüilo. As coisas lá fora é que me inquietam e angustiam. Sinto que a vida, ao contrário do que eu mesmo penso muitas vezes, é uma força impressionante e devemos saber lapidá-la da melhor maneira.

Perde-se muito tempo com bobagens. Vê-se muita injustiça, intolerância e maldade. Tenho um misto de vontade e desordem dentro de mim. Existem coisas que não precisam ser lidas, basta senti-las. E quanto mais penso, mais me desespero.

Nunca perdi o rumo, mas também nunca soube direcionar a embarcação.

[Texto de julho de 2005]

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Mais peripécias de um empregado de mesa

Domingo, fim de tarde: Um casal chega ao café e me prontifico a atender. Pergunto se precisam do menu. Ela insinua que não, pois já sabe sua escolha. É brasileira. Ele é português e franze a testa, pensativo. Com agilidade de um ninja, alcanço o cardápio na mesa ao lado e lhe entrego: “Pronto senhor, para eliminar qualquer dúvida”.

O homem, então, me solta a réplica: “Por que não entregaste a carta primeiro à senhorita? Os bons modos são esses”. Oras, ela não havia dito que tinha certeza do que queria?! Não foi ele quem hesitou no pedido?! Pois bem, quase enrolei o menu e ia elaborando uma rima. Também, quando decidiu pelo suco de laranja eu lhe disse que a fruta estava ácida. Só faltou completar: “Assim como o senhor. Agora, com licença” (olhando para ela, lógico).

Domingo, em torno de 21h30: Três garçons ociosos conversam besteira. Um rapaz no auge de sua afirmação pseudo-adulta solicita um capuccino e um mini-croissant de chocolate. O capuccino acompanha chantilly, mas o chantilly acabou. O colega pergunta se pode ser sem. Aí começa: ele não gosta da notícia, faz cara feia, revira-se na cadeira e opta pelo café. Vai à mesa o mini-croissant em pão-de-leite.

Falha nossa. Basta trocar. Simples, não? Ele o-deia o equívoco, faz nova cara feia, dá chilique na cadeira e enfatiza que pediu um mini-CROISSANT. Problema corrigido, lá vai o colega servi-lo, pela terceira vez. Vejo o cliente levantar-se subitamente, ir ao balcão, perguntar quanto deu a conta – no fim de tudo, foi só um café –, pagar e sair batendo o pé.

Descubro que o recheio do mini-croissant tinha de ser com pedaços de chocolate e não em pasta, tipo Nutella. Como diria uma amiga: «ema, ema, ema... cada um com suas neuroses».

Um apanhado socioeconômico: O Centro Comercial das Amoreiras é muito frequentado por gays e pela elite lisboeta. Por isso, é normal atender casais homossexuais e grã-finos. Minha tatuagem fica sempre escondida debaixo de uma manga comprida.

A abordagem é cerimoniosa. Raramente os clientes trocam uma conversa informal comigo. Não que sejam mal-educados, mas é que o clima, por si só, parece não permitir. Engraçado, né? Ainda assim, existem as comemoradas exceções. Como a da senhora, velhinha velhinha, que aguardava vagar uma mesa e puxou papo.

Em outra cena, um senhor com seus 60, 70 anos me perguntou o que eu fazia para “deixar” a barba escura. Bem-humorado, queria a fórmula para seus fios brancos desaparecem. Se espantou quando eu contei que tinha muitos cabelos alvos também. “Mas és tão jovem”, argumentou. “É genético”, respondi. Culpa da família Franco de Carvalho.

Entre uma simpatia e outra, consigo boas gorjetas. Um senhor me deixou 1,15€, a senhora sem mesa agradeceu a atenção com 1,10€, e de centavos em cêntimos o dinheiro vai enchendo a caixinha – o total é dividido, no fim do mês, entre os empregados. Mas o melhor extra foram “modestos” 0,60€ de uma elegante balzaquiana.

