D'além Mar
Do Brasil para Portugal, um pouco de estórias, sensações e experiências
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
sábado, 30 de outubro de 2010
Último dia

O gajo disse isso enquanto tragava um
cigarro no Bairro Alto. Achei piada. É verdade, nunca tinha ventilado essa hipótese
simples. Fiz uma varredura rápida na memória, busquei amigos e conhecidos, e,
de fato, a regra de todo brasileiro ter um blog vingava. Era (quase) perfeita.
Só eu tenho três. Ao mesmo tempo. Já tive outros
três, em tempos diferentes. O pioneiro de tudo foi o Crônicas Esporte Clube (CEC), de 2005 – 14 de setembro de 2005,
para ser mais exato. O post inaugural
tinha o título de “Quarteto do óbvio” e falava da nova aposta de Parreira na
união de Ronaldinho, Kaká, Adriano e Ronaldo na Seleção Brasileira pré-Mundial da
Alemanha.
Ao longo do CEC, redescobri o prazer da escrita
sobre futebol. Estava influenciado por Armando Nogueira, Juca Kfouri, Nelson
Rodrigues, João Saldanha e as mesas redondas da ESPN Brasil. Conheci o Leandro Afonso Guimarães, companheiro de 7 Cronistas Crônicos, nesta fase.
Os textos de esporte duraram até o final de 2007. Em abril de 2008 surgiu o Inutensílio do Mundo, que respira até hoje. Às vezes com ajuda de aparelho. Era uma forma de expor a minha poesia, boa ou má. Uma forma silenciosa de transformar o meu lixo, a minha merda, em adubo... e fazer crescer um jardim a partir daí. Lá se vão 155 versos na “gaveta” do blog. Outros tantos (mais de 100) ainda estão guardados.
Os textos de esporte duraram até o final de 2007. Em abril de 2008 surgiu o Inutensílio do Mundo, que respira até hoje. Às vezes com ajuda de aparelho. Era uma forma de expor a minha poesia, boa ou má. Uma forma silenciosa de transformar o meu lixo, a minha merda, em adubo... e fazer crescer um jardim a partir daí. Lá se vão 155 versos na “gaveta” do blog. Outros tantos (mais de 100) ainda estão guardados.
Junto do Inutensílio
veio o Bola Rolando. A idéia era
voltar a discutir futebol em tópicos soltos – no estilo de “O livro do
desassossego”, do Fernando Pessoa. Numerava a divagação em vez de dar título.
Em três meses escrevi 41 textos. Coisas como: “Costumo dizer que o futebol se
confunde à vida. Não sei onde começa um e outro. Quem surgiu primeiro: o jogo
ou a humanidade. Leiam Homo Ludens, de Johan Huizinga. Só vai ‘piorar’ as
coisas. Somos uma partida com o cronômetro sempre rodando, ele nunca pára.
Estou aos 25 minutos.”
Calma lá. Antes de tudo isso teve o Dois em Xeque, um espaço honrosamente partilhado
com a Mayara Paz. Conhecemo-nos no Ceub, onde cursamos Jornalismo e estagiamos
na agência de comunicação da faculdade. A vontade de debater as relações e os
sentimentos levou-nos a criar o bate-papo virtual. A cada domingo uma crônica dela
(em vermelho) e minha (em azul) sobre um tema comum. A visão feminina e
masculina.
Além da agradável repercussão, era superdivertido
tratar dos assuntos. Os amigos começaram a ler e ter acesso ao que pensávamos
de mais íntimo, o que achávamos de traição e posse, quais eram as nossas
carências, as coisas que nos faziam feliz, nossos desejos carnais e traumas amorosos.
O Dois em Xeque foi uma maneira leve
de organizar os meus pensamentos emocionais, exprimir as minhas emoções racionalmente.
Larguei o blog para cruzar o Atlântico. Nascia o
D’além Mar, este D’além Mar. O
rebento foi alguns meses antes de ter a certeza de que faria o mestrado em
Lisboa, antes de ser aceito e ter o visto em mãos, antes de confirmar uma nova
guinada na trajetória. O D’além Mar me
acompanhou nas angústias e nas descobertas e, como diz o subtítulo, foi um
relato livre das estórias, sensações e
experiências de se viver no Velho Continente.