Ela ficou cerca de uma hora na cafeteria. Bebeu um chá verde com menta, comeu uma torrada de pão alentejano, leu sua Vogue e foi-se, levando as sacolas de compras. Ganhei a gorjeta, um charmoso sorriso e a convicção de que este emprego, meus caros, vai ser melhor que eu imaginava!

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Dois marroquinos

“Dois marroquinos”. Foi esse o meu primeiro pedido atendido no café. Dois marroquinos? Olhei para os lados e vi portugueses, moçambicanos, angolanos, caboverdianos e brasileiros. Sei que há muitos indianos e chineses por aqui também – uma recente pesquisa apontou que apenas 15 países integrantes da ONU, dos 192, não têm cidadão em Portugal –, mas nada de marroquino por perto.

Logo pensei que a dona trabalhasse pro mercado de tráfico internacional. Ah, sabia! O salário estava bom demais para dois dias de trabalho como empregado de mesa. Os imigrantes devem estar presos num galpão no subsolo do shopping, a condições precárias.

Ainda assim, encaminhei o pedido ao balcão. É meu dever. Cogitei acionar os Direitos Humanos, a Unicef, o Capitão Planeta... mas o melhor mesmo é não questionar. O casal queria dois marroquinos? Levaria aos dois “saidinhos” o que haviam solicitado: uma camada de chocolate quente, café e cobertura de chantilly. Eis o marroquino.

A mão tremeu um pouco e outros pedidos vieram. Às vezes um sobre o outro, bagunçando o número da mesa que o fez e o que era. Pior são algumas especiarias típicas daqui e, de certo modo, inexistentes no (meu) Brasil. Queijada já ouvi falar, mas confesso que só ouvi. Agora queque... foi novidade total.

Um senhor irritou-se comigo. Foi no domingo, segundo dia da saga. Já estava mais tarimbado e me virei bem quando o café encheu e estive sozinho como garçom. Porém o tal cavalheiro, acompanhado da Sra. Cara de Poucos Amigos, pediu um batido de chá de frutos não-sei-o-que-lá com baunilha. É lá algo que se peça, ora pois?

Fiz que compreendi e pedi ajuda aos colegas. Omiti o “batido”, por não tê-lo entendido da primeira vez. A expressão deles foi de igual surpresa e dúvida. Voltei à mesa 6, pedi desculpas e disse que eram tantos pedidos que havia me esquecido. O caro senhor levantou-se e foi me mostrar que tratava-se de gelados (sorvetes). Pronto.

As duas bolas foram servidas. Só que péra lá, ainda não era isso! O sujeito mais uma vez pôs-se de pé, caminhou taciturno até o balcão e esbravejou para a gerente que havia pedido um “batido” e eu não sabia o que é um “batido” (sim sim, um milk-shake; agora é fácil).

Eu devia era ter batido nele!

– Tá aqui, ó... POW! SOC! UFF! PLOFT! PUM!

Mas atender público é assim mesmo. É preciso exercitar a paciência e a auto-estima. Por isso, a única moral que deixo neste espaço tem a ver com respeito e boas maneiras: use e abuse. A gente dá menos importância que deveria. Eu tenho a consciência leve – e, modéstia parte, colecionei umas gorjetas por investir nesses princípios.

***

Outras histórias virão com o tempo. No fim de semana inaugural já foram muitas. A que conto agora não tem a ver com o novo emprego. Estava no metro, domingo, e mãe e filha brasileiras conversavam animadamente.

Dava para ver que a mãe tinha vindo visitar a cria. E a gaja contava causos e percalços da vida lisboeta. Falava sobre os amigos que fez, o local onde mora, as festas que foi. Senti um aperto no peito e tive vontade de lágrimas de saudades pela primeira vez no Velho Mundo.

Estar longe de quem amamos é difícil sempre, mas principalmente quando queremos dividir as descobertas. Então sentimos que a distância é a forma mais nostálgica – e dura – do gostar.

domingo, 9 de novembro de 2008

A volta do cão voador

Assim que abri a porta e tocaram-se os sinos, lá veio ele a abanar o rabo e seguir meus passos pelo corredor. Das escadas, o cheiro não escondia o retorno e minha obrigação volta a ser a de olhar fixo pro chão quando caminho. Trata-se do exercício de manter as solas limpas.