Às vezes volto a Agosto de 2008 e vou lendo com
carinho este diário de bordo. Porque É
um diário – de viagens, de aventuras, de deslumbramentos, de encontros e
desencontros, de choros, de gargalhadas, de pessoas, de lugares, de belos momentos,
de solidões reconfortantes, de obstáculos difíceis, de expectativas, de frustrações,
de convicções, de delírios, de prosas e poesias. O D’além Mar é um diário da minha alma a milhares de quilômetros do
Brasil.
(Hesitei ao escrever Brasil... “milhares de
quilômetros de casa” talvez soasse melhor, talvez fosse mais direto. Mas não: a
minha casa, descobri, é a escrita. A minha casa por dois anos foi o blog e,
hoje, decido deixá-la.)
O que quero dizer é que este é o último dia. É o
término de algo que comecei há dois anos e dois meses. Custa-me – mais que
qualquer um de vocês, caros leitores e parceiros de instantes plenos, podem ter
certeza. Tem os 7CC. Toda quinta-feira
estou lá. Mas saibam de uma coisa, como já repeti várias vezes: o adeus é transcendental, enquanto o até logo mantém a mesmice.
Em breve, invento outro blog. Afinal, eu sou
brasileiro, pá! Vale, chicos?
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Imagem poética
Roubei a expressão do título de Rubem Alves.
Além da tatuagem no braço (Tempus fugit
é o nome de um dos seus quase 40 livros), o escritor-psicanalista inspirou-me
neste outro termo: imagem poética.
Adoro a alusão. As relações que os dois verbetes
desencadeiam, juntos. Como numa engrenagem mental. Usufruo das palavras para
falar deste aperto que sufoca o meu peito nos últimos dias. Estava a pensar no tchau, em tudo que foi aqui vivido,
minuciosamente vivido, para que as recordações fossem as melhores possíveis.
Fossem imagens poéticas.
Dois anos podem ser resumidos assim: intensidade. Sei que não é o ponto
final, mas custa deixar para trás as experiências e amizades. Já escrevi sobre
isso inúmeras vezes – no papel e na minha cabeça. Já pensei e pensei e pensei
que trata-se de um até logo, de coisa temporária, de uma pausa forçada. É como
se parássemos o filme na metade para ir ao banheiro.
Meu coração está pequenino. Tenho dificuldades
em respirar – e, desta vez, não é culpa da maldita asma. É falta de ventilação
na alma, coisa que nenhuma bombinha de aerossol resolve. Estou ofegante, ansioso,
confusamente consciente de que completei meu objetivo ao vir a Portugal. Que o
superei.
Vocês foram maravilhosos. Vocês são fenomenais. Cada fragmento da minha
história lisboeta recebeu uma pincelada de beleza, um toque de graça convosco.
Desculpem a pieguice, desculpem este
texto cor-de-rosa. É que falar deste tipo de coisa sem ser meloso é mais
difícil que um mestrado na Nova.
Guardo-os na lembrança com carinho sublime. As imagens poéticas infindáveis. Bastará eu fechar os olhos e estarei a fazer
palhaçadas para todos rirem. Como aconteceu muitas vezes. E acontecerá mais outras tantas.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Olhos nos olhos
Um médico que não encara o paciente, que não
olha nos seus olhos para entender suas carências, que abdica do humanismo em
prol da frieza asséptica, que ignora a condição emocional do outro, um médico
desses está fadado à mediocridade profissional. À estupidez natural. Um médico
desses há de babar no próprio jaleco.
Qualquer criança já recebeu a advertência
materna: ― Olhe para mim quando eu estiver falando com você, moleque!
O moleque
é direito autoral, copyright da minha
mãe. Era a famosa frase que ela ralhava entre os dentes ao me pregar um sermão.
Blábláblá merecido ou não, incisivo
ou amistoso, efêmero ou eterno, o fato é que eu tinha de pousar as minhas
retinas nas da dela. E sem achar ruim ou virar a cara.
Numa fase de revolta adolescente – desculpem a
redundância –, desenvolvi um contragolpe fulminante, quase digno daquele
Arsenal campeão inglês de 2003-04. Olhos nos olhos, tensão no ar, dedo em riste
e..., sutilmente, eu franzia o nariz. Isso mesmo: erguia-o como se fosse um cão
no instante de rosnar. Apertava um pouco a vista, cerrava a sobrancelha e a
tríade bastava para deixar dona Sandra possessa. Louca de raiva.
Fiz isso algumas vezes e depois perdeu a graça.
Ou me esqueci de repetir. Talvez tenha entrado “nos eixos”. Amadurecido. Sei lá.
O certo é que aprendi a lição: olhar nos olhos da outra pessoa enquanto ela
estiver falando. Passei a valorizar o ensinamento como princípio ético da boa conversa,
da mais pura educação.
Na escola, foquei-me no olhar compenetrado. Era o
aluno atento. Minha vista percorria a frente da sala, fazia companhia aos
professores. Por respeito. Na faculdade, aprimorei a arte – e, já de barba, desfilava um ar nojento de pseudo-intelectualidade. Com as mulheres,
investi nos diálogos munidos da sinceridade da visão. Ouvia-as com a pupila,
entendia-as com a íris, contemplava-as com a alma.
Vieram as entrevistas, a vida profissional, bate-papo
com nomes conhecidos e com pessoas desconhecidas: sempre fazendo questão de ter
os olhos fixos nos olhos alheios, numa via de mão dupla de credibilidade. E passou a ser um vício
incontrolável – comprar pão, alugar um filme, pegar o ônibus, roubar um beijo... para tudo
eu fazia questão de manter olhos nos olhos.
Por isso, quando assumi o papel de paciente, achei estranho os médicos me ignorarem. Eu contava a minha história e
eles mantinham a cabeça baixa, a vista nos papéis, o interesse em tomar notas.
Um médico que se preze busca a cura no olhar do paciente. Penetra-o sem o bisturi
ou raio laser.
Quando findei o relato, com a sensação
esquisita de que fazia um favor à saúde, vi o rosto do doutor.
O par de olhos verdes do homem de branco varreu todos os lados do consultório
e, quando esbarrou nos meus, notei certo espanto. Sem nem notar, eu franzia o
nariz. Sem tirar os olhos dos dele.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
O clima
O clima. Na falta de assunto, falamos do clima.
Eu já escrevi muito sobre o clima e sobre como o clima influenciou o meu humor
em Portugal. Não só o meu – o de toda a gente. E, agora, por causa do clima,
resolvo partir.
Hoje o dia amanheceu cinzento. Um bando de
nuvens má dispostas no céu, e o asfalto estava úmido. Garoou à noite. Neste
momento já faz sol, um tímido e introspectivo sol. Mas não posso contar que será
sempre assim. Começou o Outono e daqui a nada é a estação das temperaturas
baixas e do guarda-chuva.
O clima. Na falta de assunto, falemos do clima. O
doutor pediu para eu sair bem agasalhado e cobrir o nariz com um cachecol. O ar
frio em contato com as vias respiratórias pode ser um incômodo para mim. Para
alguém que talvez cultive uma asma – e eu preveria cultivar um jardim japonês,
uma aventura espanhola ou uns charutos cubanos.
Amanhã, quem sabe, as nuvens cinzentas transformem-se
em céu limpo, em céu azul. Não me importo de o sol ser taciturno, de despontar
com certa preguiça e aquecer com parcimônia. É Primavera e as flores vão ganhar
os pátios, os quintais, as janelas. Uma coisa de cada vez – como o clima
costuma fazer.
O clima. Na falta de outras metáforas, usemos o
clima.
domingo, 24 de outubro de 2010
O que é que a vida vai fazer de mim?
Ela é sete anos mais velha que eu, e me ensinou
a ter paciência. Não que seja uma grande diferença de idade a nossa, mas pesa.
Sou urgente. Ela é serena. Já fui mais urgente. Já fui urgente e ansioso, o que é pior. Aprendi a
controlar a ansiedade – nunca totalmente, porque o frio na barriga também é vital.
Sou urgente, querendo viver várias vidas na minha vida.
Não sei por que, nem sei bem quando, coloquei na
cabeça que morreria aos 54. Meus parentes e amigos acham descabido o prelúdio. A reação costuma ser: “Deixa
de ser besta, Gustavo! Que morrer aos 54 o quê!”. Sei lá, é um feeling... Independentemente disso,
morrendo aos 50 ou batendo as botas aos 90, acho que meu jeito de levar a vida
será igual.