Havia duas semanas que Fly, o cão em trajes de raposa, ou de hiena, estava fora. Sim, ele parece qualquer coisa entre um e outro animal desses, com seu focinho alongado e a pelagem manchada. Mas uma versão geneticamente alterada: os hábitos caninos permanecem, enquanto os saltos são de canguru.

Porém parece mais comportado. Leve impressão. Deram um corretivo nele? Não sintam pena aquelas gajas que acreditam que ele tenha problema em uma das pernas – como aparentou-me na primeira vez que o vi. É tudo uma mentira que não tive coragem e chance de corrigir. O diabinho é um saudável quadrúpede de quatro patas.

Agora, ainda ei de descobrir como pula tão alto. Já cogitei que seja da família Hypolito, que tenha aprendido ao ver o Michael Jordan atuar, que calce molas até! Nada disso parece adaptável ao Fly. O certo é que o cão voador voltou – e não há mais paz na hora da refeição.

sábado, 8 de novembro de 2008

Fé no café

Sábado e domingo passam a ser os dias oficiais do café. Não que eu vá consumir a bebida quente em grande quantidade – apesar de aqui tomar pelo menos uma caneca por dia, com o acréscimo de canela –, mas porque fui chamado para um trabalho temporário numa cafeteria.

Se tudo correr bem, serão dois meses de serviço de balcão e de mesa, entre 14h e 23h. A Cacao Sampaka (http://www.cacaosampaka.com/) é uma rede espanhola e em Lisboa fica no chiquérrimo Centro Comercial das Amoreiras.

Dizem que café e jornalista sempre andam juntos... decidi levar isso mais a sério ainda.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Crônica de um emprego perdido

Se fosse eu inglês, nascido e criado em Camden Town, este texto não existiria. Se estivesse no Brasil, trabalhando em Floripa ou em Brasília, este texto tampouco teria vida. Mas estou em Lisboa e sou um gajo tupinambá à desenfreada procura de trabalho.

Se não fosse por isso, teria facilmente levantado do recrutamento da Starbucks, pedido mil desculpas e me dirigido à segunda entrevista do dia. Se não fosse isso, antes de tudo, não teria concordado em marcar dois encontros com somente uma hora de diferença entre um e outro. Deu no que deu: esta crônica.

É nessas horas de aperto que um ditado popular sempre vem à nossa mente. Muitas vezes mais de um. Lembrei de “o apressado come cru” e “mais vale um pássaro na mão que dois voando”. Pois bem, a agenda da manhã começou às 11h30.

Em meia hora tudo estaria decidido na Starbucks. Isso que pensei. Tempo ideal para pegar o metro na Baixa-Chiado, trocar a linha Azul pela Amarela em Marquês de Pombal, descer no Campo Pequeno, caminhar alguns quarteirões e, pronto, chegar à Chilli Beans. Porém, devia ter contado esse meu itinerário a um dos participantes da dinâmica de grupo.

Aos 42 anos, formado em Artes Cênicas, Paulo tinha a preocupação imensa de ser excluído do processo seletivo por conta da idade. Sem exagerar: ele fez 2.342 indagações sobre o tema e explicou 5.589 vezes o motivo das perguntas. Além do que, tudo era razão para um comentário, uma pausa, um adendo. E eu lá, quase para esganar o protagonista da tragicomédia. Resumo do ato: saí do local às 12h30. Correndo.

Primeira coisa foi ligar para o entrevistador da Chilli Beans, senhor Vasco Nunes. Com esse nome também... bem, esquece. Avisei que atrasaria. Ele perguntou quanto. Disse que chegava em breve. Ele quis exatidão. Repliquei 15 minutos, mesmo sabendo que o prazo era impossível. Nem se tudo andasse bem eu conseguiria.

E não andou. Peguei o metro. Errado. Troquei de vagão. Voltei para onde tinha partido. Aguardei um bocado pelo próximo. Saltei em Marquês. Corri até a linha Amarela. Mais uns cinco eternos minutos de espera. Entro. Passa a estação de Picoas, de Saldanha, eis o Campo Pequeno! O relógio já perto das 13h.