Conservei a paciência em estufa apenas para
continuar plantando as minhas vontades à vontade. No tempo delas. Sinceramente,
não sei seguir uma trama convencional.
Desculpem lá. É verdade: as obrigações e a rotina nascem da responsabilidade, e
às vezes me questiono o quão irresponsável sou ao me esquivar dessas coisas. Mas
é assim que me sinto pleno, que meus planos assumem vários terrenos.
A ideia é simples: a gente perde muito tempo
perdendo-se no que já está perdido. Não prego podar os compromissos; rego o comprometimento
com a existência.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Quando tudo muda
Este espaço tem os dias contados. Está mesmo
fadado ao fim. Se não ao ponto final, pelo menos a um intervalo forçado, a um
ponto e vírgula, um até logo.
Confesso que não sei o que farei com o espaço. Lá se vão mais de dois anos de
convivência. Tudo mudou agora – e os relatos vão perder fôlego, assim como eu.
Em breve, cruzarei o oceano de volta. Não porque
quero, vejam lá. Mas porque tem coisas que a gente simplesmente não controla. E
assim a vida faz graça, por mais desgraçada que seja a piada que a vida nos
conta. Estou tentando absorver, como sempre, as sutis palavras do poema de Caeiro
– aquele que já cansei de repetir, que já repeti até cansar, que li numa
segunda-feira nublada de novembro em plena solidão da Praia Mole, em Florianópolis:
O que é
preciso é ser-se natural e calmo
Na
felicidade ou na infelicidade,
Sentir
como quem olha,
Pensar
como quem anda
Porque quando tudo muda, temos sempre dois
caminhos: ceder ou mexer. Prefiro a segunda opção. Prefiro recriar estratégias,
reinventar circunstâncias, repovoar os sonhos. Muito do que queria há cinco
anos simplesmente já não tem mais peso, não tem mais cor. Sou diferente porque a
adversidade colocou-se na minha frente e eu soube caracterizá-la.
Tenho de regressar, de dar um passo atrás para dar
dois adiante. Como numa pista de dança. Vou contornando os percalços, tentando
não me fazer notar. Como se eles fossem cães bravos. E enquanto esta minha vontade
da intensidade continuar, enquanto a coragem me fizer companhia, enquanto a
sede do novo ditar as escolhas que faço, serei inconsequente e irresponsável.
Porque quando tudo muda, temos de mudar também.
A graça é essa.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Ao pintor de palavras
“Quem te deu este direito? Cadê a permissão para
romper a minha calma, invadir a minha tranquilidade – que tanto lutei pra
conquistar? Você veio sem avisar, decorou meia dúzia de palavras bonitas,
sussurrou tonterías ao meu ouvido...
e achou que bastava.
“Eu tenho ele. Ele é real, é de carne e osso.
Você não. Você é um sonho, somente
uma ilusão distante e passageira: com este jeito seguro, com esta convicção
leviana e tão sem razão. Nós construímos uma história e, pela primeira vez na
vida, sinto-me cuidada. Ele é real. Você não.
“Poderia dar certo, é verdade. O tempo diria.
Talvez nunca saberemos. O único e verdadeiro amor é o impossível – foi você
quem me ensinou, lembra-se? Num daqueles e-mails. E se senti qualquer coisa por
ti, se te quis com ardor naquela noite e contemplei o teu sorriso belo, foi bem
melhor tudo permanecer na fantasia. A realidade é um veneno, é um tapa na cara,
uma bofetada em cheio. Apaguei os teus recados.
domingo, 17 de outubro de 2010
Aula de catalão*
Decidi aprender uma língua nova. Sabem como é:
ultrapassei os 50% dos 27, num ritmo galopante até os 30 e, se não for agora, se
adiar isso por preguiça ou cobiça, receio perder a chance que a jovialidade
ainda me oferece. É que o tempo é arisco, meus caros, é traiçoeiro, é fugidio.
Sem namorada, sem casa, sem emprego, sem inspiração
literária e sem meu cartão do banco (isto já é uma outra história!), fuxiquei
na internet e encontrei um curso de catalão. Minha consciência, e alguns
amigos, estranharam: “Você podia aprimorar o inglês, investir no espanhol,
interessar-se pelo francês, pelo alemão, pelo italiano... mas não, colocou
nesta teimosa cabecinha que é o catalão, justo o catalão”, esbravejou meu alter
ego.