Saí do subterrâneo, olhei para um lado, para o outro e... estava perdido. Havia deixado o mapa em casa e, por mais que lembrasse o nome da ruela (ninguém saberia informar), não tinha idéia para que lado caminhar. Atravessei a rua, decidi seguir em frente. Dei meia-volta, resolvi arriscar para a esquerda. Liguei para o Vasco:

− Peço mil desculpas ao senhor, mas errei a linha do metro e agora estou completamente perdido. Tenho muito interesse na vaga e queria saber se ainda há tempo da entrevista. Aliás, o senhor já almoçou?

− Sim, já almocei. Não há mais o que fazer. Façamos assim: ligo-te outro dia para remarcarmos. Com licença. Adeus.

Duvido que vá ligar. Retornei desolado, a passos curtos e cansado de tanta pressa. Quase pedi uma injeção letal a uma das três estudantes de Medicina que sentaram próximo a mim, no metro. Não, elas eram bonitas demais. Preferi a contemplação. Quem não tem óculos escuro...

A grã-fina de Nelson e os vizinhos barulhentos

As crianças... ah, as crianças são tão lindas no frio. Saí cedo porque sou bem masoquista e quis enfrentar o gélido clima de Lisboa às 8h30. É o horário de os pais largarem os miúdos na escola ou na creche. Todos com roupas bem quentes, das mais clássicas às mais modernas.

Uma menina, perto dos seis anos, desfilava com um sobretudo azul que deixaria a Gisele Bündchen com uma inveja danada. Outra, mais nova, mais loirinha e com um corte superestiloso, tinha a meia-calça (ou segunda pele) em tom vinho. O tênis all-star branco e a saia jeans completavam o visual fashion.

Minha manhã foi mesmo de “garota”. Depois das observações de moda infantil, fui aprender sobre perfumes. Ou melhor, em como trabalhar numa perfumaria. Coisas de quem está desempregado. A palestra de formação – a respeito de marcas e frascos, abordagens e posturas, roupas e modos – foi gerida por uma típica personagem de Nelson Rodrigues.

A senhora, muito chique e requintada, me fez recordar nas três horas de blá-blá-blá a “grã-fina das narinas de cadáver”, que perguntava no Maracanã lotado quem era a bola. Sim, ela tinha um nariz distinto, curioso, de esqueleto. Deve ser sobrinha, filha, neta... algum parentesco com a musa inspiradora de Nelson.

Por falar nele, minha dissertação será sobre a relação de suas crônicas esportivas (ou crónicas desportivas) e a literatura. Já comecei a me debruçar no tema e em breve posso felicitá-los com uns trechos. Aliás, peço serenidade de todos que visitam este espaço: vai ter uma época em que não falarei n'outra coisa que não nesse bendito trabalho. Paciência.

Outro porém de Nelson me veio à tona agora, por conta dos vizinhos de cima. Ele deve bater nela! Ora, não se espantem. Como escreveu o Anjo Pornográfico, «toda mulher gosta de apanhar, o homem é que não gosta de bater». Ou então os resmungos abafados, os gemidos incontidos, os gritinhos agudos são porque o gajo larga a tampa do vaso sanitário levantada, deixa cerveja cair no sofá, reclama da sogra... Tudo isso sempre à noite, em torno de 22h.

Estranho, né?

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Um mês

Quase aos 45 do segundo tempo, lembrei que completo um mês de vida portuguesa hoje. Exatamente: hoje. E irei comemorar? Se abrir uma garrafa d’água e comer um pão com geléia (de frutos silvestres, uma delícia) é uma celebração, então cá estou.

Passou rápido ou devagar? Passou. Vivi muitas coisas nestes 30 dias e aprendi várias lições. Foi interessante colecionar diferenças sutis entre culturas tão próximas e, ao mesmo tempo, tão distantes. Lisboa é uma cidade fenomenal, com seu clima ótimo – não falo apenas da meteorologia – e tudo perto e fácil.

Quando vim não sabia o que iria encontrar. Lembro perfeitamente da sensação de andar nas ruas pela primeira vez, quando deixei as malas no albergue em plena manhã de um sábado vazio e fui caminhar sem rumo. Era misto de euforia e novidade. Estava em Portugal, na Europa, perto de países que, 10 horas atrás, estavam a léguas de distância.

O que irei me deparar daqui pra frente pouco importa. Foi um mês e tanto. E como está num texto que dizem ser do Pessoa (mas duvido): “Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo...”.

Curiosidades lisboetas (7)

- Se não foi a primeira coisa a me instigar a curiosidade, deve ter sido a segunda. A terceira, no máximo. As placas de automóveis têm uns números à direita que eu sabia ter a ver com data de algo. Mas meu parco raciocínio lógico nem foi capaz de perceber: é o ano e mês de fabricação do automóvel.

- Tem gente que soma os dígitos da placa, tem gente que procura coincidências. Meu hobby entre os veículos de Lisboa, com essa informação superútil, é analisar o estado de conservação. Carro velho é até normal (mais que eu supunha), mas eles quase sempre estão bem cuidados.

- Vocês são inteligentes e cultos, então já devem saber quais são os nomes portugueses para ônibus, trem, metrô e bonde. Mas não custa repetir. Respectivamente: autocarro, comboio, metro (de metropolitano) e eléctrico.

- No último post do Curiosidades, esqueci de uma gíria de origem africana que circula entre os jovens patrícios: “bué”. Significa “muito” e juro que estou me esforçando para incorporá-la ao meu vocabulário. Então se eu falar ou escrever “bué fixe”, “bué giro” ou “bué” qualquer coisa, não me repreendam. Ficarei bué grato.

domingo, 2 de novembro de 2008

Morte ainda sem ser

Por conta dessas minhas andanças – que nem são tantas assim –, uma das missões impossíveis que tenho ainda em vida é reunir todas as pessoas que amo e curto estar junto. A lista é modesta, mas verdadeira: tem gente em Brasília, Florianópolis, Goiânia, Porto Alegre, São Paulo e até Roma. Agora passa a receber novos adeptos no Velho Continente.

Os pequenos “adeuses” que distribuo ao longo desse vai-e-vem irredutível me recompensa com grandes “olás”. É igual a coração de mãe, oras: sempre tem lugar para mais um. Queria eu fretar um vôo da TAP e trazer todos para um fim de ano, um feriado prolongado, um dia bem aproveitado.

Se calhar, vou forjar meu velório. É uma excelente idéia, apesar da ironia em só conseguirmos juntar aqueles que gostamos após a morte. O risco que corro nesse plano mórbido é não aparecer ninguém.

***

Vou me sentir no Show da Xuxa, mas quero mandar um beijo para meus antigos colegas de Caixa Econômica. Não faço campanha política nem estou a prevenir um provável velório vazio, é que falei com a Cynthia na sexta e prometi esse “alô”.

Leitores assíduos do blogue, fiquei sabendo que é o Túlio quem noticia quando tem um post novo. Obrigado, meu caro. Este mês transfiro a grana da comissão mais cedo. Quanto ao Fábio, por favor, sem piadinhas para me substituir. Seu tipo de humor é outro. E Jesus, obrigado pelos e-mails carinhosos.

Prezada Cy, cuida da turma. Valeu por atender um sujeito que prefere “não se identificar”. (Sissa, sabia que você era apaixonada por mim, mas não imaginava que sonharia comigo.)

sábado, 1 de novembro de 2008

Sobre o Voip, a faculdade e cerveja

Descobri o Voip e resolvi ligar para um bando de pessoas. Fiquei restrito à família e alguns grandes amigos de Brasília. Foi divertido ouvir a surpresa deles em receber uma chamada do outro lado do Atlântico. A tal tecnologia é mesmo uma coisa moderna.