De médico e louco todo mundo tem um pouco. Outros,
como eu, têm muito. Então cá estou entre os jo
sóc e os fins demà do idioma. Ainda
só sei o básico. João és el meu amic,
me’n vaig a casa e són les set menys quart. Arranho uma ou
duas sentenças após quatro módulos de “aulas”. O catalão é tão próximo do
português – tanto ou mais que o castelhano – que se torna até fácil.
Também não pensem que é só na Catalunha que o
idioma é posto em prática. Não senhores! Mais de 10 milhões o utilizam. O
catalão é a língua oficial de Andorra. Repito: de Andorra! Ou seja, quando for
para lá, irei me comunicar com classe e desenvoltura, como se fosse um... um...
uma pessoa que nasce em Andorra. Conseguem vislumbrar o meu empreendedorismo
cognitivo?
Já era para eu estar em Barcelona, essa é a verdadeira
verdade em abraçar o catalão com tanta força, de cravar minhas unhas nas suas
costas e aconchegar o rosto no seu ombro. Meu coração salta, dá um duplo twist
carpado, um mortal ao inverso quando ouço falar das Ramblas, do Parc Güell, do
Montjuic, da Gràcia. Nunca entenderei bem o porquê desta ligação tão íntima e
visceral – não há o que entender, há o que ser vivido.
"Barcelona é uma cidade feiticeira. Mete-se-nos na pele e rouba-nos a alma sem darmos por isso." (Carlos Ruiz Zafón)
Aprendo catalão para descodificar as mensagens
que Barcelona sussurra nos meus sonhos. Aprendo catalão para sentir o insentível, absorver o inabsorvível, narrar o inarrável. Poucas vezes na existência
temos tanta certeza emocional de algo. Poucas vezes damos autonomia à intuição,
cerramos os olhos para sermos conduzido pelo vazio.
Esta simplicidade é o meu sangue. Este desleixo,
o descomprometimento, a irresponsabilidade, a subversão perante o ordenado, a
regra, o senso, o mesmo é o meu afrodisíaco.
A minha paixão não está propriamente nas coisas, nos gestos, nos atos. Não
reside em ter ou ser. A minha paixão não é estado de espírito, não é mensurável, não
é valorada. A minha paixão é.
Enquanto eu ainda a for.
* Texto de
13-10-2010
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Londres, 24-09-10
A capital inglesa é uma saga. Às vezes, uma
daquelas ficções científicas que assistimos na infância. Londres gera um
fascínio descabido, possui uma pluralidade de costumes e rostos que desata da
cidade qualquer nó de vínculo com a ilha. Londres ainda pertence à Inglaterra
por uma mera coincidência geográfica.
Tudo flerta com a diversidade, com a mistura. Das
pessoas às lojas. O mais impressionante, apesar de tudo, é que as coisas
funcionam com eficiência maquinal. Há uma lei de conduta implícita que dura
cerca de dois séculos – enquanto isso, a imigração em Portugal deve beirar as
duas décadas de existência.
O visual da urbe, tradicional e cinematográfico,
também rouba a cena. A imagem imponente do Big Ben, às margens do Tâmisa, dá um
realce poético ao frenesi
pós-moderno. Londres para nestas horas de puro deleite contemplativo. E a fog, o clima chuvoso, o ar bucólico...
tudo isso são afrodisíacos infalíveis.
Por azar, não consegui pegar a troca da guarda
no Palácio de Buckingham. Nem cruzei a famosa faixa de segurança da Abbey Road.
Mas nada para se lamentar. Vi desde os lépidos esquilos no Green Park aos
principais pontos turísticos da capital (entre eles, os estádios Stamford
Bridge, Emirates e Wembley). Passeei pelas ruas abarrotadas de gente, peguei um
daqueles ônibus clássicos, bebi cerveja nos pubs,
comi uns pratos típicos, pratiquei meu inglês tupiniquim, me perdi e me
encontrei.
Londres permite. E se esperava muito, me
surpreendi com o mais. Viajar é ter a mente e o coração abertos. Experienciar é mesmo isso.
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