Meu pai – participante assíduo do blogue e figura já prestes a ter um fã-clube, por conta de seus comentários sempre espirituosos – veio me indagar sobre a faculdade. “Como é? E as aulas?”. Fiz mea-culpa, afinal são tantos assuntos novos que o cotidiano acaba por ser negligenciado.

Para não limitar a dúvida tão-somente ao meu velho, que é professor universitário, a Janaína (colega de graduação no Ceub) já pediu, há tempos, fotos do campus. Puxa vida pessoal, tenho vergonha de sacar a máquina entre pombos e gente e agir como um turista japonês acadêmico. Vou ficar devendo os registros, mas acreditem na minha breve descrição.

A Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa é igual a qualquer uma brasileira. Sem pôr nem tirar. Os muros são pichados, as salas mal-acabadas, os estudantes “espaçosos” – ainda mais na Comunicação –, as fotocópias lotadas, a biblioteca aquém, o CA bagunçado e uns bichanos circulam no local. A diferença fundamental é que vendem cerveja na cantina. E isso é uma dádiva!

Duas situações banais para ilustrar: na quinta a aula terminou mais cedo porque a luz acabou. Apenas a luz do campus. Ficamos no escuro – o que até não foi tão ruim. No dia seguinte, chega a informação de que estávamos dispensados: o professor faltaria. Antecipei o fim de semana. Ou seja, qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência.

Mas como sou partidário da frase «quem faz o curso é o aluno», costumo ir todo dia à faculdade. Sento num banco do pátio, saco um livro da mochila, abro minha cerveja e passo horas e horas a estudar...

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Curiosidades lisboetas (6)

- "Tô sim". É como os portugueses atendem ao telefone. O nosso clássico "alô" aos poucos vai sendo substituído por mim pelo "sim?". Preciso me inserir na cultura, ora pois.

- Durante a conversa (ao menos as formais), nunca vai se ouvir do outro lado da linha um "você" ou "senhor". Curioso. Eles tratam sempre pelo nome, como se lidassem com uma terceira pessoa.

- Para desligar, outra expressão diferente: "com licença". Bem educado.

- O nosso coloquial "então" ou o afirmativo "certo" tem um parente na língua portuguesa de Portugal. É o "pronto". Tem nativos que a cada frase utilizam a palavra duas vezes. E ela serve pra tanta coisa que não estou pronto para listá-las aqui.

- Me divirto mesmo é com uma espécie de "é" alternativo (por assim dizer). Quando concordam com o que você diz, soltam um "yá, yá!". É bacana.

- Um amigo patrício matou a charada: "Nós cortamos as vogais na hora de falar". De fato, eles emendam as consoantes (treine em casa e poderá se passar por um legítimo português). O mesmo gajo comentou que entende muito bem o que os brasileiros dizem. Já os africanos, às vezes parecem usar um outro idioma.

Daqui cinco anos

Esta é boa. Em uma das três entrevistas de emprego que fui ontem (arrisquei ser carteiro, florista e atendente de cafeteria), a proprietária do local questionou onde eu me imaginava daqui a cinco anos. Sorri de imediato e elogiei a pergunta – enquanto ela marcava um ponto de interrogação azul no seu papel de anotações.

Oras, se nunca pensei em morar em Lisboa, se metade das coisas que aconteceram nos últimos cinco anos nem mesmo foi sonhada, como tentar antecipar a próxima meia década? Tive de ser sincero, em vez de responder as palavras bonitas que ela certamente gostaria de escutar.

– Veja, sempre fui muito organizado e tentava planejar minha vida com perfeccionismo e exatidão. Mas se alguma coisa saía dos trilhos e não dava certo eu me perdia. Foi por conta disso então, e da minha ansiedade, que me disciplinei a pensar, no máximo, em daqui a três dias – contei.

Ela pareceu entender, mas o ponto de interrogação continuou desenhado. Sabe-se lá o que se passa na cabeça de alguém que julga importante esse tipo de questão numa entrevista de emprego. Tudo bem, como ela é a dona da cafeteria pode perguntar até a cor da minha cueca se achar relevante. Não me importa.

Mas responderia que estava sem (só para ver a expressão dela).